quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Zadie Smith e o romance fragmentado

Fotografia de Zadie Smith
Fonte: David Shankbone (flicker),
CC-BY-2.0, via Wikimedia Commons
As coisas são como são. Zadie Smith destrona os clássicos na minha mesa de cabeceira sem pedir licença ou desculpa. Zadie Smith, a não-clássica, a exploradora constante, fala directamente ao meu ADN, fala de mim e por mim, sobre o mundo interior como eu o sinto. Nem sempre acontece, mas acontece vezes suficientes para uma afinidade crescente ao fim de apenas dois livros: o primeiro, The Autograph Man, que alegam por aí ser a menos brilhante das suas obras; e o segundo, NW, a sua obra mais recente.

Entrevistada por ocasião dos prémios do National Book Critics Circle, para os quais foi nomeada a par de outros quatro finalistas na categoria de Ficção, Zadie Smith fala sobre este seu último livro, "um romance de interrupções", sobre quatro personagens irrompendo pelas histórias uns dos outros adentro, contando as histórias uns dos outros e consequentemente a sua, ou talvez a sua e consequentemente as histórias uns dos outros, contando, com os seus passos e espaços, o perpétuo movimento de um canto da cidade de Londres. 

A entrevista, vista pelo meu bloco de notas:
"It was one of the reasons I began it … to write a novel of interruptions. To create in prose the feeling I have moving through London: a series of discrete shocks."
"I never think about romance, really, in life or in fiction. (...) I'm more interested in human relationships in the sense of: 'how can I really believe this other person is real?'"

"I like taking on the challenge of a reader's contempt for his own times."
"It was difficult fighting my own tendency towards smoothness."

"I look up facts online, and if they seem wobbly, I check it in a book, like everyone else. Research feels a grand name for it. But mostly I try to leave facts alone!"
A entrevista, na íntegra, aqui.

Zadie Smith em quatro páginas, para quem quiser mergulhar mais fundo, aqui.

Boas leituras!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ideias contra a página em branco - Parte 4

Estamos quase no fim deste nosso primeiro percurso pelos meandros da fuga à página em branco. Começámos por falar dos perigos de dar rédea solta ao crítico interior, na Parte 1; depois listámos as virtualidades de um blogue de escrita diário, na Parte 2; e por fim meditámos sobre como é possível distrair a mente de um boqueio, fixando-a nesse mesmo bloqueio, na Parte 3.

Na Parte 4 juntaremos uma nova ideia ao lote:

    Esperar o inesperado

    Alguma vez andaram pela escola fora com um papel jocoso colado nas costas sem o saberem? Pois a minha história com esta ideia foi mais ou menos assim. Ela sempre esteve lá, eu é que nunca dei conta.

    Durante anos deliciei-me a ler histórias com personagens caricatas e enredos improváveis escritos pelas mãos de outros. Quanto mais inventivas melhor, quanto mais peculiares melhor ainda! Mas na minha própria escrita jamais me atrevi a dar o salto do verosímil para o improvável. Complexo de boa aluna desejosa de aderir aos cânones da escrita "a sério"? Quem sabe... Quem sabe, aliás, por que razão haveria eu de admirar tão fortemente a inventividade dos outros, mas equacionar para mim mesma a plausibilidade com a escrita "a sério". Qualquer que tenha sido a razão, o facto é que um dia me passou a snobeira e decidi-me a abrir a caixa de Pandora.

    De um momento para o outro as minhas personagens viram-se confrontadas com uma série de acontecimentos de probabilidade reduzida, como pianos de cauda achados no meio da rua, nascimentos súbitos de línguas naturais, capacidades sobrenaturais de "ler" o vento e marés de sorte que nunca mais acabam. E estes nem são pontos de partida especialmente "alternativos", comparados com outros que abundam na literatura consagrada (que dizer de uma invasão extraterrestre orquestrada com a ajuda de crianças? De acordar feito insecto? De viajar para Lilliput?)

    Velejar nas ondas de uma premissa invulgar revelou-se para mim um exercício absolutamente libertador, catalizador de escrita mais fluída, mais arredada dos lugares comuns e da necessidade de obedecer a uma certa ordem natural das coisas. Quando outras ideias falharam, as premissas pouco prováveis deram-me um ponto de partida eximido de toda e qualquer responsabilidade de sensatez. Permitiram-me sonhar, disparar pelo espaço em direcção a parte incerta. Deixaram-me dizer coisas só porque sim, sem a preocupação de andar online e nos livros à caça de validações científicas para as minhas teorias.

