segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 5

Tenho andado de férias, lagartando ao sol. Por isso também o blogue vai a passo mais pachorrento. Mas com a nova semana que desponta, voltamos aos desafios, com esta imagem:

 

Já sabem: um mínimo de cem palavras sobre a imagem em questão, a partilhar aqui na próxima segunda-feira, com a secção de comentários aberta a todos os que quiserem participar.

Boa escrita!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Casa-comboio, palavras-simples

Hoje acordei cedo, nem oito eram. Foi nas horas calmas da manhã que desci a rua despreocupada até ao Jardim, onde me sentei no colo de uma árvore a ler, aquecida pelos primeiros raios de sol.

Companhia: A Casa-Comboio, de Raquel Ochoa, livro distinguido em 2009 com o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís.

A simultânea riqueza e singeleza de algumas das suas frases tem-me prendido a atenção. A forma como em poucas penadas Raquel Ochoa parece captar a essência de uma complexidade, seja situação, personagem ou cenário, como aqui:
"Por isso também ela encetou a economia prática das palavras, dos sentimentos, dos anseios. Se Deus queria que fosse este o seu destino, porquê perder tempo a duvidar?"
Ou aqui:
"A estação fervilhava de hipóteses: de negócios, de destinos, de refeições."
Fez-me pensar em como gosto tanto de ler frases limpas e exactas e em como, ironicamente, ao escrever me puxa sempre o pé para a prolixidade.

É a batalha de uma vida. Pegar nas palavras e escorrer-lhes a gordura, destilar, destilar, destilar. Ir ao essencial. Escolher, para o mesmo sentido, a palavra mais simples. Mais perfeitamente simples, sem excesso nem defeito.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 4

Depois de um longo passeio pelo mundo, nada melhor que outro desafio, neste caso o quarto texto da série "Uma imagem cem palavras". O mote foi lançado aqui e hoje é dia de resposta. Não hesitem em deixar também os vossos textos na secção de comentários. Boa escrita!
 
Dono do espaço. Talvez inconsciente, mas suficientemente ciente da sua plumagem. E respectiva imponência. Eu, com a devida deferência, espero que ele me permita o clique. O momento emoldurado, um pavão apanhado em frente à objectiva. Como é hábil, a minha mão! E furtiva! Entrego o contentamento ao orgulho, mas lá por dentro sei bem que é mérito do pavão, e não meu. Veste elegantemente as cores que a natureza lhe deu e sem desassossego assume a exuberância. E consente ao mar de gente que vem e que vai um arco-íris sem chuva. Arqueado e precioso e fulgurante como um sonho de infância.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A decisão de dar um longo passeio pelo mundo

      Post convidado, da autoria de Carina A.      

Escrever sobre a decisão de dar um longo passeio pelo mundo a um mês da partida é um exercício difícil. Estou no olho do furacão e as palavras escorrem-me das mãos como um vento indomável que rasga todas as folhas úteis que tento escrever. 

Ao tentar resgatar as palavras para dar corpo a um texto, lembro-me de um poema que muitas vezes me assomou à ideia quando ponderava a hipótese de partir: 

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não basta não ser cego 
Para ver as árvores e as flores, 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia, não há árvores: há ideias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que é o que nunca se vê quando se abre a janela. 

Alberto Caeiro, Abril de 1923 

Ao contrário de Alberto Caeiro, creio que não ter filosofia nenhuma é o mesmo que ter uma filosofia qualquer: o mundo conforma-se ao olhar do observador e este tem sempre um olhar próprio e limitado do mundo, um olhar circunscrito tanto pelas ideias havidas, como pelas ideias não achadas. 

Porém, tal como Alberto Caeiro, conheço por dentro a ideia de que cada um de nós é, por vezes, um espaço fechado e que, no espaço fechado que somos, há janelas fechadas e todo um mundo lá fora. Daí a pergunta: o que existe no mundo lá fora, no mundo para além da janela? 

Respondo: O sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse é apenas o sonho que temos da janela aberta. E de que vale o sonho de uma janela aberta, se a janela nunca se abrir? De que vale um sonho que não se pode cumprir? 

Decidir dar a volta ao mundo de mochila às costas é abrir a janela e libertar o sonho para a experiência de viver. Libertar o tempo, a libertar os recursos e a libertar a coragem. Libertar a vontade de transformar a vida.

terça-feira, 16 de abril de 2013

A hora da estrela e uma maçã no escuro

Há quem se abespinhe comigo, mas desde que me consigo lembrar é assim que escolho os livros: leio o primeiro parágrafo, leio o último e se me prenderem ambos é negócio feito. Regra geral não falha como método, e não, até hoje nunca fez com que adivinhasse o desenlace do enredo a meio da leitura.

