Às vezes um empurrãozinho é preciso. Naqueles dias em que a mente vai vestida de branco, ou melhor, de cor nenhuma, tão vazia, tão vazia, que mais parece cheia de tanto nada que tem, ajuda ter à mão um molhinho de ideias peregrinas - e sobretudo alheias - para desencalhar o navio.
Mas que é isso?! Agora advoga-se aqui o plágio?
Não, nada disso. Advoga-se, isso sim, o uso daquilo a que, à falta de melhor ideia, chamarei o método do mote. O método do mote é basicamente aquele em que alguém nos dá um conjunto sumário de pressupostos para um texto e nós partimos daí à desfilada.
Em regra, um mote não é muito longo. Mas pode ser tão complexo ou tão simples quanto se quiser e tão banal ou tão invulgar quanto se quiser. Pode ser apenas algo como "descreve os últimos cinco minutos da tua vida". Mas também pode ser algo como "descreve o dia em que um famoso lutador de sumo decide fazer dieta e tornar-se bailarino".
E onde estão eles, esses motes?
Em livros como o 642 Things to Write About, por exemplo, onde se encontram coisas como "o próximo som que ouvires e o que o causou", "a tua experiência mais transcendente com um gelado" ou "o pedido de desculpas que uma figura pública recentemente caída em desgraça deveria ter dado, em vez daquele que foi escrito pelo seu pessoal de relações públicas".
Depois, gratuitamente, na Internet, sob muitas formas e feitios. Convém sempre verificar no próprio site as condições de uso, pois se alguns oferecem livremente os seus motes (ou writing prompts) sem qualquer especificação, outros fazem alguns pedidos, por exemplo, que os materiais em causa não sejam utilizados para fins lucrativos. Algumas hipóteses interessantes: esta, esta e esta -- e claro, este blogue em que estão agora, onde actualmente às segundas-feiras há desafio de escrita e onde tenciono ir deixando outras ideias também, não apenas através de imagens.
Uma forma de arranjarmos os nossos próprios motes é pegar num qualquer artigo de jornal ou revista e de forma aleatória seleccionar uma frase ou, melhor ainda, um conjunto de três palavras separadas no texto e partir daí. É possível fazê-lo com os tais jornais e revistas, com livros, letras de música, receitas de cozinha, bulas de medicamentos... estão a ver a ideia.
Pessoalmente, não uso os motes para escrever uma história com princípio, meio e fim, mas sobretudo para soltar a inspiração naqueles dias em que ela está mais perra. Desaperto as amarras da mente, escrevo um bocadinho e depois acabo por me voltar para a escrita de outro texto, com as ideias que entretanto me tenham vindo à cabeça.
E sobre motes é isto, pelo menos por hoje. E já agora, se conhecerem materiais gratuitos como os que partilhei aqui hoje, mas em português, por favor partilhem-nos nos comentários, ficar-vos-ia muito agradecida!
A escrita de mote em mote torna simples todo o processo e contém dicas muito úteis. Pareceu-me especialmente tentadora a escolha aleatória de palavras numa bula de medicamentos: técnica e espírito de mãos dadas. Um abraço!
ResponderEliminarMdr, muito obrigada pela visita! Sim, eu gosto bastante de procurar ideias para novos escritos em sítios à primeira vista improváveis. Outras possibilidades ainda: manuais de instruções de electrodomésticos, publicidade não solicitada na caixa do correio, a lista telefónica... O mundo da escrita mais técnica está cheio de potencial por explorar!
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