segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Uma nova aventura

Às vezes é preciso despentear os cabelos e partir à aventura! Este ano, achei que era o momento certo. Convido-vos, por isso, a acompanharem essa aventura em forma de viagem, aqui, enquanto este blogue fica suspenso sem datas previstas.

Muito obrigada pelo vosso tempo, pelas vossa atenção e pela vossa partilha!

Até breve :)

sábado, 10 de agosto de 2013

Elogio do lar

Nem sempre nos lembramos da arte da gratidão quando contemplamos o quotidiano e porém é precisamente no quotidiano que essa gratidão mais faz sentido. Gratidão pelas coisas e espaços invisíveis à força de tanto os vermos, que nos servem dia após dia, reclamando de nós muito pouco e dando-nos o conforto de uma rotina reconhecível.

Por razões de que muito em breve falarei aqui no blogue, aproxima-se a hora de deixar a casa em que vivi nos últimos dois anos e qualquer coisa. Dois anos e qualquer coisa pode não parecer muito pelos padrões habituais, mas numa vida de mudança frequente os afectos moldam o seu jeito peculiar de ser ao pouco tempo que têm para se construir. Não quero com isto dizer que se tornam superficiais, muito pelo contrário: quero com isto dizer que uma pessoa aprende a ir directo ao núcleo essencial de algo ou alguém, à essência daquilo que acredita que pode amar. Nos tempos como nos espaços exíguos, as amizades próximas estão por vezes à distância de poucas semanas e o aprazível sentimento de estar em casa também.

O post de hoje nasce da vontade de recordar ainda antes de partir a casa que foi minha nestes últimos anos, que é minha ainda, embora por pouco tempo mais, e que foi tão casa e tão minha como as várias outras em que fui vivendo desde que deixei a morada familiar.

Sem mais delongas, coisas que eu gosto na minha casa:

  • Que se pode dormitar tranquilamente na sala e ver o céu azul ou cinzento, consoante o mês
  • Que em vez do céu azul ou cinzento se pode ver a paisagem humana dos prédios vizinhos e que de tempos a tempos ecoam vozes e barulhos de vida em curso nos pátios das traseiras
  • Que o chão é de madeira verdadeira, alaranjada, em quadradinhos perfeitos 
  • Que tem paredes creme e não apenas brancas
  • Que o pé direito não é muito alto nem muito baixo, mas de uma dimensão humana, aconchegada, gerível 
  • Que tem uma cozinha grande, com uma janela enorme
  • Que, excepto na cozinha, nunca está muito calor, muito frio, muito húmido ou muito seco 
  • Que tem uma varanda 
  • Que é uma casa viva, num prédio vivo, num bairro ainda mais vivo...

Outros pontos haveria, mas esta lista, como todas, vale também por ser finita e acabar em reticências.

O importante está dito. O silencioso elogio do meu lar, escrito numa manhã de Verão, de janela aberta para os pátios onde se ouvem pássaros e alguém faz panelas tilintar, e com o chão de madeira alaranjada e perfeita quase todo a descoberto. Sacos em vez de móveis, memórias empacotadas para a próxima aventura, e coração cheio, como deve ser numa despedida.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 9

Quando um blogue pára por um tempo considerável, por razões maiores impostas pela vida, há que saber aceitar o hiato e retomar a marcha no ponto em que ela estiver. Mesmo que seja na iminência de uma nova interrupção, desta vez sem fim imediato à vista. É verdade, mudanças grandes se avizinham e embora não tenha intenções de parar com a escrita, será em moldes diferentes do que tenho feito até aqui. Mas as novidades virão a seu tempo.

Hoje, que é segunda-feira, retomo o desafio lançado aqui:


O quarto não era quente, mas abafado. Auto-contido. As suas paredes testemunhavam tragédias e milagres sem nada contarem. A denúncia, se é que a havia, era feita por aquele cheiro insuportável a vida desinfectada e funcional, pelas vozes murmuradas e pelos incontáveis esgares de uma dor que ninguém se atreve a chamar pelo nome. Aqui sobrevive-se, diziam eles. Aqui foge-se à morte sem sorrisos nem movimentos desperdiçados. As coisas nuas e cruas da vida exalam todas esse odor persistente. Larguei-lhe a mão magra sobre o cobertor e corri para uma janela aberta lá fora. No corredor do hospital, liberto por uma brisa limpa de Outono, fiquei a imaginar-me em navios sem nome, encostados ao horizonte.

*

Até já!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 9

Depois de uma super lua quase pousada sobre as nossas cabeças, estendamos a vista até aos confins da terra, ali onde céu e mar se tocam:


Aí está, meus amigos, o desafio desta semana. Espero que a imagem vos puxe pelo lado navegante da alma e que sem dificuldade flutuem pelas águas, mesmo para lá das cem palavras mínimas. E já agora, por favor cliquem na fotografia, que se percebe melhor em formato maiorizinho.

Por hoje é tudo. Ou quase tudo. Ainda vos quero deixar com um incentivo adicional, que encontrei aqui, ideal para qualquer pessoa à procura de serenidade e inspiração, mas sobretudo para quem tem saudades terríveis de ouvir rugir o oceano na paz das primeiras horas da manhã. Mérito do autor do vídeo, que não sou eu, mas o gestor do canal que visitarão.

Até já!

domingo, 23 de junho de 2013

Dormir, escrever, ler

Haverá coisa mais deliciosa que dormir num jardim, na hora do sossego, em que pássaros dispersos insistem em piar e a tarde se estende interminável?

Acordo no banco, camisola pontilhada por bichos minúsculos que deslocam amarelos e pretos vagarosamente.

As árvores estão no lugar onde as deixei, tranquilizadoras e imóveis. É como se o tempo não passasse aqui e eu pudesse ser sempre a mesma. 

A mosquitada dardeja e cada ser cava para si um espaço na existência.

Cactos inclinados, vizinhos de três palmeiras e outras copas verdejantes, saúdam o meu regresso.

*

Fui parar a este vídeo de modo semi-aleatório. Aqui estão algumas frases sobre as quais vale a pena meditar:

"Pessoas gostam de pessoas."

"Crie frases curtas."

"Comece com uma pergunta."

"Seja um escultor de palavras."

"Faça do humor o atalho para o cérebro."

"Termine um parágrafo criando uma abertura, um prefácio, para o próximo parágrafo."

"Escreva com compasso."

"Ouse errar, às vezes."

"Transforme o seu leitor em cúmplice."

*

Se passarem na Gare do Oriente, não se esqueçam de visitar a feira do livro permanente que por lá se mantém, a preços sempre convidativos.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A escrita vista por dentro, com Robert Owen Butler

Uma sugestão para os mais dedicados:

Porque não uns serões serenos e aconchegados na companhia da série Inside Creative Writing, disponibilizada pelo canal floridastate, da Universidade do Estado da Flórida? 

São 17 episódios com cerca de 2 horas cada, nos quais Robert Olen Butler, escritor americano que recebeu o Pulitzer em 1993 pela obra A Good Scent from a Strange Mountain, partilha connosco o seu processo de escrita de um conto. 

Confesso que durante os primeiros 10 minutos de vídeo estava bastante céptica, mas a ideia era no mínimo original, pelo que decidi continuar a ver. E não me tenho arrependido!

Acaba por se tornar um exercício viciante, esta coisa de explorar os meandros da mente alheia, já para não falar na delícia que é ser leitora de uma história que a cada momento se molda e ao mesmo tempo ir imaginando as voltas que daria eu a esta ou àquela passagem do texto.

Com caderno para tirar notas ou uma taça de pipocas ao colo, vale bem a pena persistir, mesmo se como eu, for meia hora aqui meia hora ali. Vou no terceiro episódio ainda, mas lá chegarei à meta.

Aqui fica o primeiro episódio:

 

Vemo-nos no próximo post!

terça-feira, 18 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 8

A resposta de hoje ao desafio da semana passada chega com umas horas de atraso, mas chega:

É um mercado com a saciante abundância de todos os mercados. Tem bancas de queijo e bancas de legumes e bancas de peixe e de carne e de especialidades regionais, tem frascos e conservas e cestos, cores e sabores para todos os gostos, salgados e acres inesperados. 

Mas há nele algo de deslocado que assalta o visitante. As bancas flutuam no espaço como barcaças em civilizada disputa, guiadas nas investidas por capitães hirtos vestidos de avental atrás da vitrina. Aqui não se apregoa, aqui não se regateia, e os vitoriosos são eleitos com uma discreta transacção: dinheiro que muda de mãos ou um cartão passado numa ranhura.