    Seja para começo de conversa, para arrebitar uma história mortiça ou para um final with a bang, desafio-vos a arriscarem numa ideia pouco comum. Confrontem os vossos personagens, não os deixem amolecer naquilo que é suposto, que é esperado, que é expectável! Ponham gente banal a experimentar coisas invulgares, coisas perfeitamente vulgares a acontecerem a gente banal, gente extraordinária a viver vidas extraordinárias, histórias convencionais com um único pormenor de caos, uma minúscula partícula de ordem no meio de uma história completamente desgovernada. As possibilidades são inúmeras e terminam apenas nos limites da vossa imaginação. Correcção: as possibilidades alargarão inevitavelmente os limites da vossa imaginação!

    Por isso experimentem. Façam da folha em branco o vosso recreio e verão como em pouco tempo o branco da folha será apenas uma vaga memória.

Sábado virá a última parte do post. Até lá não deixem de passar por cá, pois haverá novidades.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Um fim de tarde com Ray Bradbury

“You see... Surprise! You don’t know what’s in you until you test it, until you word associate. You’ve been writing self-consciously, intellectually, for too long. The deep stuff, your true self, hasn’t had a chance to come out. You’ve been so busy thinking commercially, ‘What will sell? What’ll I do?’, instead of saying ‘Who am I? How do I discover me?’” 
~ An Evening with Ray Bradbury, 2001



Não o conhecia. Não verdadeiramente. Sabia-lhe o nome da forma distante como sabemos tudo o que ainda não nos tocou. Ray Bradbury era mais uma entrada na agenda do meu cérebro, com nome mas sem conteúdo, a minha existência e a sua ainda não tinham trocado partículas e eu estava longe de saber que um simples clique inocente no Youtube bastaria para o fazermos. Já postumamente, mas o postumamente é um detalhe para as pessoas que perduram muito para além de si próprias. 

Durante mais de setenta anos Ray Bradbury escreveu pela alegria de se descobrir a si mesmo e ao mundo em que vivia, moldando a pulso o universos da ficção científica e da fantasia através de obras como Fahrenheit 451, The Martian Chricles, The Illustrated Man, Dandelion Wine e Something Wicked This Way Comes.

Em 2005, já com 93 anos, escrevia assim: "In my later years I have looked in the mirror each day and found a happy person staring back. Occasionally I wonder why I can be so happy. The answer is that every day of my life I've worked only for myself and for the joy that comes from writing and creating. The image in my mirror is not optimistic, but the result of optimal behavior."

Só esta semana comecei a descobrir a obra dele - a escrita e aquela de que ficou registo em vídeos como este. Tudo começou num sábado ventoso e gelado, enterrada debaixo das cobertas, enquanto deixava que a sua voz afável me falasse da importância de escrever pequeno em vez de grande; da importância de ler muito e sempre; do inigualável prazer de descobrir uma alma gémea na biblioteca; de como um escritor existe por dentro, mesmo quando ainda nenhuma outra pessoa o vê; de como é importante escrevermos sobre o que amamos e de como os bloqueios existem para nos avisar quando não o estamos a fazer; de como ser escritor acontece com toda a naturalidade do mundo, se formos fieis ao nosso caminho.

Terminado o vídeo, fui a uma biblioteca lê-lo pela primeira vez: um conto pequeno, sensível, vivo, fiel à sua voz, tal como a ouvi neste vídeo. Uma alma gémea? O tempo o dirá. Mas como alguém disse um dia, creio que este será o início de uma bela amizade.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Ideias contra a página em branco - Parte 3

Bem-vindos à Parte 3 deste post. Na Parte 1 e na Parte 2 tentei alinhar algumas ideias sobre o nosso crítico interior e sobre as coisas que pode ensinar uma mini-maratona de escrita criativa em forma de blogue. Hoje partilho mais uma experiência:

