Há cerca de dois anos comecei a aprender a desenhar com a obra
The Creative License, de Danny Gregory. A entrada deste livro na minha vida deu-se por acaso, ou melhor, por engano, no dia em que o comprei pensando que se tratava de um manual sobre criatividade em geral e não sobre desenho em particular (nessa altura eu ainda achava que saber desenhar era algo do tipo "dádiva divina", que ou se tinha ou não, e que eu definitivamente não tinha).
Através de uma série de textos encorajadores e desenhos tão bonitos que apetecia comer (ou copiar), a primeira coisa que Danny Gregory procurava ensinar-me era a saber ver. Ora ora... e eu que pensava que ver ainda era um dos meus poucos talentos naturais! Pois não, não era. Sabia olhar, isso sim, mas ver, descobri eu, só pouco e mal (o que nada tinha a ver, diga-se, com a minha considerável miopia...)
Acontece que para vermos verdadeiramente o que nos rodeia é preciso abdicarmos de todo e qualquer preconceito sobre o significado das formas que surgem perante os nossos olhos, bem como de todos os entendimentos prévios que o nosso cérebro tenha sobre como aquele objecto deveria ser. Um copo não é um copo. Quer dizer, ele é, mas quando o desenhamos a função pouco importa. Ser um copo ou um elefante é, para o desenho, a mesma coisa: trata-se sempre de um conjunto de linhas e superfícies e espaços negativos e cores e tonalidades e claro-escuros e texturas que se articulam de uma maneira muito precisa, assim e não assado, aqui e não ali. Que o nosso cérebro entenda, por exemplo, que uma superfície, para assentar sobre uma superfície plana, tem de ser plana também, não impede que o sítio onde o copo e a mesa se tocam apareça aos nossos olhos como um semicírculo e não como uma linha recta. (experimentem olhar com cuidado e verão que é assim)
Para aprender a desenhar, então, o primeiro passo que eu tive de dar foi despir as minhas tentativas de todas as pré-concepções que eu mantivera até aí sobre o que que cada coisa era e aquilo para que servia. Recordo-me em particular de um desafio que Danny Gregory lança no livro: o de desenharmos um pão com sementes, ou propício a esboroar, como se fossemos astronautas caminhando sobre aquela superfície rugosa com o propósito de desenharem um mapa exacto da mesma para minúsculos exploradores interplanetários que aí viessem a aterrar no futuro.
Interessante, não? A razão pela qual aqui falo disto é porque me parece que para o escritor o mesmo exercício pode ser da maior utilidade. Ver uma realidade com novos olhos, como se pela primeira vez, sem ideias prévias de como as suas partes funcionam ou para que servem, observar ao pormenor cada elemento, por mais ínfimo que seja, observar atentamente as suas engrenagens, registando como são, como interagem, de que modo rodam, tudo isto sem deixar que o cérebro interfira com as suas interpretações sobre como as coisas devem ser, tudo isto são ginásticas interessantes para o escritor.
Claro que não se trata somente de arredar preconceitos na hora de registar o mundo numa página. Trata-se também de outra coisa: de abrandar o suficiente para observar a vida a sério. O facto é que os tempos modernos, com a sua abundância de realidades e desmultiplicação de estímulos simultâneos de toda a espécie, têm vindo a contribuir para amolecer os sentidos humanos, até por uma questão de sobrevivência. Sobretudo em meio urbano, algo tão simples como uma ida ao supermercado pode tornar-se numa experiência de verdadeiro assoberbamento dos sentidos, confrontados que são com corredores intermináveis, pejados de milhares de produtos militarmente alinhados nas prateleiras, não apenas iogurtes mas iogurtes de dezenas de qualidades e sabores diferentes, pertencente a uma dezena de marcas diferentes, com aroma, com pedaços, naturais, de fruta, de doce, com cereais, magros, cremosos, assim-assim, com lactose, sem lactose, etc etc etc. A maneira que os nossos cérebros encontraram para lidar com este excesso, para além de girarem cada vez mais rápido, foi, no limite, começarem a deitar água fora como baldes cheios até à borda. E assim se perde o olhar atento, assim andamos com sensibilidades embotadas e lentes embaciadas em frente aos olhos, vendo a realidade a dois quartos ou a um quarto daquilo que ela é.
Para escapar a esta variante de sonambulismo, parece-me interessante procurar trazer para o universo da escrita os conselhos de Danny Gregory. Isto passa por:
1. Ficar a sós com a parcela de mundo que queremos descrever, desligando tudo dentro e fora de nós, a não ser o canal de atenção
exclusiva, directa e inviolável até à coisa que queremos explorar.
2. Abrandar. Retirar o nosso cérebro da sua rotação veloz, que salta de nenúfar em nenúfar à mais pequena brisa, levando-o paciente e lentamente através de cada um dos elementos daquilo que queremos descrever.
3. Redescobrir o mundo. Olhar com olhos inocentes e desconhecedores, fazendo de novo todas as perguntas que com os anos fomos tornando retóricas. O que diríamos de uma coisa se a estivéssemos a ver pela primeira vez? Que perguntas faríamos? Algo como: O que é isto? Como é? Que peso, dimensão, forma tem? Como se insere no espaço? Como se comporta e porquê? O que me faz sentir? O que acontece quando lhe toco? O que faz?
4. Reinventar a linguagem. Como descreveríamos as coisas se nos proibissem de usar palavras emparelhadas em conjugações habituais? Céu azul, mar revolto, suores frios, orador eloquente... O que diríamos em vez disto? O que diríamos do céu se o víssemos pela primeira vez? O que diríamos do mar, do suor, de alguém falando para um grande público, se estivéssemos pela primeira vez autorizados a juntar uma palavra com a outra?
Em suma: contra a sabedoria popular, na escrita talvez seja mesmo importante, de vez em quando, reinventar a roda. Caso contrário é possível que acabemos como o rato, alegremente correndo nela a caminho de lugar nenhum.
Até amanhã, boa escrita!