Estamos no norte; serão porventura já os rigores do árctico a ditarem a sua lei. As coisas são polidas na face e na forma, assim como as pessoas. Nada do caos seminal dos espaços mercantis do sul, onde se grita com as mãos a rasgar o ar para dar ênfase. Nada de olfactos agredidos pela pungência de cheiros ubíquos. Os olhos comem em sossego.

Há uma diferença indesmentível e talvez seja de modo. Os cogumelos são genuinamente cogumelos, orgulhosamente cogumelos, mas jamais avassaladoramente cogumelos. Maravilham sem invadir. A experiência aqui vive-se de pé. No sul sustenta-se como se uma onda quente, desconexa, interminável nos enrolasse para dentro das suas profundezas.

E aí está ele, o texto desta semana. Amanhã teremos novo post, para redimir a ausência dos últimos dias. Até lá, boa escrita!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 8

Olá a todos! Hoje, 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, nada melhor que um fantástico desafio de escrita nesta língua linda e mágica que o devir histórico nos deu. A proposta é:
 
 
A partilha de textos começará na próxima segunda-feira, com o requisito único habitual: pelo menos cem palavras sobre a imagem hoje divulgada. 

Bom feriado, boas leituras e boa escrita!

sábado, 8 de junho de 2013

A potência dos verbos

Pat Pattison, sobre a potência dos verbos (canal Berkleemusic):

"The difference between really great writing and average writing is always in how the writer uses" verbs. (...) They are the amplifiers of language and the wattage that your verbs have (...) is the thing that drives everything else. (...) So I would say if you want to be a better writer tonight start noticing your verbs." 
 


Gosto deste conselho. O mundo da escrita parece-me um pouco obcecado com advérbios e adjectivos, mesmo se apenas para condenar o crime de os semear ao desbarato nas frases. Já perdi conta às vezes que li advertências sobre este uso excessivo, mas a parte mais útil do conselho vem na segunda metade do raciocínio, à qual muitos desses textos de admoestação não chegam: os adjectivos e advérbios podem com muito proveito ser substituídos por um verbo poderoso, seleccionado a dedo, e colocado no sítio certo à hora certa.

Confesso-vos uma coisa: gosto deste conselho sobretudo porque ainda não tinha pensado muito nele. Não me recordo da última vez que parei a ponderar a força ou subtileza de um verbo. Não quer dizer que não o faça, do mesmo modo que pondero (até demais!) cada palavra que escrevo. Mas raramente avalio um verbo enquanto verbo, consciente da sua função específica, e mais, consciente de que essa função específica pode não se resumir a cortar a inércia numa história e a levar uma personagem de um lado para o outro.

Um verbo dá também um ritmo, um modo, uma dimensão, e se bem escolhido dispensa qualificativos adicionais para exprimir essas características. Li recentemente numa livraria da praça uma página onde se dava um bom exemplo disto. Não me recordo palavra por palavra do exemplo, mas tinha algo a ver com um carro que ziguezagueava por uma estrada de montanha abaixo perseguindo outro. Estou a parafrasear muito livremente toda a passagem, por isso não se zanguem se não corresponder à verdade, mas do que me recordo dizia o autor desse manual de escrita criativa que um tal cenário dispensava considerações adicionais sobre como o carro ia "depressa", pois a imagem criada pelos termos "ziguezagueando" e "perseguindo" era suficiente para exprimir a ideia.

Além de aliviar a pressão que os advérbios e adjectivos colocam sobre as frases, atentar nos verbos tem também o mérito de reduzir a sensação subreptícia de repetição que se instala com o uso frequente do mesmo verbo ao longo do texto, algo que tende a suceder com verbos mais comuns como "dizer", "ser", "estar", "ficar", "fazer", mas que pode acontecer com todo o tipo de verbos, especialmente quanto o autor tem um ou dois preferidos, que são como velhos amigos a aparecerem todos os dias à hora marcada para o chá.

Como alerta Pat Pattison, também não vale a pena entrar na loucura dos sinónimos rebuscados, nem se justifica qualquer ódio aos verbos que ainda agora referi, mas não há dúvida de que uma escolha variada de verbos pode acrescentar ritmo e significado ao texto. Nesse sentido, um bom dicionário de sinónimos é um aliado importante.

Antes de terminar, deixo-vos em excelente companhia com Robert Frost, no seu lindíssimo Putting in the Seed, citado por Pat Pattison:

"You come to fetch me from my work to-night
When supper's on the table, and we'll see
If I can leave off burying the white
Soft petals fallen from the apple tree.
(Soft petals, yes, but not so barren quite,
Mingled with these, smooth bean and wrinkled pea;)
And go along with you ere you lose sight
Of what you came for and become like me,
Slave to a springtime passion for the earth.
How Love burns through the Putting in the Seed
On through the watching for that early birth
When, just as the soil tarnishes with weed,

The sturdy seedling with arched body comes
Shouldering its way and shedding the earth crumbs."


Até ao próximo post, desejo-vos um excelente fim-de-semana, boas leituras e boa escrita!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Uma associação de palavras

Cheiro .. Memória
Sete .. Semana
Perdido .. Encontrado
Janela .. Dia
Surpresa .. Festa
Impenetrável .. Escuridão
Barco .. Frágil
Palavra .. Muitas
Signo .. Mistério
Cadeira .. Quadrada
Água .. Imensidão
Feliz .. Abstracto
Posicionamento .. Oposição
Quarto .. Crescente

Era criança quando jogava este jogo, mas porque não retomar o hábito? Óptima prática ao despertar ou ao deitar, demora menos de cinco minutos (ou muito mais, se quisermos) e é uma excelente forma de estimularmos novas possibilidades de escrita. E de nos conhecermos melhor.

Mas atenção. Isto não é suposto ser ciência de foguetões. Uns segundos para cada dupla de palavras e já está! E mais, evitem a tendência de corrigir! Podem começar com esta lista que vos dei ou podem partir do zero. E se quiserem partilhar connosco aqui no blogue, ficarei feliz!

Dica adicional: é interessante ver as respostas que a vossa mente lança para as mesmas palavras em diferentes horas do dia ou em diferentes dias da semana (ou se vamos ser ambiciosos, em diferentes meses do ano ou em diferentes anos da vida). Uma ideia para os realmente empenhados é guardar a primeira lista de palavras que usarem e ir regressando a ela regularmente. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 7

A resposta de hoje, ao desafio da semana passada, lançado aqui.

Na minha ideia há um homem. Este homem, com braços cansados, ergueu uma parede e na parede cola o desenho de alguém. Na parede cola os cacos desencontrados de alguém. Talvez este homem de braços cansados pense apenas no cimento. Talvez faça de propósito. Ou talvez siga o desenho torto sem juízo ou julgamento. Quando aqui passo, que é quase nunca, porque a estação fica fora do meu percurso habitual, pergunto-me se foi acaso ou intenção. E sinto os meus próprios cacos, que se desmontam, e as minhas próprias mãos, que apontam divergentes, e o olhar desviado do mosaico que não está em mim, nem nas escadas, mas numa distância qualquer.

Bons escritos, boas leituras e boa semana!

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A escrita espantada

A reverência. Escrever num espanto por cada coisa, como milagre que é, por cada estrela do céu estrelado, ou pedra do caminho, escrever dentro do sufoco que toma o peito quando o mais profundo das formas se manifesta. Lamentamos secretamente as oportunidades perdidas de nos sentirmos pequenos, insignificantes em nós mesmos, completos no todo. Faltam-nos nos tinteiros planícies, mares desertos, pântanos, a selva misteriosa, ou simplesmente o mundo minúsculo espiado à altura da relva em que nos deitamos por fim.

***

A propósito deste fragmento, rabiscado hoje no Moleskine numa versão semelhante mas não igual à que chegou aqui ao blogue, fui caçar na estante o adorável e diminuto conto "Porque é tão importante ver as estrelas", do livro Fronteiras Perdidas, de José Eduardo Agualusa. Fui caçar, especificamente, esta passagem:

"A avó de Fortunato nasceu em Calomboloca e viu pela primeira vez a luz eléctrica, já adulta, quando o marido a levou para Luanda. Ao contrário do que seria de esperar não ficou encantada. Na opinião da velha senhora o esplendor eléctrico das grandes cidades, ao ocultar o brilho das estrelas, prejudicou a humanidade. Ela acha que, tendo deixado de ver as estrelas - tendo deixado de se confrontar, todas as noites, com o ilimitado, o infinito, a fantástica imensidão do universo -, os homens perderam a humildade, e com a humildade perderam a razão."