    Distrair a mente do bloqueio, fixando-a no bloqueio  
    Parece contraditório, não é? Mas não. 
    Bem, na verdade não é exactamente o bloqueio que nos interessa; o bloqueio é apenas uma desculpa como outra qualquer, para ir mais fundo, ao famoso busílis.
    Assim se passou comigo: um dia, com uma hora entre dois compromissos, sentei-me num café de bairro munida de recibos velhos e uma caneta bic já sem tampa, à espera de inspiração. Comecei a rabiscar umas linhas irremediavelmente anódinas e aos poucos o velho terror do vazio foi-se instalando sob a forma de desinteresse: nada do que escrevia me parecia sequer digno das costas nuas de um recibo velho.
    Pensei em parar, mas logo reconsiderei: por esta altura já eu estava lançada no projecto de blogue diário e havia que produzir um post para aquele mesmo dia. Assim sendo, agarrei num novo recibo - costumo ter a carteira alarvemente cheia! - e escrevi algo como "hoje estou sem inspiração, a escrever coisas desinteressantes". Se não foi isto foi perto disto e, qual punição da escola primária, escrevi-o um bom número de vezes, muuuuiiiiitooooo deeeevaaaagaaaaar, mas sem parar para pensar. 
    Ao fim de umas quantas repetições, a minha mente já estava careca de saber que eu não estava inspirada. Aliás, a falta de inspiração já lhe começava a parecer uma coisa nada aterrorizante e até vagamente maçadora. E então, perante a clara falta de novidades, a minha mente fez o que todas as mentes fazem quando se aborrecem mas não lhes é permitido vaguear livremente: começou a desligar. Assim, à medida que os pensamentos diminuíam, o meu sistema começou a ficar mais alerta, mais atento a coisas subtis, como a sonoridade da frase, o subir e descer da mão, a sensação física de repetição teoricamente infinita; em suma, larguei as alturas dos voos mentais e regressei ao momento presente.
    O que se passou em seguida foi algo parecido com o fenómeno que procuramos provocar quando paramos de tentar lembrar-nos de uma coisa, a ver se ela nos ocorre. Ali, no momento presente, removida a fixação mental com a ideia de que "eu hoje não estou inspirada", criou-se no meu cérebro o espaço necessário para que a inspiração propriamente dita passasse pela porta.
    E sem eu dar conta a minha voz foi-se fundindo com a voz da personagem, aquela que há que tempos estava para ali à espera que eu me focasse nela e não em mim. De repente já não era eu, mas a personagem, quem estava a escrever coisas desinteressantes. De repente a falta de inspiração converteu-se na singularidade que, explodindo, despoletou tudo o resto, ainda que no texto final não tenha ficado senão uma curta referência. Mas tudo partiu dali. 
    E a ideia de um novo truque para fintar a minha mente, essa, guardei-a para uma nova ocasião de necessidade.  
Quarta-feira avançaremos para a quarta, e penúltima, parte desta série. Até lá, haverá novidades.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Sem título

O impulso destroçado preserva o silêncio
Raízes velhas
Os meus dedos guardam coisas por nascer
Mas há algo no ar que lembra a turbulência
O que procuro é tempo para despontar

O pressentir a luz
O pressentir a dor de romper
Perco o corpo numa dança convulsa
Precipito-me para um muro
Trepamos um no outro
Em frente, para cima
Para um recuo seguro

Dentro da carapaça oca
A árvore equilibra-se de pé
Agita as folhas espaçadas
Como feridas fechadas vivas por dentro

E junto ao frio algo desponta
No morno vazio do primeiro sol da manhã 

*

Amanhã, e não hoje, mais Ideias contra a página em branco

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

It's not you, it's me

Jorge atravessou-se-lhe no caminho algures entre a porta da sala e a da cozinha. O seu corpo é sólido, moreno, quadrado, o cabelo encaracolado e a barba bem definida. Alto, o suficiente para encher o espaço. São os olhos e a voz que o traem. O corpo destoa ao lado daquele brilho miúdo e da voz que sai quebrada numa onda:

- Blaaakeeeyyyy... tenho uma surpresa!

Ela estacou, de pratos na mão, e procurou rir:

- Baby not now, c'mon, we're super late.

- Yeah, yeah, yeah - trauteou ele bem humorado, aproximando o corpo, retido à distância pela pilha de loiça suja. - Fecha lá os olhos.

Ela recuou dois passos, retirando os pratos do caminho, como se evitasse a custo um choque. Ainda a sorrir por fora.

- Baby, no. Seriously, I got like half an hour to walk out that door, can't be late again this week, Daniel will kill me!

A entrar na cozinha os dois, ela em fuga, ele no encalço.