Recordo-me disto não para entrar numa reflexão - sem dúvida interessante - sobre a importância de cuidar das linhas de abertura e de encerramento de um livro, mas para recordar Clarice Lispector, que ando a ler, e que abre assim a sua Maçã no Escuro:
"Esta história começa numa noite de Março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.

Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo, passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro."
E depois a prosa segue, com igual esplendor. Mais adiante:
"Até que - como quando um relógio pára de bater e só então nos adverte que antes batia - Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.

Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras dividiram-se em flores ainda irresolutas - com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros delinearam-se cheios, macios."
Eu, perante quem escreve assim, curvo-me maravilhada e impotente, dilacerada entre a vontade da inveja e a inevitabilidade da empatia e da admiração.

Vencida para o lado da admiração, fui este domingo à exposição temporária com que a Gulbenkian decidiu homenagear Clarice Lispector, por ocasião do trigésimo quinto aniversário da sua morte e das celebrações do Ano do Brasil em Portugal. Corredores iluminados pelo brilho de palavras e imagens gravadas a toda a volta estendem-se como artérias até ao coração: uma sala de gavetas do chão ao tecto, fieis depositárias de pequenas relíquias, e uma outra onde se projectam ininterruptamente excertos de uma entrevista com a própria Clarice, palavras ainda vivas, cujo interesse o tempo não apagou nem diminuiu, e dentro das quais lateja uma melancolia envolvente como um abraço. Ali fiquei sentada, entre outros pares de olhos e ouvidos atentos, até sair com a intenção de regressar.

Escusado será dizer que recomendo vivamente a visita e a leitura. Por ora, fica o trailer de apresentação da exposição, para aguçar ainda mais o apetite (fonte: canal FCGulbenkian):

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 4

Quarto desafio desta série, na qual a ideia é escrever pelo menos cem palavras sobre uma imagem aqui colocada (e normalmente também tirada) por mim.

A imagem de hoje é:
 
 

Como sempre, a minha resposta ao desafio chegará aqui ao blogue na próxima segunda. Nessa altura poderão também partilhar os vossos textos, através da secção de comentários.

Boa escrita!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Escritores atrás da cortina

João Tordo, em entrevista ao jornal i:

"Não oiço música, estou em silêncio e escrevo sempre cerca de duas mil palavras. Nunca escrevo menos e raramente escrevo mais. Parece que estou a fazer contas, mas não é isso. Tem a ver com o facto de saber que todos os dias vou progredir e combato a preguiça. E deixo sempre as frases a meio, nunca ponho um ponto final. São mais fáceis de retomar. Com um ponto final preciso de um novo fôlego. Não sei porquê.

Gonçalo M. Tavares, em entrevista ao jornal i:

"Tento concentrar-me nas manhãs e manter uma disciplina. É uma questão de, como dizem os desenhadores, manter a mão quente. Às vezes começo a escrever com frases completamente ao acaso e só depois é que a mão pega. As primeiras páginas de um romance mando fora – é a fase em que a mão ainda está a aquecer, à procura da sua forma. (...) Começo por ler. Ensaio, ficção, etc. É uma espécie de exercício para pôr a cabeça a funcionar. Depois posso começar às 8h30 e acabar à uma ou duas da tarde."

Gonçalo M. Tavares, respondendo a perguntas do público num evento na Bibliotecta Municipal de Frankfurt (transcrição minha a partir de vídeo do canal adoa5):

"Eu acredito muito nisso também no trabalho literário (...), eu quando sinto que faço bem uma coisa, ou seja, se faço com a mão direita, não é - se pensarmos que a mão direita é mais hábil - eu tento passar para a mão esquerda, precisamente esta ideia de o que me vai surpreender vai ser feito com a mão que eu menos domino, (...) a mão menos usada. (...) Estou sempre a procurar a minha mão esquerda, não é... E é interessante que a mão esquerda depois de nós praticarmos muito (...) fica mão direita, fica hábil, e portanto temos de encontrar uma outra mão esquerda."

"Quando as coisas correm bem eu sento-me e escrevo quatro horas, cinco horas seguidas (...) E isso é quando a coisa resulta bem. (...) E depois a segunda parte do trabalho é uma coisa um bocado louca que é, depois de eu escrever vinte páginas - às vezes escrevo vinte páginas numa manhã e depois demoro dois meses a passar essas vinte páginas para duas páginas, que é um bocado absurdo mas é esse o meu método de trabalho. (...) E é muito, é muito interessante que é o que dá mais trabalho, é tornar mais curto, tornar mais curto, cada vez mais, não é... tirar todas as palavras que não sejam precisas." 

valter hugo mãe, em entrevista à Visão: 

"A cada um dos seus livros corresponde um desses cadernos, onde vai anotando ideias, expressões, palavras, muito antes de se fechar a escrever os romances. Para isso, mune-se de um computador que não o irrite, o mesmo é dizer que não esteja sempre a assinalar erro nas minúsculas e a emendá-lo. A primeira precaução que toma é justamente formatar o computador: 'O meu word não me sugere nada, não se pronuncia quando escrevo os nomes das pessoas, das cidades, dos meses em minúsculas. Preciso que me deixe em paz e cada vez mais de estar isolado para escrever'. Abastece-se no supermercado de um sortido de conservas de atum e de sardinha, de sopas de pacote e outros enlatados e tranca-se em casa, durante umas semanas."