***

Sempre a propósito, e fazendo do texto de Agualusa meu trampolim, aqui ficam alguns desafios:

1. Escrever, na primeira pessoa, sobre o dia em que a avó de Fortunato viu pela primeira vez a luz eléctrica.

2. Descrever o céu nocturno como se tivessem de o explicar a uma pessoa que nunca o viu nem sabe o que é. Não usar as palavras céu, noite, estrelas, lua, escuro, claro, azul, branco, negro, nuvens.

3. Descrever detalhadamente uma lâmpada. Descrever o que lhe sucede quando se acende.

4.  Em 5 minutos (cronometrados!) escrever as palavras e frases que vierem ao espírito a propósito do termo "infinito".

5. Numa mesma noite, ao mesmo tempo, duas pessoas olham para a lua cheia. Uma está num barco. Outra numa casa. Descrever quem são e o que pensam.

6. Fazer alguma coisa pela primeira vez e escrever sobre isso.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 7

Olá a todos e obrigada por mais esta visita! No desafio de escrita de hoje proponho-vos escrevermos cem palavras ou mais sobre a seguinte imagem:


Como sempre, na próxima segunda será a hora de partilharmos os nossos textos, por isso não deixem de marcar presença. E entretanto vão espreitando o blogue, porque haverá novidades!

Boas leituras e boa escrita!

domingo, 26 de maio de 2013

Escrever Escrever em jeito de Brasil

Este sábado regressei à Escrever Escrever, uma dinâmica escola de escrita criativa instalada num terceiro andar do Largo Camões, com uma nesga de vista para o Tejo e duas salas imensamente acolhedoras onde as palavras correm livres.

Ali fiz, em tempos, três workshops: um de escrita de viagens, outro de escrita criativa em geral e outro dedicado a "desformatar" através da escrita. 

Desta feita, o tema que me fez voltar foi "Escrever à Conversa: palavras soltas em jeito de Brasil". Um evento de entrada livre, dinamizado por Viviane Ferreira de Almeida, que ao longo de duas horas nos deu a conhecer uma admirável panóplia de escritores brasileiros, dos mais contemporâneos aos mais antigos, sem esquecer os verdadeiramente intemporais. O nome Clarice Lispector não deixou de marcar presença, mas com ele vieram outros, como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Raduan Nassar ou Cora Coralina.

O grupo manteve-se pequeno, e talvez por isso mesmo o ambiente se tenha rapidamente aconchegado naquele espaço onde os quase-estranhos se podem tornar quase-amigos, ou pelo menos partilhar qualquer coisa de si que não a habitual capa protectora do "chamo-me isto e faço aquilo".

A apresentação de textos e seus escritores foi sendo pontuada por breves desafios de escrita. Uma das pequeníssimas passagens que escrevi, em resposta a um desses desafios, foi: "Juntos fazemos o teu avesso e o teu direito. E quem pode dizer onde estás tu e a tua essência? Quem pode dizer se és mais o pé que samba ou a cabeça que foge para um céu azul? Somos os teus dois maridos."

Do que vi e ouvi, gostaria de partilhar quase tudo. Mas em lugar do quase tudo, partilharei alguma coisa.

Um filme sobre um poema de Carlos Drummond de Andrade, a lembrar-nos que na nossa língua ou em qualquer outra, não deixam de ser pesadas e concretas as pedras que nos surgem "No meio do caminho" (canal imoreirasalles):


E a longa e irreverente frase de abertura de um texto de Raduan Nassar, "Aí pelas três da tarde", a convidar à liberdade, ou melhor, à libertação:

"Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida." (fonte: releituras)

Até segunda, boas leituras e boa escrita!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 6

Têm sido dias velozes, com a escrita a repartir o espaço com tantas outras coisas, entre devoções e obrigações, cada uma delas indispensável à sua maneira. Mas o prometido é devido: o desafio foi lançado aqui, a resposta segue abaixo. A ver o que me deixam os queridos leitores de presente na caixa dos comentários!
 
Dentro do círculo.
É o momento que os aparta dos demais.
Lembro-me bem de estar assim,
pontapés no ar,
balançados e lentos,
a conversa de cá para lá em códigos,
naquela idade em que nós
é a palavra mais importante.
Olho discreta e enviesada,
atrevo-me.
Roubo ao momento uma partícula
e corro dali em fuga,
com o meu fragmento furtado no bolso.
A mão fechada a disfarçar,
como se carregasse comigo uma borboleta
ou outro tesouro.
Sinto-me com febre.
Talvez seja o sol no empedrado
que me toca ao morrer
ou talvez seja outra coisa
como tu e o teu fantasma
balançando pés e ar e riso.
O momento passou com o eléctrico
que arrasta rua abaixo o som
e o sol passou
caído algures por trás das casas.
Sob o verde que sobra e derrama
a última luz do dia sobre o alcatrão
restam os meus sapatos
impenetráveis.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A escrita de mote em mote

Às vezes um empurrãozinho é preciso. Naqueles dias em que a mente vai vestida de branco, ou melhor, de cor nenhuma, tão vazia, tão vazia, que mais parece cheia de tanto nada que tem, ajuda ter à mão um molhinho de ideias peregrinas - e sobretudo alheias - para desencalhar o navio.

Mas que é isso?! Agora advoga-se aqui o plágio?

Não, nada disso. Advoga-se, isso sim, o uso daquilo a que, à falta de melhor ideia, chamarei o método do mote. O método do mote é basicamente aquele em que alguém nos dá um conjunto sumário de pressupostos para um texto e nós partimos daí à desfilada.

Em regra, um mote não é muito longo. Mas pode ser tão complexo ou tão simples quanto se quiser e tão banal ou tão invulgar quanto se quiser. Pode ser apenas algo como "descreve os últimos cinco minutos da tua vida". Mas também pode ser algo como "descreve o dia em que um famoso lutador de sumo decide fazer dieta e tornar-se bailarino".

E onde estão eles, esses motes?

Em livros como o 642 Things to Write About, por exemplo, onde se encontram coisas como "o próximo som que ouvires e o que o causou", "a tua experiência mais transcendente com um gelado" ou "o pedido de desculpas que uma figura pública recentemente caída em desgraça deveria ter dado, em vez daquele que foi escrito pelo seu pessoal de relações públicas".

Depois, gratuitamente, na Internet, sob muitas formas e feitios. Convém sempre verificar no próprio site as condições de uso, pois se alguns oferecem livremente os seus motes (ou writing prompts) sem qualquer especificação, outros fazem alguns pedidos, por exemplo, que os materiais em causa não sejam utilizados para fins lucrativos. Algumas hipóteses interessantes: esta, esta e esta -- e claro, este blogue em que estão agora, onde actualmente às segundas-feiras há desafio de escrita e onde tenciono ir deixando outras ideias também, não apenas através de imagens.

Uma forma de arranjarmos os nossos próprios motes é pegar num qualquer artigo de jornal ou revista e de forma aleatória seleccionar uma frase ou, melhor ainda, um conjunto de três palavras separadas no texto e partir daí. É possível fazê-lo com os tais jornais e revistas, com livros, letras de música, receitas de cozinha, bulas de medicamentos... estão a ver a ideia.

Pessoalmente, não uso os motes para escrever uma história com princípio, meio e fim,  mas sobretudo para soltar a inspiração naqueles dias em que ela está mais perra. Desaperto as amarras da mente, escrevo um bocadinho e depois acabo por me voltar para a escrita de outro texto, com as ideias que entretanto me tenham vindo à cabeça.

E sobre motes é isto, pelo menos por hoje. E já agora, se conhecerem materiais gratuitos como os que partilhei aqui hoje, mas em português, por favor partilhem-nos nos comentários, ficar-vos-ia muito agradecida!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 6

Para o desafio de escrita desta segunda-feira temos a seguinte imagem:


Cá espero as vossas cem palavras ou mais, na próxima segunda-feira, altura em que aqui colocarei também as minhas.
 
Até lá haverá novos posts, por isso não se esqueçam de ir espreitando esta janelinha virtual!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 5

Mais um texto de resposta ao desafio "Uma imagem cem palavras", cujo mote foi lançado na semana passada, aqui. Para as vossas próprias criações, mantém-se sempre aberta a secção de comentários. Boas leituras e boa escrita!

O carro rodava livre debaixo do tecto falso que era para o túnel o chão da rua. Sobre a sua cabeça havia quem arrastasse uma mala de cansaços em direcção a um hotel, quem esperasse o autocarro eternamente atrasado, quem seguisse de braço dado e passo lesto, quem discutisse discretamente ao telemóvel num recanto afastado do centro. Mas esta montra humana de vida era para ela invisível, só o torpor de estrada contínua e luzes lambendo o escuro passava para o lado de lá das suas pupilas, e mesmo assim apenas a fracção de segundo necessária para fazer cócegas ao cérebro e se dissipar.