- Awww come on, Bee, it'll take five minutes, I promise! Five minutes won't make you late, now, will they?
   
- George, sabesh que nao goshto de sorpressas.

O sotaque arrevesado, a cara evitante, a mensagem cristalinamente clara.

Ele tirou-lhe os pratos das mãos e pousou-os cuidadosamente no lava-loiças. Voltou-se para ela. Ao ouvido:

- Just close your eyes, will you?

Cresceu-lhe um arrepio dentro, ainda nem bom nem mau. Um arrepio a nascer na base do pescoço, sob o cabelo ruivo e fino e a disparar em duas direcções, um braço lançado pelas costas abaixo, levantando minúsculos pêlos transparentes, outro serpenteando através do couro cabeludo, um trilho ziguezagueante a abrir caminho até aos olhos verdes. A silhueta magra dela contida pelo corpo dele, emoldurada contra o lava-loiças.

- Fecha lá. - beijo. - Fecha lá... - beijo.

Ela lançou-lhe um ar indefeso.

- Vá, não confias em mim?

No. But it's not you, it's me. Porque isto era verdade, obedeceu calada enquanto ele a arrastava suavemente pelo corredor fora.

Pararam. Ele posicionou-a devagar, afastou-se e remexeu nuns plásticos e papeis, arrastou algo.

- Keep them closed!

Um baque surdo. E depois mais nada, apenas ele de regresso.

- Podes abrir.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ideias contra a página em branco - Parte 2

Na Parte 1 deste post falei-vos da importância de dar nome à fera, isto é, de enfrentar olhos nos olhos o nosso crítico interior e os seus excessos editoriais. Mas uma vez identificado o bicho, resta saber o que fazer com ele.

Pôr o crítico interior na ordem não é tarefa exactamente fácil, sobretudo porque ele parece conhecer os meandros do nosso subconsciente como ninguém. Adora desaparecer por ruas e reaparecer em vielas, fingir-se morto para ressuscitar duas páginas à frente, enfim, escapar-se-nos por entre os dedos quando julgamos que o temos na mão.

Na tentativa de lhe fazer frente, decidi-me um dia a

    Criar um blogue de escrita diária 
    Sim, diária. Sim, obrigatoriamente. E de preferência - uma forte preferência, neste caso - com um amigo.
    A ideia é desafiarem-se mutuamente a uma prática regular de escrita criativa, uma regularidade tão intensa que o crítico interior não terá escolha a não ser calar-se perante a inevitabilidade de postar algo.
    Claro que a ideia só resulta se houver entre ambos os participantes o compromisso de levar a sério a obrigatoriedade dos posts. Por isso, dois amigos é melhor que três e três é melhor que quatro. Tal como numa viagem de longo curso, quanto mais gente envolvida, maior o potencial de bagunça! Mas o facto de haver mais alguém no mesmo barco, ou, neste caso, do outro lado da linha, ajuda a perseverar mesmo nos momentos de desânimo e falta de inspiração.
    Ao princípio, sobretudo para quem o faz pela primeira vez, enfrentar um projecto diário pode ser intimidatório. Parece difícil. Impossível mesmo. Então e os imprevistos? E as obrigações inadiáveis? E se falho um dia? 
    A verdade é que fazer algo todos os dias, ainda que não seja estupidamente fácil, é mais fácil do que se pensa - e muito mais fácil do que só fazer algo de vez em quando. Isto porque aquilo que fazemos todos dias, ao fim de algum tempo torna-se um hábito. E no fim de contas, nós somos muito mais a soma dos nossos hábitos que a soma das nossas vontades. Vencido um certo atrito inicial, a escrita diária deixa de ser um corpo estranho, convertendo-se em parte da malha coesa e indistinta dos nossos dias, parte daquilo que pura e simplesmente é. 
    Mais: a escrita passa a ser uma prioridade entre outras, em vez de um after thought que chega quando já estamos demasiado cansados ou dispersos para lhe dar atenção. 
    De todo o modo, falhar um dia não é o fim do mundo, nem tem de significar o fim do projecto. Há sempre aquela vez em que uma obrigação verdadeiramente inadiável se interpõe ou em que adormecemos sem dar conta no sofá. Nada de desespero! O importante é que a interrupção se prolongue o mínimo possível e que não se torne ela um hábito. Um post com umas horas ou um dia de atraso é, ainda assim, melhor que post nenhum. E um ano de escrita diária com meia dúzia de dias em falta é claramente melhor que um ano de folhas em branco.
    Uma outra questão a ponderar é a escolha de escrever publicamente. Porque não num caderno ou num blogue acessível apenas aos seus autores? Bom, suponho que esta é uma ponderação relativamente pessoal, que cada um terá de fazer por si próprio. Para algumas pessoas, a publicidade é um estímulo; para outras, é um factor de inibição. 
    Quanto a mim, sempre a vi como parte fundamental do projecto. Seja um blogue com três visitantes ou cem ou cem mil, é importante que nalguma parte do percurso ataquemos a dura tarefa da exposição. A exposição que, afinal, não é mais do que darmos ao outro a oportunidade de presenciar algo genuíno, algo único, algo que somos nós lá no fundo mais fundo que esse termo contém, o nosso espaço de maior vulnerabilidade. Aprender a escrever imperfeitamente face aos outros e a aceitar essa imperfeição é parte indissociável do processo para chegarmos a um lugar ao mesmo tempo autêntico e livre. No fundo, é parte indissociável do processo de aprender a escrever.
    Em http://ohabitofazoblog.blogspot.pt/ permanece o registo da mini-maratona que, em Outubro do ano passado, ousei correr na companhia de uma amiga. O projecto deu entretanto lugar a outros, mas na sua vida imprevistamente curta ensinou-me muito mais do que poderia supor sobre as virtudes da escrita obrigatoriamente diária e voluntariamente exposta.
Na sexta-feira virá a Parte 3 e, com ela, uma nova ideia. Até lá, quarta-feira haverá escrita criativa.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ideias contra a página em branco - Parte 1

