sexta-feira, 31 de maio de 2013

A escrita espantada

A reverência. Escrever num espanto por cada coisa, como milagre que é, por cada estrela do céu estrelado, ou pedra do caminho, escrever dentro do sufoco que toma o peito quando o mais profundo das formas se manifesta. Lamentamos secretamente as oportunidades perdidas de nos sentirmos pequenos, insignificantes em nós mesmos, completos no todo. Faltam-nos nos tinteiros planícies, mares desertos, pântanos, a selva misteriosa, ou simplesmente o mundo minúsculo espiado à altura da relva em que nos deitamos por fim.

***

A propósito deste fragmento, rabiscado hoje no Moleskine numa versão semelhante mas não igual à que chegou aqui ao blogue, fui caçar na estante o adorável e diminuto conto "Porque é tão importante ver as estrelas", do livro Fronteiras Perdidas, de José Eduardo Agualusa. Fui caçar, especificamente, esta passagem:

"A avó de Fortunato nasceu em Calomboloca e viu pela primeira vez a luz eléctrica, já adulta, quando o marido a levou para Luanda. Ao contrário do que seria de esperar não ficou encantada. Na opinião da velha senhora o esplendor eléctrico das grandes cidades, ao ocultar o brilho das estrelas, prejudicou a humanidade. Ela acha que, tendo deixado de ver as estrelas - tendo deixado de se confrontar, todas as noites, com o ilimitado, o infinito, a fantástica imensidão do universo -, os homens perderam a humildade, e com a humildade perderam a razão."

***

Sempre a propósito, e fazendo do texto de Agualusa meu trampolim, aqui ficam alguns desafios:

1. Escrever, na primeira pessoa, sobre o dia em que a avó de Fortunato viu pela primeira vez a luz eléctrica.

2. Descrever o céu nocturno como se tivessem de o explicar a uma pessoa que nunca o viu nem sabe o que é. Não usar as palavras céu, noite, estrelas, lua, escuro, claro, azul, branco, negro, nuvens.

3. Descrever detalhadamente uma lâmpada. Descrever o que lhe sucede quando se acende.

4.  Em 5 minutos (cronometrados!) escrever as palavras e frases que vierem ao espírito a propósito do termo "infinito".

5. Numa mesma noite, ao mesmo tempo, duas pessoas olham para a lua cheia. Uma está num barco. Outra numa casa. Descrever quem são e o que pensam.

6. Fazer alguma coisa pela primeira vez e escrever sobre isso.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 7

Olá a todos e obrigada por mais esta visita! No desafio de escrita de hoje proponho-vos escrevermos cem palavras ou mais sobre a seguinte imagem:


Como sempre, na próxima segunda será a hora de partilharmos os nossos textos, por isso não deixem de marcar presença. E entretanto vão espreitando o blogue, porque haverá novidades!

Boas leituras e boa escrita!

domingo, 26 de maio de 2013

Escrever Escrever em jeito de Brasil

Este sábado regressei à Escrever Escrever, uma dinâmica escola de escrita criativa instalada num terceiro andar do Largo Camões, com uma nesga de vista para o Tejo e duas salas imensamente acolhedoras onde as palavras correm livres.

Ali fiz, em tempos, três workshops: um de escrita de viagens, outro de escrita criativa em geral e outro dedicado a "desformatar" através da escrita. 

Desta feita, o tema que me fez voltar foi "Escrever à Conversa: palavras soltas em jeito de Brasil". Um evento de entrada livre, dinamizado por Viviane Ferreira de Almeida, que ao longo de duas horas nos deu a conhecer uma admirável panóplia de escritores brasileiros, dos mais contemporâneos aos mais antigos, sem esquecer os verdadeiramente intemporais. O nome Clarice Lispector não deixou de marcar presença, mas com ele vieram outros, como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Raduan Nassar ou Cora Coralina.

O grupo manteve-se pequeno, e talvez por isso mesmo o ambiente se tenha rapidamente aconchegado naquele espaço onde os quase-estranhos se podem tornar quase-amigos, ou pelo menos partilhar qualquer coisa de si que não a habitual capa protectora do "chamo-me isto e faço aquilo".

A apresentação de textos e seus escritores foi sendo pontuada por breves desafios de escrita. Uma das pequeníssimas passagens que escrevi, em resposta a um desses desafios, foi: "Juntos fazemos o teu avesso e o teu direito. E quem pode dizer onde estás tu e a tua essência? Quem pode dizer se és mais o pé que samba ou a cabeça que foge para um céu azul? Somos os teus dois maridos."

Do que vi e ouvi, gostaria de partilhar quase tudo. Mas em lugar do quase tudo, partilharei alguma coisa.