Em oito anos de ausência Lisboa tinha mudado alguma coisa, mas ela tinha mudado tudo. Ainda assim não voltava como estranha, voltava como quem regressa ao sítio onde um dia enterrou pequenos tesouros de infância. Destapado o cofre, os tesouros converteram-se em bugigangas, mas o seu valor de algum modo duplicou e a sua simplicidade não faz senão arrancar lágrimas ao olhos.

Era assim que um choro miudinho se lhe ia entalando na garganta, varrido para fora do rosto pelo fresco da noite que escorregava pela fresta da janela semi-aberta. Iam os dois em silêncio. As palavras não serviam para dizer o que era preciso.

domingo, 5 de maio de 2013

Escrever no meio da dispersão

Escrever no meio da dispersão não é fácil. Por isso nem sempre escrevo como e quanto quero. Por vezes, não escrevo nada durante dias. Histórias a meio ou em potência, personagens adiados, versos ainda em esboço, nada cresce um centímetro que seja no cantinho ajardinado dos meus cadernos. Mas é mesmo assim. Este é o "segredo sujo" da vida de escrever: às vezes simplesmente não queremos saber dela para nada! 

Às vezes há papelada para tratar, não-sei-quê na casa que precisa de ser concertado, trabalho que sobrou para o fim-de-semana, família a que dar atenção, viagens para planear, amigos com quem se combinou qualquer coisa, mil e um hobbies, emergências de última hora, todo um mundo de coisas que nos puxa pela manga e exige prioridade. E então nós damos e damos e a escrita escorrega de mansinho para um enclave algures atrás do sofá da sala. 

Depois vem a culpa, certa e certeira. Mas a culpa é dos sentimentos cuja intensidade é porventura mais inversamente proporcional em relação ao número de problemas que resolve. A culpa, pelo menos em mim, é mãe da procrastinação, que é como quem diz, da negação. De modo que com muito custo lá deixo a culpa seguir o seu caminho pelo ralo abaixo e dedico-me ao cultivo de pensamentos mais úteis.

No meio da bulha, a primeira coisa que tento fazer é regressar à mesa da escrita. Bom, a segunda coisa que tento fazer. Depois de me arrastar pela casa em desespero, depois de não escrever há dias e dias e de estar pronta a rasgar o meu certificado de aspirante a escritora em mil pedaços, a segunda coisa que tento fazer é escrever. Parece simples, mas só é simples dizê-lo; fazê-lo é uma outra questão por completo. Experimentem escrever com a mente mais seca e rachada que o deserto do Saara à hora de almoço num dia de Verão. Exacto!

Esse é, na minha experiência, um dos principais inconvenientes de não escrever: quanto menos se escreve, menos se tem para escrever. Assim, não há outro remédio que não seja começar por algum lado (como este post, por exemplo!) e sobretudo deixar que essa primeira escrita saia livre, seja o que tiver que ser, já que muito provavelmente sairá trémula e o nosso crítico interior estará especialmente alerta aos seus defeitos.

Algumas ideias em carteira que me costuma ajudar a evitar que a dispersão e a procrastinação se perpetuem:
  1. Andar sempre com um caderno de bolso e uma caneta e tirá-los do bolso assim que surge a ocasião. Muita da minha escrita é feita em cafés e restaurantes, paragens de autocarro, no metro, em salas de espera, em jardins e em outros sítios similares nos quais, por um motivo ou por outro, me encontro à espera ou a fazer tempo. Quando ando ocupada ou preocupada com outras coisas, por vezes não me dou ao trabalho de tirar o dito caderno da carteira, preferindo ficar entregue a planos mentais sobre o que vou resolver, quando e como. A solução é tirá-lo assim que me sento em qualquer lado e folheá-lo: normalmente acabo sempre por escrever mais qualquer coisa.
     
  2. Escrever com o que houver à mão. Se não houver caderno de bolso, improvisar. Recibos, guardanapos ou lenços de papel são sempre uma escolha popular. Se não houver caneta ou lápis é mais difícil, mas nos cafés regra geral são muito prestáveis em arranjar, se pedirmos com um sorriso.
     
  3. Não ser muito exigente. Como disse acima, não dar margem para que o nosso crítico interior se ponha às chicotadas. Depois de uma temporada sem escrever, permito-me sempre ficar satisfeita com qualquer bocadinho de frase que saia, aproveitando até a mais pequena pausa no dia para anotar uma ideia que porventura me tenha vindo ao espírito.
     
  4. Escrever de manhã, o mais perto do acordar que for possível. Se pudesse escolher, adorava que o meu dia tivesse duas manhãs e uma noite, nada de parte da tarde! Essa é a altura do dia em que, se tiver dormido bem, a minha mente está mais fresca e comunicativa, apta a congeminar e escrever o próximo grande romance do século (ok, se calhar apenas mais um conto perfeitamente anónimo, mas é bom na mesma!) De manhã ainda não me embrulhei nas canseiras e preocupações do dia, pelo que posso dar à escrita a minha atenção completa. Além disso, por essa altura muita gente concede ainda ao sono mais uns minutinhos, pelo que não há distracções de maior. Sei que há pessoas que diriam que estou louca, que a manhã é um túnel de nevoeiro completo e que só à tarde ou à noite a cabeça deles começa a carburar. Bom, o que escrevo aqui é apenas a minha experiência, aquilo que funciona melhor para mim e, creio, provavelmente para muitos outros também. Mas para quem for adepto de escrever ao cair da noite, e assim se sentir melhor e mais produtivo, força! O que importa é arranjar um momento do dia em que se possa assegurar uma mente clara, boa disposição e uma atenção não dividida. E, claro, garantir, ainda assim, uma dose razoável de sono de beleza.
     
  5. Deitar-me mais cedo. É a batalha de uma vida, minha gente! Gostar da manhã e da noite ao mesmo tempo é uma das razões pelas quais durmo quase sempre menos do que devia. E quando isso acontece, acreditem que se nota, na pouca escrita como no mau humor. Nas épocas de maior dispersão, há também a tendência de querer esticar o dia até às pontas, mas a verdade é que ficar acordada até mais tarde raramente se traduz em escrita de qualidade ou em quaisquer outras tarefas concluídas com particular brilhantismo. Já ir para a cama mais cedo resulta, em regra, numa mente mais clara e imaginativa no dia seguinte, para além de me permitir acordar ainda mais cedo do que o habitual, rendendo-me assim um tempinho de escrita extra, antes de o trabalho e o resto do dia se instalarem.
     
  6. In extremis, sacrificar alguma actividade. A verdade é que não temos tempo ilimitado, nem podemos fazer tudo ao mesmo tempo. Eu gostava, acreditem, e mais de uma vez tenho tentado, mas não é possível. Depois de uns tempos com uma agenda semanal a rebentar pelas costuras, acabo sempre por chegar a esta mesma conclusão. E, com alguma reflexão sofrida, decido o que tem de ficar para trás. Não é fácil, porque gosto mesmo de muitas das coisas que faço, mas em última análise abandonar uma delas ajuda-me a apreciar melhor as outras. A questão sobre qual das actividades abandonar é muito pessoal. Para alguns, se calhar, essa a actividade será a própria escrita. Não é uma resposta certa nem errada, é o que é. Mas para mim a escrita está entre as prioridades e por isso o machado sacrificial cai sempre noutro lado.
     
  7. Não me massacrar com isso. Gostaria de escrever sempre muito e bem. Ou até pouco e bem. Bolas, até mesmo muito e menos bem, desde que nada de verdadeiramente horripilante! Mas a verdade é outra. A verdade é que há dias em que escrevo alguma coisa e outros em que não escrevo nada. Há raros momentos em que escrevo muito. Mas nem sempre bem. Muito do que escrevo fica pelo caminho (gaveta, às vezes lixo). E depois há alturas em que não escrevo nada durante muitos dias e quando recomeço só escrevo mal. Esta é a vida como é. Correcção, esta sou eu como sou. E só como sou poderei escrever. Trabalhar para ser melhor, sim, sempre! Massacrar-me por não ser diferente... para quê? 
Às mães que aqui passarem hoje, desejo que seja um fantástico dia! E a todos os leitores, sem excepção, desejo um bom domingo, boas leituras e boa escrita!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Entreabrindo


      Post convidado, da autoria de Mar      

Há uns tempos, aqui, citou-se Alberto Caeiro. De Caeiro e daquele post, trago a frase “Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;”. 