Durante muito tempo o medo da página em branco foi um dos meus maiores inimigos. Suficiente, até, para me fazer desistir de ideias perfeitamente válidas antes da simples tentativa de as desenvolver, ou a meio dela. Sem dó nem piedade, descartei assim dezenas de enredos, personagens, cenários, desde os mais incipientes aos mais acarinhados, carimbando-os a todos com o rótulo de "imprestável para consumo humano". E logo em seguida arranquei cabelos e roí unhas à conta da minha deplorável falta de ideias.

Tipicamente, a coisa passa-se assim: uma ideia promissora, entusiasmante, rodada mentalmente de um ângulo e de outro enquanto passeio na rua a caminho de uma qualquer obrigação; o necessário tempo de espera até se apresentar ocasião propícia à escrita; finalmente, o momento chega, lanço-me à coisa ansiosamente e algures em mim uma certa sensação de inutilidade começa a instalar-se ao cabo de três parágrafos ou quatro. Apago e reescrevo um número variável de vezes, desespero-me, desisto. Pouco depois, uma ideia amarrotada voa em direcção ao cesto dos papeis. Metaforicamente falando, é claro - raramente escrevo à mão.

Nestas angústias nunca estive sozinha. Não bastasse a própria vida para o provar, o imaginário cinematográfico é fértil em escritores desesperados fitando ecrãs desapontantes, amarrotando folhas, riscando páginas inteiras, enchendo caixotes de lixo, bebendo café profusamente, suspirando e arreganhando os dentes ainda mais profusamente.

Um dia, inesperadamente, as coisas começaram a mudar. Dizer que estou livre da página em branco e dos seus terrores seria mentir. Aliás, consigo vê-os na sua dança de aproximação enquanto escrevo estas linhas (vale a pena? será verdade? terei legitimidade para?). Suponho que a sua presença mais ou menos remota seja parte indissociável do processo de escrita, algo que a significativa montanha de livros e recursos online dedicados ao tema parece confirmar. Mas, por tentativa e erro, reunindo ideias aqui e ali, fui encontrando formas de seguir a direito através desse medo, descartando-o por completo quando possível.

Aqui estão algumas das ideias (90% de sabedoria alheia, 10% de arranjo floral meu) que me têm ajudado:

    Dar nome à fera

    Conhecer o inimigo é meio caminho andado para nos vermos livre dele, por isso a pergunta o que é que me faz desistir a meio? é fundamental. É preguiça? Falta de inspiração? Simples falta de jeito?

