quinta-feira, 18 de abril de 2013

A decisão de dar um longo passeio pelo mundo

      Post convidado, da autoria de Carina A.      

Escrever sobre a decisão de dar um longo passeio pelo mundo a um mês da partida é um exercício difícil. Estou no olho do furacão e as palavras escorrem-me das mãos como um vento indomável que rasga todas as folhas úteis que tento escrever. 

Ao tentar resgatar as palavras para dar corpo a um texto, lembro-me de um poema que muitas vezes me assomou à ideia quando ponderava a hipótese de partir: 

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não basta não ser cego 
Para ver as árvores e as flores, 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia, não há árvores: há ideias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que é o que nunca se vê quando se abre a janela. 

Alberto Caeiro, Abril de 1923 

Ao contrário de Alberto Caeiro, creio que não ter filosofia nenhuma é o mesmo que ter uma filosofia qualquer: o mundo conforma-se ao olhar do observador e este tem sempre um olhar próprio e limitado do mundo, um olhar circunscrito tanto pelas ideias havidas, como pelas ideias não achadas. 

Porém, tal como Alberto Caeiro, conheço por dentro a ideia de que cada um de nós é, por vezes, um espaço fechado e que, no espaço fechado que somos, há janelas fechadas e todo um mundo lá fora. Daí a pergunta: o que existe no mundo lá fora, no mundo para além da janela? 

Respondo: O sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse é apenas o sonho que temos da janela aberta. E de que vale o sonho de uma janela aberta, se a janela nunca se abrir? De que vale um sonho que não se pode cumprir? 

Decidir dar a volta ao mundo de mochila às costas é abrir a janela e libertar o sonho para a experiência de viver. Libertar o tempo, a libertar os recursos e a libertar a coragem. Libertar a vontade de transformar a vida.

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