Saltando de uma janela entreaberta, saí para o mundo e vim dar a uma cidade. Uma cidade, contudo, mais fechada do que a janela que pretendi escancarar. Ou assim parece, em muitos dias - talvez demasiados, talvez poucos. Independentemente disso, aprendi a sair e a tentar abrir esta janela que é a cidade onde moro, porque, aqui, ou noutro sítio qualquer, está “todo o mundo lá fora” e eu quero tentar conhecê-lo e percebê-lo. 

Não há palavras que permitem explicar ou materializar verdadeiramente o que é a experiência de um emigrado. Mesmo a de um emigrado que saiu por vontade própria, sem ser impelido pelas circunstâncias menos boas em que se encontrava. Eu pelo menos, não consigo; por isso, fiz minha uma outra frase que é de outrem, aquela que nos diz que “uma imagem vale por mil palavras”, e trago comigo sempre uma máquina fotográfica. 

Esta experiência visual que começou há dois anos e meio e com ela construi uma relação mais aberta com o sítio onde moro, mais honesta com as pessoas que me circundam e, sobretudo, aprendi que a “janela fechada” são muitas vezes os nossos olhos que estão simplesmente desatentos (quando não cerrados) e que, reitero, “o mundo lá fora” é já aqui, onde nós estamos. Com todo o respeito a Pessoa e refreando constantemente o meu próprio impulso de sair, para onde quer que seja.

Um dia partilharei as imagens. Agora, ficam as toscas palavras.

     Visitem Mar em http://pontosdevista.aminus3.com/      

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 5

Tenho andado de férias, lagartando ao sol. Por isso também o blogue vai a passo mais pachorrento. Mas com a nova semana que desponta, voltamos aos desafios, com esta imagem:

 

Já sabem: um mínimo de cem palavras sobre a imagem em questão, a partilhar aqui na próxima segunda-feira, com a secção de comentários aberta a todos os que quiserem participar.

Boa escrita!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Casa-comboio, palavras-simples

Hoje acordei cedo, nem oito eram. Foi nas horas calmas da manhã que desci a rua despreocupada até ao Jardim, onde me sentei no colo de uma árvore a ler, aquecida pelos primeiros raios de sol.

Companhia: A Casa-Comboio, de Raquel Ochoa, livro distinguido em 2009 com o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís.

A simultânea riqueza e singeleza de algumas das suas frases tem-me prendido a atenção. A forma como em poucas penadas Raquel Ochoa parece captar a essência de uma complexidade, seja situação, personagem ou cenário, como aqui:
"Por isso também ela encetou a economia prática das palavras, dos sentimentos, dos anseios. Se Deus queria que fosse este o seu destino, porquê perder tempo a duvidar?"
Ou aqui:
"A estação fervilhava de hipóteses: de negócios, de destinos, de refeições."
Fez-me pensar em como gosto tanto de ler frases limpas e exactas e em como, ironicamente, ao escrever me puxa sempre o pé para a prolixidade.

É a batalha de uma vida. Pegar nas palavras e escorrer-lhes a gordura, destilar, destilar, destilar. Ir ao essencial. Escolher, para o mesmo sentido, a palavra mais simples. Mais perfeitamente simples, sem excesso nem defeito.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 4

Depois de um longo passeio pelo mundo, nada melhor que outro desafio, neste caso o quarto texto da série "Uma imagem cem palavras". O mote foi lançado aqui e hoje é dia de resposta. Não hesitem em deixar também os vossos textos na secção de comentários. Boa escrita!
 
Dono do espaço. Talvez inconsciente, mas suficientemente ciente da sua plumagem. E respectiva imponência. Eu, com a devida deferência, espero que ele me permita o clique. O momento emoldurado, um pavão apanhado em frente à objectiva. Como é hábil, a minha mão! E furtiva! Entrego o contentamento ao orgulho, mas lá por dentro sei bem que é mérito do pavão, e não meu. Veste elegantemente as cores que a natureza lhe deu e sem desassossego assume a exuberância. E consente ao mar de gente que vem e que vai um arco-íris sem chuva. Arqueado e precioso e fulgurante como um sonho de infância.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A decisão de dar um longo passeio pelo mundo

      Post convidado, da autoria de Carina A.      

Escrever sobre a decisão de dar um longo passeio pelo mundo a um mês da partida é um exercício difícil. Estou no olho do furacão e as palavras escorrem-me das mãos como um vento indomável que rasga todas as folhas úteis que tento escrever. 

Ao tentar resgatar as palavras para dar corpo a um texto, lembro-me de um poema que muitas vezes me assomou à ideia quando ponderava a hipótese de partir: 

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não basta não ser cego 
Para ver as árvores e as flores, 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia, não há árvores: há ideias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que é o que nunca se vê quando se abre a janela. 

Alberto Caeiro, Abril de 1923 

Ao contrário de Alberto Caeiro, creio que não ter filosofia nenhuma é o mesmo que ter uma filosofia qualquer: o mundo conforma-se ao olhar do observador e este tem sempre um olhar próprio e limitado do mundo, um olhar circunscrito tanto pelas ideias havidas, como pelas ideias não achadas. 

Porém, tal como Alberto Caeiro, conheço por dentro a ideia de que cada um de nós é, por vezes, um espaço fechado e que, no espaço fechado que somos, há janelas fechadas e todo um mundo lá fora. Daí a pergunta: o que existe no mundo lá fora, no mundo para além da janela? 

Respondo: O sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse é apenas o sonho que temos da janela aberta. E de que vale o sonho de uma janela aberta, se a janela nunca se abrir? De que vale um sonho que não se pode cumprir? 

Decidir dar a volta ao mundo de mochila às costas é abrir a janela e libertar o sonho para a experiência de viver. Libertar o tempo, a libertar os recursos e a libertar a coragem. Libertar a vontade de transformar a vida.

terça-feira, 16 de abril de 2013

A hora da estrela e uma maçã no escuro

Há quem se abespinhe comigo, mas desde que me consigo lembrar é assim que escolho os livros: leio o primeiro parágrafo, leio o último e se me prenderem ambos é negócio feito. Regra geral não falha como método, e não, até hoje nunca fez com que adivinhasse o desenlace do enredo a meio da leitura.

Recordo-me disto não para entrar numa reflexão - sem dúvida interessante - sobre a importância de cuidar das linhas de abertura e de encerramento de um livro, mas para recordar Clarice Lispector, que ando a ler, e que abre assim a sua Maçã no Escuro:
"Esta história começa numa noite de Março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.

Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo, passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro."
E depois a prosa segue, com igual esplendor. Mais adiante:
"Até que - como quando um relógio pára de bater e só então nos adverte que antes batia - Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.

Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras dividiram-se em flores ainda irresolutas - com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros delinearam-se cheios, macios."
Eu, perante quem escreve assim, curvo-me maravilhada e impotente, dilacerada entre a vontade da inveja e a inevitabilidade da empatia e da admiração.

Vencida para o lado da admiração, fui este domingo à exposição temporária com que a Gulbenkian decidiu homenagear Clarice Lispector, por ocasião do trigésimo quinto aniversário da sua morte e das celebrações do Ano do Brasil em Portugal. Corredores iluminados pelo brilho de palavras e imagens gravadas a toda a volta estendem-se como artérias até ao coração: uma sala de gavetas do chão ao tecto, fieis depositárias de pequenas relíquias, e uma outra onde se projectam ininterruptamente excertos de uma entrevista com a própria Clarice, palavras ainda vivas, cujo interesse o tempo não apagou nem diminuiu, e dentro das quais lateja uma melancolia envolvente como um abraço. Ali fiquei sentada, entre outros pares de olhos e ouvidos atentos, até sair com a intenção de regressar.

Escusado será dizer que recomendo vivamente a visita e a leitura. Por ora, fica o trailer de apresentação da exposição, para aguçar ainda mais o apetite (fonte: canal FCGulbenkian):

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 4

Quarto desafio desta série, na qual a ideia é escrever pelo menos cem palavras sobre uma imagem aqui colocada (e normalmente também tirada) por mim.

A imagem de hoje é:
 
 

Como sempre, a minha resposta ao desafio chegará aqui ao blogue na próxima segunda. Nessa altura poderão também partilhar os vossos textos, através da secção de comentários.

