Post convidado, da autoria de Carina A.
Escrever sobre a decisão de dar um longo passeio pelo mundo a um mês da
partida é um exercício difícil. Estou no olho do furacão e as palavras escorrem-me das mãos como um vento indomável que rasga todas as folhas úteis que tento
escrever.
Ao tentar resgatar as palavras para dar corpo a um texto, lembro-me de um
poema que muitas vezes me assomou à ideia quando ponderava a hipótese de
partir:
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não basta não ser cego
Para ver as árvores e as flores,
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia, não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que é o que nunca se vê quando se abre a janela.
Alberto Caeiro, Abril de 1923
Ao contrário de Alberto Caeiro, creio que não ter filosofia nenhuma é o mesmo
que ter uma filosofia qualquer: o mundo conforma-se ao olhar do observador e
este tem sempre um olhar próprio e limitado do mundo, um olhar circunscrito
tanto pelas ideias havidas, como pelas ideias não achadas.
Porém, tal como Alberto Caeiro, conheço por dentro a ideia de que cada um de
nós é, por vezes, um espaço fechado e que, no espaço fechado que somos, há
janelas fechadas e todo um mundo lá fora. Daí a pergunta: o que existe no mundo
lá fora, no mundo para além da janela?
Respondo: O sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse é apenas o sonho
que temos da janela aberta. E de que vale o sonho de uma janela aberta, se a janela
nunca se abrir? De que vale um sonho que não se pode cumprir?
Decidir dar a volta ao mundo de mochila às costas é abrir a janela e libertar o
sonho para a experiência de viver. Libertar o tempo, a libertar os recursos e a
libertar a coragem. Libertar a vontade de transformar a vida.