Quando um blogue pára por um tempo considerável, por razões maiores impostas pela vida, há que saber aceitar o hiato e retomar a marcha no ponto em que ela estiver. Mesmo que seja na iminência de uma nova interrupção, desta vez sem fim imediato à vista. É verdade, mudanças grandes se avizinham e embora não tenha intenções de parar com a escrita, será em moldes diferentes do que tenho feito até aqui. Mas as novidades virão a seu tempo.
Hoje, que é segunda-feira, retomo o desafio lançado aqui:
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O quarto não era quente, mas abafado. Auto-contido. As suas paredes testemunhavam tragédias e milagres sem nada contarem. A denúncia, se é que a havia, era feita por aquele cheiro insuportável a vida desinfectada e funcional, pelas vozes murmuradas e pelos incontáveis esgares de uma dor que ninguém se atreve a chamar pelo nome. Aqui sobrevive-se, diziam eles. Aqui foge-se à morte sem sorrisos nem movimentos desperdiçados. As coisas nuas e cruas da vida exalam todas esse odor persistente. Larguei-lhe a mão magra sobre o cobertor e corri para uma janela aberta lá fora. No corredor do hospital, liberto por uma brisa limpa de Outono, fiquei a imaginar-me em navios sem nome, encostados ao horizonte.
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Até já!