Boa escrita!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Escritores atrás da cortina

João Tordo, em entrevista ao jornal i:

"Não oiço música, estou em silêncio e escrevo sempre cerca de duas mil palavras. Nunca escrevo menos e raramente escrevo mais. Parece que estou a fazer contas, mas não é isso. Tem a ver com o facto de saber que todos os dias vou progredir e combato a preguiça. E deixo sempre as frases a meio, nunca ponho um ponto final. São mais fáceis de retomar. Com um ponto final preciso de um novo fôlego. Não sei porquê.

Gonçalo M. Tavares, em entrevista ao jornal i:

"Tento concentrar-me nas manhãs e manter uma disciplina. É uma questão de, como dizem os desenhadores, manter a mão quente. Às vezes começo a escrever com frases completamente ao acaso e só depois é que a mão pega. As primeiras páginas de um romance mando fora – é a fase em que a mão ainda está a aquecer, à procura da sua forma. (...) Começo por ler. Ensaio, ficção, etc. É uma espécie de exercício para pôr a cabeça a funcionar. Depois posso começar às 8h30 e acabar à uma ou duas da tarde."

Gonçalo M. Tavares, respondendo a perguntas do público num evento na Bibliotecta Municipal de Frankfurt (transcrição minha a partir de vídeo do canal adoa5):

"Eu acredito muito nisso também no trabalho literário (...), eu quando sinto que faço bem uma coisa, ou seja, se faço com a mão direita, não é - se pensarmos que a mão direita é mais hábil - eu tento passar para a mão esquerda, precisamente esta ideia de o que me vai surpreender vai ser feito com a mão que eu menos domino, (...) a mão menos usada. (...) Estou sempre a procurar a minha mão esquerda, não é... E é interessante que a mão esquerda depois de nós praticarmos muito (...) fica mão direita, fica hábil, e portanto temos de encontrar uma outra mão esquerda."

"Quando as coisas correm bem eu sento-me e escrevo quatro horas, cinco horas seguidas (...) E isso é quando a coisa resulta bem. (...) E depois a segunda parte do trabalho é uma coisa um bocado louca que é, depois de eu escrever vinte páginas - às vezes escrevo vinte páginas numa manhã e depois demoro dois meses a passar essas vinte páginas para duas páginas, que é um bocado absurdo mas é esse o meu método de trabalho. (...) E é muito, é muito interessante que é o que dá mais trabalho, é tornar mais curto, tornar mais curto, cada vez mais, não é... tirar todas as palavras que não sejam precisas." 

valter hugo mãe, em entrevista à Visão: 

"A cada um dos seus livros corresponde um desses cadernos, onde vai anotando ideias, expressões, palavras, muito antes de se fechar a escrever os romances. Para isso, mune-se de um computador que não o irrite, o mesmo é dizer que não esteja sempre a assinalar erro nas minúsculas e a emendá-lo. A primeira precaução que toma é justamente formatar o computador: 'O meu word não me sugere nada, não se pronuncia quando escrevo os nomes das pessoas, das cidades, dos meses em minúsculas. Preciso que me deixe em paz e cada vez mais de estar isolado para escrever'. Abastece-se no supermercado de um sortido de conservas de atum e de sardinha, de sopas de pacote e outros enlatados e tranca-se em casa, durante umas semanas."

"É também limpa, mesmo imaculada, a relação do escritor com o papel. Não admite nem a uma dedada na brancura da folha: 'Não consigo desenhar num papel com manchas, marcas ou dobras nas pontas. E tendencialmente procuro um desenho sem um traço de hesitação'."

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 3

No sábado não houve novidades porque o meu corpo andou às turras com um vírus. Fruta da época! Para recuperar a embalagem, volto hoje com a resposta ao desafio da segunda-feira passada. Como sempre, a secção dos comentários está aberta a todos os que quiserem partilhar os seus próprios textos, por isso, toca a pôr essas canetas e teclados a mexer! Boa escrita!

três à beira de uma mesa. 

há o que prefere o café puro e mau. caro. injustificável ao paladar. anima-o, porém, em todo aquele padronizado e pré-fabricado que o envolve, o manter-se fiel aos princípios da cafeína verdadeira, a singular satisfação que está reservada aos puristas, aos abnegados e aos virtuosos.

ao lado há os que preferem o açúcar em estado líquido. muito caro. prazer do corpo imediato que se paga em dinheiro e privações posteriores. prazer de plástico, feito para atordoar e logo se desvanecer. é mais caro porque resulta.

tudo tem um preço aparente ou oculto. tudo se paga nesta vida.

e depois há os que não vêm para beber, mas para estar. estar e ver os outros que vão e vêm como bandos migratórios fora de ritmo. às vezes aglomeram-se, às vezes deixam espaços vazios, às vezes tomam tudo de assalto, e as mesas vão-se cobrindo e libertando de cartão descartável e loiça para lavar.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Verdade, verdades

Hoje, um post curto, em jeito de partilha.

O que é a verdade, existe tal coisa como a verdade e, se sim, onde é que ela está realmente? Coincidência ou não, estas questões têm surgido nalgumas das minhas mais recentes deambulações pela Internet à caça de material sobre escrita. Como tal, no post de hoje, e talvez ainda no rescaldo do da passada sexta-feira, gostaria de partilhar convosco dois conteúdos que de uma forma ou de outra abordam este tema interessante e espinhoso.

A verdade em maiúsculas e minúsculas:

"Os micro-historiadores argumentavam que as generalizações da História de Grandes Homens escrita com H maiúsculo distorceram a verdade sobre como a maioria dos indivíduos realmente vivia em letra minúscula e por isso defendiam que se contassem histórias daquilo a que um prático chamou "a excepção normal": o interessante pequeno actor que poderia representar a pessoa média e, consequentemente, oferecer uma perspectiva única ignorada pelos textos de elite e meta-narrativas." (Francesca Mari, em The Microhistorian, Dissent Magazine  - texto completo só em inglês

A verdade e a história única:

"Gostaria de terminar com este pensamento: que quando rejeitamos a história única, quando nos apercebemos de que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, reconquistamos uma espécie de paraíso." (Chimamanda Adichie, em O perigo da história única, TED Talks - com legendas em português)




Boas leituras, boa escrita e até sábado!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 3

Hoje é dia 1 de Abril mas não é mentira: durante o fim-de-semana prolongado este blogue teve novos visitantes, aos quais quero agradecer calorosamente a passagem por este espaço. Qualquer visitante é para um blogue e para o seu autor motivo de alegria, mas como é tão especial e intensa a alegria do pai ou mãe de um blogue recém-nascido ao ver chegar os primeiros leitores!

Como mãe babada que sou, dou, pois, as boas-vindas a todos, aos que agora aqui chegaram e aos primeiros primeiríssimos que já por cá tinham passado antes; para todos, e para os mais que vierem, a porta continuará sempre aberta, pois este espaço quer ser, fundamentalmente e antes de mais, um lugar de partilha e de comunidade.

Como é hábito às segundas-feira, hoje temos novo desafio de escrita da série Uma Imagem Cem Palavras, a convidar à escrita de um texto com pelo menos cem palavras sobre uma imagem aqui colocada (e normalmente também tirada) por mim.

O mote para hoje é:


A minha resposta ao desafio cá estará na próxima segunda, altura em que poderão também partilhar os vossos textos, via secção de comentários.

Entretanto, voltarei na quarta, com um novo post!

sexta-feira, 29 de março de 2013

A arte de observar pessoas

People watching, dizem os anglófonos na sua língua simples, exacta e musical. Uma arte perdida no tempo pré headphones e pré smartphones? Talvez... Ou talvez não perdida. Talvez só um pouco posta de parte, enquanto nos ocupamos a viver uma espécie de adolescência tardia colectiva, encafuados no nosso umbigo e nas quatro paredes invisíveis mas palpáveis da tecnologia, que nos acompanham para todo o lado, mesmo em pleno ar livre.

Seja como for, é uma das minhas actividades favoritas, porventura porque desde pequena sempre tive na família quem gostasse de ocupar as horas de espera ou de viagem adivinhando histórias nas feições e comportamentos dos outros.

Observar pessoas é uma arte fina, nos antípodas da intromissão indesejada e do voyeurismo, e uma arte perfeitamente portátil e acessível, necessitando apenas de um par de olhos atentos, uma mente serena e a disponibilidade para uma ligação genuína com o momento presente. Pressupõe também, para a prática prazenteira e continuada, uma curiosidade sincera pelo mundo nas suas partes mais ínfimas.

Um dia alguém disse que o simples nem sempre é fácil. E disse bem. Estar apenas, mas por inteiro, é das ocupações mais simples e mais difíceis que o ser humano, sobretudo o desta nossa era da técnica, pode empreender. Na espiritualidade, é o que distingue os mestres dos aprendizes. Nas viagens, é o que separa os viajantes dos turistas. E no mundo das letras, talvez seja o primeiro passo sereno, silencioso e indispensável, a primeira capa discreta do escritor.

