segunda-feira, 6 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 5

Mais um texto de resposta ao desafio "Uma imagem cem palavras", cujo mote foi lançado na semana passada, aqui. Para as vossas próprias criações, mantém-se sempre aberta a secção de comentários. Boas leituras e boa escrita!

O carro rodava livre debaixo do tecto falso que era para o túnel o chão da rua. Sobre a sua cabeça havia quem arrastasse uma mala de cansaços em direcção a um hotel, quem esperasse o autocarro eternamente atrasado, quem seguisse de braço dado e passo lesto, quem discutisse discretamente ao telemóvel num recanto afastado do centro. Mas esta montra humana de vida era para ela invisível, só o torpor de estrada contínua e luzes lambendo o escuro passava para o lado de lá das suas pupilas, e mesmo assim apenas a fracção de segundo necessária para fazer cócegas ao cérebro e se dissipar.

Em oito anos de ausência Lisboa tinha mudado alguma coisa, mas ela tinha mudado tudo. Ainda assim não voltava como estranha, voltava como quem regressa ao sítio onde um dia enterrou pequenos tesouros de infância. Destapado o cofre, os tesouros converteram-se em bugigangas, mas o seu valor de algum modo duplicou e a sua simplicidade não faz senão arrancar lágrimas ao olhos.

Era assim que um choro miudinho se lhe ia entalando na garganta, varrido para fora do rosto pelo fresco da noite que escorregava pela fresta da janela semi-aberta. Iam os dois em silêncio. As palavras não serviam para dizer o que era preciso.

2 comentários:

  1. Olá Adriana, parabéns pela iniciativa ;) Cá vai o texto rápido que foto me inspirou.

    Ele já tinha passado por aquele túnel, em tempos. Oito anos e meio antes, para ser mais preciso. Tal como então, atravessava agora um rio amplo, sob suas águas serenas, invisíveis daquele ponto subterrâneo, ainda que pressentidas. Mas, a primeira vez, ou o primeiro conjunto de vezes, melhor dizendo, não lhe tinha causado o mesmo impacto indelével que esta segunda vez. Encetara a travessia do rio Hudson a partir de Weehawken, numa das cadeiras da frente de um carro verde escuro, no lugar do pendura. Os prédios baixos dessa margem não o tinham preparado para o que iria aparecer do lado da luz ao fundo do túnel. De rompante, sem aviso prévio credível, apanhando-o distraído e displicente, surgiram as imagens surreais de fenomenais arranha-céus, sucendendo-se uns atrás do outros, altíssimos, como em nenhum outro lugar em tão grande número, como se o mundo mudasse de código de repente. A boca caída, os olhos surpresos, presos na novidade, na luz solar cortada pelos prédios esmagadoramente grandes. Pensou para si mesmo nesse dia e em muitos outros, esporadicamente, no futuro que se seguiu: "É fascinante atravessar o túnel de Lincoln e dar com Nova Iorque do outro lado, pela primeira vez."

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    1. Olá Trol Leifsson, muito obrigada pela partilha! A minha passagem favorita: "Os prédios baixos dessa margem não o tinham preparado para o que iria aparecer do lado da luz ao fundo do túnel. De rompante, sem aviso prévio credível, apanhando-o distraído e displicente, surgiram as imagens surreais de fenomenais arranha-céus, sucendendo-se uns atrás do outros, altíssimos, como em nenhum outro lugar em tão grande número, como se o mundo mudasse de código de repente."

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