    Entra em cena o crítico interior. O crítico interior é aquela personagem maléfica à la filme da Disney que se diverte imensamente com a sua pura maldade, entretendo-se a difamar-nos junto de nós mesmos, dizendo-nos ao ouvido - às vezes gritando aos quatro ventos - que aquele texto não é suficientemente bom, aliás, que é mesmo uma grande porcaria. Claro que o crítico interior não acha nenhum dos nossos textos ou ideias suficientemente bons, provavelmente nunca achará.

    Mas o crítico interior não sabe exactamente o que seria um texto suficientemente bom, ele só sabe, com toda a certeza, que não é aquele que temos à nossa frente. E quanto mais pequeno e incipiente esse texto for, pior.

    Com o tempo, fui aprendendo que o meu crítico interior tem muitas faces: falta de ideias boas; falta de ideias pura e simples; falta de jeito para representar adequadamente as poucas ideias que escapam; dúvidas persistentes sobre se estou a escrever a verdade, logo seguidas da dúvida existencial sobre se existirão ainda verdades na terra - e assim sendo, valerá a pena o esforço?; uma fome súbita a meio do tempo de escrita; uma necessidade urgente de tratar das contas do mês; a sensação de gota à deriva no oceano, regra geral sempre que entro numa livraria; a lista continua.

    Creio que o crítico interior é uma daquelas inevitabilidades da vida, como um cabelo branco, aos dezoito anos, a sobressair entre caracóis escuros. Uma inevitabilidade, aliás, que nasce de uma versão distorcida e abusiva daquela que é uma das ferramentas indispensáveis ao escritor: a capacidade de editar. Mas como tudo na vida, uma ferramenta indispensável só é realmente útil no momento certo. Ou seja: para editar um texto é preciso que haja... bem, texto.

    O verdadeiro problema nasce, então, quando soltamos o nosso crítico cedo de mais, quando lhe damos carta branca para nos atormentar e, sobretudo, quando deixamos de o reconhecer, confundindo a sua longa mão com falta de ideias ou falta de jeito.

    Pensem nisso. De manhã à noite, quantas ideias passam de rajada pelas nossas cabeças? Milhares! Centenas de milhares! O problema não é a falta de ideias - as ideias são geralmente uma torrente que acossa a mente humana - mas o facto de sistematicamente desvalorizarmos cada ideia que nos vem ao espírito. Isso, esse encolher de ombros face a uma ideia pequena ou grande, esse apagar frenético a cada três palavras escritas, é o nosso crítico interior, misturado com u
    ma boa dose de preguiça de o afugentarmos à cacetada.

    Olhá-lo nos olhos assim que levanta cabelo é meio caminho andado para o pormos na ordem. O que nos leva à ideia n.º 2, depois de amanhã. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Inverno

Quando acordo é Inverno. A luz ainda não instou as miudezas da terra à vida e tudo o que respira, de uma forma ou de outra, recolheu à toca. Investigo a minha cara no espelho junto à cama, talvez reconfortada por essa primeira confirmação de existir.

Na cozinha os pratos da véspera esperam a sua vez, mas a sua vez ainda não será agora, porque o hábito inclina já as minhas mãos sonolentamente para o armário do chá. Um armário assim perfeitamente designado, onde há duas prateleiras inteiras só de chá e tudo o resto é um amontoado esparso de coisas inagrupáveis num único nome.

O primeiro acto consciente do dia - olhar-me ao espelho e as outras coisas que fiz até aqui são mero movimento condicionado - é este. A escolha do chá. É a primeira manifestação de presença e singularidade que emerge do meu corpo, ainda antes de o mundo tomar consciência de si próprio e se encarniçar numa vertigem.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Escrever é um verbo

As verdades chegam quando chegam, indiferentes ao bulício da impaciência humana. Se as suamos lentamente, chamamos-lhes aprendizagem. Se caem súbitas, e com estrondo, epifanias.

A minha aconteceu em forma de blogue partilhado, aqui, ou talvez antes, um pouco por toda a parte, ao longo das muitas vezes que disse e re-disse, escritora, um dia

Mas um dia, finalmente, percebi. Escrever é um verbo, não um substantivo. Necessita de músculo. Vive de luz, ar, movimento livre. Dentro de um rótulo definha. Dentro de uma gaveta definha. 

Este é um blogue sobre a extraordinária aventura de sair da gaveta. Um espaço partilhado com todos aqueles que queiram companhia na hora de enfrentar o primeiro, o milésimo ou o milionésimo passo desse infinito trajecto.