Porque gosto de o fazer, divirto-me a experimentar, mas o certo é que estou infinitamente mais perto do aprendiz que do mestre, e facilmente a minha mente desliza daquilo que a realidade me oferece para cantos paralelos da memória ou de projectos futuros.

As pessoas têm histórias que se insinuam assim que elas entram num espaço. Histórias que podem nascer tão breves como um apertar de atacadores ou tão densas como uma veemente discussão com lágrimas. Revelá-las é o primeiro trabalho de escrever. Mas que esforço é preciso para não afixarmos em cada uma delas, assim que se apresentam, as nossas próprias ideias precoces sobre quem são e o que fazem! Como aquele homem que passa do lado de fora da janela em passo desengonçado, com a gabardina amarelada e o chapéu a despropósito, que é a despropósito apenas na minha expectativa, mas não na realidade da pessoa que ele é. Quem é ele? O que o move? O que diz de si o seu aspecto exterior? Quão mais fácil seria inventar respostas imediatas, que tentar pacientemente descortinar as verdadeiras! Talvez seja por isso que tendemos a colar a nossa realidade interior à pessoa exterior dos outros, quando deveríamos ocupar-nos a olhar as subtilezas, para descobrirmos aí a história que realmente é, e não aquela que queremos contar.

Quanto à tecnologia, que não fiquem mal entendidos: sou fã dela, ou não estaria aqui neste blogue. Como tudo na vida, creio pode ser tanto um empecilho como um estímulo precioso, dependendo do uso que dela façamos; e justamente o que penso é que alguns dos usos que temos feito da nossa fenomenal revolução tecnológica têm sido muito pouco proveitosos, prejudiciais até, porque não são a tecnologia como manifestação e aprofundamento do que é ser humano, mas a tecnologia em sua substituição. Mas tudo isso seria matéria para outro post, não aqui neste blogue.

Em todo o caso, a provar o ponto, aqui vos deixo duas interessantes janelas virtuais para o mundo da bela arte de observar pessoas:

Travel Paris: People Watching at a Café:
(canal soniastravels)



People Watching by Rose Palmer:
(canal StudyUCL)


segunda-feira, 25 de março de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 2

Resposta ao desafio lançado aqui. A secção dos comentários está aberta a todos os que quiserem partilhar os seus próprios textos. Boa escrita!

Sonho com nuvens. Noites a fio tenho sonhado a preto e branco, mas hoje as nuvens aparecem-me vividamente recortadas num céu azul e é a primeira vez desde há muito tempo que em sonhos elas se parecem com o algodão felpudo que normalmente persigo, de nariz no ar, nos dias de sol. 

No meu sonho estou acordada num avião, a ver a asa cortar o vento invisível, e por debaixo dos meus pés firmemente assentes escapa-se uma coisa que podia ser qualquer coisa, qualquer cidade ou lugarejo, ou mesmo simples montanha ou extensão de campo ondulante.

A esta altitude é impossível dizer. De vez em quando invade-me uma vaga tontura e penso que podíamos muito bem cair a pique como uma pedra num lago, mas que por qualquer milagre nunca caímos, e que esse é o milagre do Homem, mas também o milagre do acaso -- ou do divino, se uma pessoa acredita numa ordem oculta das coisas.

Da cadeira do lado sinto um puxar na manga. Uma menina de olhos redondos e grandes pede-me por gestos que lhe abra uma lata. Serviram o almoço e nem me dei conta. Abro-a e devolvo-lha com um sorriso. Ela não parece ter mais de cinco anos e viaja entretida com um caderno e lápis para colorir. De vez em quando a hospedeira passa a visitá-la. Sinto que a conheço, mas não sei de onde, e embaraço-me ao sentir um desejo quase insuportável de a abraçar, de lhe contar o segredo de que a vida já começou, mas sei que se lho contasse ela envelheceria de repente muitos anos, até à idade em que uma pessoa sabe lá dentro que a vida já começou. Vejo-a pintar com a ponta da língua ligeiramente de fora, encostada ao lábio superior. Concentrada e feliz com as linhas imperfeitas que traça ora dentro ora fora dos espaços determinados.

Com o pacote de alumínio a arrefecer à minha frente, exalando o cheiro de comida invulgarmente compactada dentro de um espaço exíguo, volto-me para a janela e vejo rastejar lá ao longe mais uma nuvem. Não tarda será manhã.

quinta-feira, 21 de março de 2013

O dia da poesia

As minhas desculpas: era suposto ter vindo aqui ontem mas não vim. O dia rebelou-se com jeitos de rio convulso levando tudo à frente. Lá fui eu na enxurrada, sugada com árvores, automóveis e casas inteiras para dentro do grande ralo da vida, rodopiando mil e uma vezes sobre um único centro até desaparecer pelos confins da terra abaixo, reemergindo do outro lado. 

Hoje estamos já do outro lado e é tempo de regressar aqui. Até porque é (quase foi) dia mundial da poesia. O dia em que...

... a UNESCO nos recordou que a poesia é "uma componente da identidade dos povos" e que todos "temos o dever de transmitir esta herança - o legado de Homero, Li Bai, Tagore, Senghor e inúmeros outros - porque ela é testemunha viva da diversidade cultural da humanidade".

... na TSF cinco poetas leram cinco poetas, perpetuando nas suas palavras as palavras dos outros, que é uma das maneiras mais bonitas que temos de manter alguém perto de nós.

... na Fnac de Almada, olhos brilhando no escuro revisitaram Florbela, sendo testemunhas das muitas casas que a poesia habita e das muitas peles que veste, como a pele de uma actriz de mão cheia que dá corpo à alma mais funda e incendiada, ou de um filme que nos promete novos e entusiasmantes caminhos para o cinema em português.

... por mero acaso, nas primeiras horas da manhã, descobri uma nova arca do tesouro ainda por explorar.

... na minha aula de teatro habitual nada foi como o habitual, porque em vez de teatro houve canto, e no canto redescobri por dentro a Etelvina rebelde e uma Tabacaria eterna.

... por todo o mundo, foi tempo de parar e olhar para o coração das coisas, recordando aí que a poesia está em tudo e em todos, sempre. Não se escreve nem se inventa, somente se revela.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 2

Desafio de escrita n.º 2 da série que teve o seu primeiro capítulo aqui e aqui. Já sabem, a ideia é escrever pelo menos cem palavras sobre a imagem, que salvo indicação em contrário terá sido tirada por mim.

 A imagem de hoje:


O meu texto aqui estará na próxima segunda-feira, altura em que poderão também partilhar os vossos, via secção de comentários.

Quarta-feira há novo post. Até lá, boa escrita e divirtam-se!

domingo, 17 de março de 2013

Lentes embaciadas e a reinvenção da roda

Há cerca de dois anos comecei a aprender a desenhar com a obra The Creative License, de Danny Gregory. A entrada deste livro na minha vida deu-se por acaso, ou melhor, por engano, no dia em que o comprei pensando que se tratava de um manual sobre criatividade em geral e não sobre desenho em particular (nessa altura eu ainda achava que saber desenhar era algo do tipo "dádiva divina", que ou se tinha ou não, e que eu definitivamente não tinha).

Através de uma série de textos encorajadores e desenhos tão bonitos que apetecia comer (ou copiar), a primeira coisa que Danny Gregory procurava ensinar-me era a saber ver. Ora ora... e eu que pensava que ver ainda era um dos meus poucos talentos naturais! Pois não, não era. Sabia olhar, isso sim, mas ver, descobri eu, só pouco e mal (o que nada tinha a ver, diga-se, com a minha considerável miopia...)

Acontece que para vermos verdadeiramente o que nos rodeia é preciso abdicarmos de todo e qualquer preconceito sobre o significado das formas que surgem perante os nossos olhos, bem como de todos os entendimentos prévios que o nosso cérebro tenha sobre como aquele objecto deveria ser. Um copo não é um copo. Quer dizer, ele é, mas quando o desenhamos a função pouco importa. Ser um copo ou um elefante é, para o desenho, a mesma coisa: trata-se sempre de um conjunto de linhas e superfícies e espaços negativos e cores e tonalidades e claro-escuros e texturas que se articulam de uma maneira muito precisa, assim e não assado, aqui e não ali. Que o nosso cérebro entenda, por exemplo, que uma superfície, para assentar sobre uma superfície plana, tem de ser plana também, não impede que o sítio onde o copo e a mesa se tocam apareça aos nossos olhos como um semicírculo e não como uma linha recta. (experimentem olhar com cuidado e verão que é assim)

Para aprender a desenhar, então, o primeiro passo que eu tive de dar foi despir as minhas tentativas de todas as pré-concepções que eu mantivera até aí sobre o que que cada coisa era e aquilo para que servia. Recordo-me em particular de um desafio que Danny Gregory lança no livro: o de desenharmos um pão com sementes, ou propício a esboroar, como se fossemos astronautas caminhando sobre aquela superfície rugosa com o propósito de desenharem um mapa exacto da mesma para minúsculos exploradores interplanetários que aí viessem a aterrar no futuro.