"É também limpa, mesmo imaculada, a relação do escritor com o papel. Não admite nem a uma dedada na brancura da folha: 'Não consigo desenhar num papel com manchas, marcas ou dobras nas pontas. E tendencialmente procuro um desenho sem um traço de hesitação'."

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 3

No sábado não houve novidades porque o meu corpo andou às turras com um vírus. Fruta da época! Para recuperar a embalagem, volto hoje com a resposta ao desafio da segunda-feira passada. Como sempre, a secção dos comentários está aberta a todos os que quiserem partilhar os seus próprios textos, por isso, toca a pôr essas canetas e teclados a mexer! Boa escrita!

três à beira de uma mesa. 

há o que prefere o café puro e mau. caro. injustificável ao paladar. anima-o, porém, em todo aquele padronizado e pré-fabricado que o envolve, o manter-se fiel aos princípios da cafeína verdadeira, a singular satisfação que está reservada aos puristas, aos abnegados e aos virtuosos.

ao lado há os que preferem o açúcar em estado líquido. muito caro. prazer do corpo imediato que se paga em dinheiro e privações posteriores. prazer de plástico, feito para atordoar e logo se desvanecer. é mais caro porque resulta.

tudo tem um preço aparente ou oculto. tudo se paga nesta vida.

e depois há os que não vêm para beber, mas para estar. estar e ver os outros que vão e vêm como bandos migratórios fora de ritmo. às vezes aglomeram-se, às vezes deixam espaços vazios, às vezes tomam tudo de assalto, e as mesas vão-se cobrindo e libertando de cartão descartável e loiça para lavar.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Verdade, verdades

Hoje, um post curto, em jeito de partilha.

O que é a verdade, existe tal coisa como a verdade e, se sim, onde é que ela está realmente? Coincidência ou não, estas questões têm surgido nalgumas das minhas mais recentes deambulações pela Internet à caça de material sobre escrita. Como tal, no post de hoje, e talvez ainda no rescaldo do da passada sexta-feira, gostaria de partilhar convosco dois conteúdos que de uma forma ou de outra abordam este tema interessante e espinhoso.

A verdade em maiúsculas e minúsculas:

"Os micro-historiadores argumentavam que as generalizações da História de Grandes Homens escrita com H maiúsculo distorceram a verdade sobre como a maioria dos indivíduos realmente vivia em letra minúscula e por isso defendiam que se contassem histórias daquilo a que um prático chamou "a excepção normal": o interessante pequeno actor que poderia representar a pessoa média e, consequentemente, oferecer uma perspectiva única ignorada pelos textos de elite e meta-narrativas." (Francesca Mari, em The Microhistorian, Dissent Magazine  - texto completo só em inglês

A verdade e a história única:

"Gostaria de terminar com este pensamento: que quando rejeitamos a história única, quando nos apercebemos de que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, reconquistamos uma espécie de paraíso." (Chimamanda Adichie, em O perigo da história única, TED Talks - com legendas em português)




Boas leituras, boa escrita e até sábado!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 3

Hoje é dia 1 de Abril mas não é mentira: durante o fim-de-semana prolongado este blogue teve novos visitantes, aos quais quero agradecer calorosamente a passagem por este espaço. Qualquer visitante é para um blogue e para o seu autor motivo de alegria, mas como é tão especial e intensa a alegria do pai ou mãe de um blogue recém-nascido ao ver chegar os primeiros leitores!

Como mãe babada que sou, dou, pois, as boas-vindas a todos, aos que agora aqui chegaram e aos primeiros primeiríssimos que já por cá tinham passado antes; para todos, e para os mais que vierem, a porta continuará sempre aberta, pois este espaço quer ser, fundamentalmente e antes de mais, um lugar de partilha e de comunidade.

Como é hábito às segundas-feira, hoje temos novo desafio de escrita da série Uma Imagem Cem Palavras, a convidar à escrita de um texto com pelo menos cem palavras sobre uma imagem aqui colocada (e normalmente também tirada) por mim.

O mote para hoje é:


A minha resposta ao desafio cá estará na próxima segunda, altura em que poderão também partilhar os vossos textos, via secção de comentários.

Entretanto, voltarei na quarta, com um novo post!