terça-feira, 18 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 8

A resposta de hoje ao desafio da semana passada chega com umas horas de atraso, mas chega:

É um mercado com a saciante abundância de todos os mercados. Tem bancas de queijo e bancas de legumes e bancas de peixe e de carne e de especialidades regionais, tem frascos e conservas e cestos, cores e sabores para todos os gostos, salgados e acres inesperados. 

Mas há nele algo de deslocado que assalta o visitante. As bancas flutuam no espaço como barcaças em civilizada disputa, guiadas nas investidas por capitães hirtos vestidos de avental atrás da vitrina. Aqui não se apregoa, aqui não se regateia, e os vitoriosos são eleitos com uma discreta transacção: dinheiro que muda de mãos ou um cartão passado numa ranhura.

Estamos no norte; serão porventura já os rigores do árctico a ditarem a sua lei. As coisas são polidas na face e na forma, assim como as pessoas. Nada do caos seminal dos espaços mercantis do sul, onde se grita com as mãos a rasgar o ar para dar ênfase. Nada de olfactos agredidos pela pungência de cheiros ubíquos. Os olhos comem em sossego.

Há uma diferença indesmentível e talvez seja de modo. Os cogumelos são genuinamente cogumelos, orgulhosamente cogumelos, mas jamais avassaladoramente cogumelos. Maravilham sem invadir. A experiência aqui vive-se de pé. No sul sustenta-se como se uma onda quente, desconexa, interminável nos enrolasse para dentro das suas profundezas.

E aí está ele, o texto desta semana. Amanhã teremos novo post, para redimir a ausência dos últimos dias. Até lá, boa escrita!

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