Interessante, não? A razão pela qual aqui falo disto é porque me parece que para o escritor o mesmo exercício pode ser da maior utilidade. Ver uma realidade com novos olhos, como se pela primeira vez, sem ideias prévias de como as suas partes funcionam ou para que servem, observar ao pormenor cada elemento, por mais ínfimo que seja, observar atentamente as suas engrenagens, registando como são, como interagem, de que modo rodam, tudo isto sem deixar que o cérebro interfira com as suas interpretações sobre como as coisas devem ser, tudo isto são ginásticas interessantes para o escritor.

Claro que não se trata somente de arredar preconceitos na hora de registar o mundo numa página. Trata-se também de outra coisa: de abrandar o suficiente para observar a vida a sério. O facto é que os tempos modernos, com a sua abundância de realidades e desmultiplicação de estímulos simultâneos de toda a espécie, têm vindo a contribuir para amolecer os sentidos humanos, até por uma questão de sobrevivência. Sobretudo em meio urbano, algo tão simples como uma ida ao supermercado pode tornar-se numa experiência de verdadeiro assoberbamento dos sentidos, confrontados que são com corredores intermináveis, pejados de milhares de produtos militarmente alinhados nas prateleiras, não apenas iogurtes mas iogurtes de dezenas de qualidades e sabores diferentes, pertencente a uma dezena de marcas diferentes, com aroma, com pedaços, naturais, de fruta, de doce, com cereais, magros, cremosos, assim-assim, com lactose, sem lactose, etc etc etc. A maneira que os nossos cérebros encontraram para lidar com este excesso, para além de girarem cada vez mais rápido, foi, no limite, começarem a deitar água fora como baldes cheios até à borda. E assim se perde o olhar atento, assim andamos com sensibilidades embotadas e lentes embaciadas em frente aos olhos, vendo a realidade a dois quartos ou a um quarto daquilo que ela é.

Para escapar a esta variante de sonambulismo, parece-me interessante procurar trazer para o universo da escrita os conselhos de Danny Gregory. Isto passa por:

1. Ficar a sós com a parcela de mundo que queremos descrever, desligando tudo dentro e fora de nós, a não ser o canal de atenção exclusiva, directa e inviolável até à coisa que queremos explorar.

2. Abrandar. Retirar o nosso cérebro da sua rotação veloz, que salta de nenúfar em nenúfar à mais pequena brisa, levando-o paciente e lentamente através de cada um dos elementos daquilo que queremos descrever.

3. Redescobrir o mundo. Olhar com olhos inocentes e desconhecedores, fazendo de novo todas as perguntas que com os anos fomos tornando retóricas. O que diríamos de uma coisa se a estivéssemos a ver pela primeira vez? Que perguntas faríamos? Algo como: O que é isto? Como é? Que peso, dimensão, forma tem? Como se insere no espaço? Como se comporta e porquê? O que me faz sentir? O que acontece quando lhe toco? O que faz?

4. Reinventar a linguagem. Como descreveríamos as coisas se nos proibissem de usar palavras emparelhadas em conjugações habituais? Céu azul, mar revolto, suores frios, orador eloquente... O que diríamos em vez disto? O que diríamos do céu se o víssemos pela primeira vez? O que diríamos do mar, do suor, de alguém falando para um grande público, se estivéssemos pela primeira vez autorizados a juntar uma palavra com a outra?

Em suma: contra a sabedoria popular, na escrita talvez seja mesmo importante, de vez em quando, reinventar a roda. Caso contrário é possível que acabemos como o rato, alegremente correndo nela a caminho de lugar nenhum.

Até amanhã, boa escrita!

sábado, 16 de março de 2013

Sul

Em resposta ao desafio lançado aqui:

SUL. Redondo. Vermelho. Amarelo vivo. Flamejante no centro. Com o centro a pender para fora. Explosão. Mulher. O sol. O sol engole o corpo sem aviso. Vem sentado num banco de ar livre, nunca inerte, imperceptivelmente tecendo a sua teia de relações. Ondulando na parte do corpo que é música volátil. Simples, sem ser superficial. Profundo, sem ser subtil. E também escuro e culpa e perdão suplicado. Também sussurrado em paredes que ecoam. Veneração. Passado. De joelhos. Também peso de chumbo nos pés. Logo redimido quando alguém abre uma janela atirada para o mar. Há um cheiro que se desprende de uma árvore, flor ou fruto e que poisa no ar como uma varanda suspensa.

E por hoje é tudo. Se quiserem partilhar as vossas respostas a este desafio, já sabem, a secção dos comentários é vossa! Boa escrita e até amanhã, data do próximo post!

quinta-feira, 14 de março de 2013

Nietzsche e as palavras estendidas ao sol

Stefan Zweig, em O Combate com o Demónio, sobre o encontro da escrita de Nietzsche com o Sul e a sua luz fulgurante:

"A forma cristalina do pensamento liberta-se, como se tivesse desaparecido o gelo que a envolvia, torna-se clara, ganha movimento, e o estilo, a linguagem de súbito aberta, imparável, emite em raios diamantinos os reflexos do Sol. Tudo surge agora escrito na 'língua do vento do degelo', como ele diz a propósito do primeiro dos seus livros escritos no Sul. Há nesta escrita uma sonoridade poderosa, que se liberta energicamente como se quebrasse uma crosta de gelo para dar passagem a uma Primavera que, numa volúpia lisonjeira, lúdica, viesse tomar conta da paisagem. Luz descendo até às últimas profundezas, claridade até ao ínfimo frémito de cada palavra, música mesmo nos instantes de silêncio - e pairando por cima do conjunto essa sonoridade alciónica, esse céu pleno de luminosidade. Como é grande a diferença de ritmo entre a anterior linguagem de Nietzsche, belamente balanceada, sem dúvida, poderosa na sua arquitectura, mas petrificada, e esta nova língua de sons irrequietos, dúctil e senhora de si, repassada de alegria vital, comprazendo-se na utilização combinada de todos os membros do seu corpo, uma língua que gesticula - como os italianos -, que faz uso de milhares de sinais mímicos, em vez de falar com o corpo imóvel, distante, inexpressivo - como um alemão. A língua à qual Nietzsche confia agora os seus pensamentos nascidos em liberdade, como se fossem pardais a esvoaçar durante os seus passeios, já não é o alemão dos eruditos em humanidades, cheio de dignidade sonante, enfarpelado de negro; pensamentos de ar livre exigem uma linguagem de ar livre, uma língua flexível, elástica, leve, dotada de um corpo esbelto, nu, ginasticado, dotada de articulações móveis, capaz de correr, de saltar, de se elevar, de se baixar, de se distender, capaz de dançar todas as danças, da ronda melancólica até à tarantella da loucura, uma língua pronta para dizer tudo, para transportar tudo, sem que lhe pesem os ombros, sem que se lhe canse o passo."

Seguindo a magnífica descrição de Stefan Zweig, ela mesma como uma persiana mal fechada a deixar sangrar para dentro do quarto essa inebriante luminosidade do sul, sondemos atentamente o respirar das nossas palavras. Como respiram nos dias de sol? Como vivem à chuva? Como se mexem dentro dos pesados mantos do Inverno ou se agitam nos suores do Verão? O que é escrever no fundo da rosa dos ventos, junto à seta que aponta infatigavelmente para baixo, para onde há cor e brilho e explosão e os Verões se expandem sempre mais e mais? Como é rumar para Oriente? A que sabem as palavras sob um céu escuro?

Proponho-vos o desafio de escrevermos essas palavras geográfica e climatericamente determinadas, fazendo o esforço consciente de limparmos do texto tudo o que não pertença à sensação em que queremos mergulhar. Proponho-vos descrevermos o sul, tal como o vivemos e sentimos, num texto com princípio, meio e fim ou numa simples lista de palavras desordenadas. As minhas palavras aqui estarão no sábado. E como sempre, todas as partilhas são bem-vindas, via secção dos comentários.

Até lá, boa escrita!