Um filme sobre um poema de Carlos Drummond de Andrade, a lembrar-nos que na nossa língua ou em qualquer outra, não deixam de ser pesadas e concretas as pedras que nos surgem "No meio do caminho" (canal imoreirasalles):


E a longa e irreverente frase de abertura de um texto de Raduan Nassar, "Aí pelas três da tarde", a convidar à liberdade, ou melhor, à libertação:

"Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida." (fonte: releituras)

Até segunda, boas leituras e boa escrita!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 6

Têm sido dias velozes, com a escrita a repartir o espaço com tantas outras coisas, entre devoções e obrigações, cada uma delas indispensável à sua maneira. Mas o prometido é devido: o desafio foi lançado aqui, a resposta segue abaixo. A ver o que me deixam os queridos leitores de presente na caixa dos comentários!
 
Dentro do círculo.
É o momento que os aparta dos demais.
Lembro-me bem de estar assim,
pontapés no ar,
balançados e lentos,
a conversa de cá para lá em códigos,
naquela idade em que nós
é a palavra mais importante.
Olho discreta e enviesada,
atrevo-me.
Roubo ao momento uma partícula
e corro dali em fuga,
com o meu fragmento furtado no bolso.
A mão fechada a disfarçar,
como se carregasse comigo uma borboleta
ou outro tesouro.
Sinto-me com febre.
Talvez seja o sol no empedrado
que me toca ao morrer
ou talvez seja outra coisa
como tu e o teu fantasma
balançando pés e ar e riso.
O momento passou com o eléctrico
que arrasta rua abaixo o som
e o sol passou
caído algures por trás das casas.
Sob o verde que sobra e derrama
a última luz do dia sobre o alcatrão
restam os meus sapatos
impenetráveis.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A escrita de mote em mote

Às vezes um empurrãozinho é preciso. Naqueles dias em que a mente vai vestida de branco, ou melhor, de cor nenhuma, tão vazia, tão vazia, que mais parece cheia de tanto nada que tem, ajuda ter à mão um molhinho de ideias peregrinas - e sobretudo alheias - para desencalhar o navio.

Mas que é isso?! Agora advoga-se aqui o plágio?

Não, nada disso. Advoga-se, isso sim, o uso daquilo a que, à falta de melhor ideia, chamarei o método do mote. O método do mote é basicamente aquele em que alguém nos dá um conjunto sumário de pressupostos para um texto e nós partimos daí à desfilada.

Em regra, um mote não é muito longo. Mas pode ser tão complexo ou tão simples quanto se quiser e tão banal ou tão invulgar quanto se quiser. Pode ser apenas algo como "descreve os últimos cinco minutos da tua vida". Mas também pode ser algo como "descreve o dia em que um famoso lutador de sumo decide fazer dieta e tornar-se bailarino".

E onde estão eles, esses motes?

Em livros como o 642 Things to Write About, por exemplo, onde se encontram coisas como "o próximo som que ouvires e o que o causou", "a tua experiência mais transcendente com um gelado" ou "o pedido de desculpas que uma figura pública recentemente caída em desgraça deveria ter dado, em vez daquele que foi escrito pelo seu pessoal de relações públicas".

Depois, gratuitamente, na Internet, sob muitas formas e feitios. Convém sempre verificar no próprio site as condições de uso, pois se alguns oferecem livremente os seus motes (ou writing prompts) sem qualquer especificação, outros fazem alguns pedidos, por exemplo, que os materiais em causa não sejam utilizados para fins lucrativos. Algumas hipóteses interessantes: esta, esta e esta -- e claro, este blogue em que estão agora, onde actualmente às segundas-feiras há desafio de escrita e onde tenciono ir deixando outras ideias também, não apenas através de imagens.

Uma forma de arranjarmos os nossos próprios motes é pegar num qualquer artigo de jornal ou revista e de forma aleatória seleccionar uma frase ou, melhor ainda, um conjunto de três palavras separadas no texto e partir daí. É possível fazê-lo com os tais jornais e revistas, com livros, letras de música, receitas de cozinha, bulas de medicamentos... estão a ver a ideia.

Pessoalmente, não uso os motes para escrever uma história com princípio, meio e fim,  mas sobretudo para soltar a inspiração naqueles dias em que ela está mais perra. Desaperto as amarras da mente, escrevo um bocadinho e depois acabo por me voltar para a escrita de outro texto, com as ideias que entretanto me tenham vindo à cabeça.

E sobre motes é isto, pelo menos por hoje. E já agora, se conhecerem materiais gratuitos como os que partilhei aqui hoje, mas em português, por favor partilhem-nos nos comentários, ficar-vos-ia muito agradecida!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 6

Para o desafio de escrita desta segunda-feira temos a seguinte imagem:


Cá espero as vossas cem palavras ou mais, na próxima segunda-feira, altura em que aqui colocarei também as minhas.
 
Até lá haverá novos posts, por isso não se esqueçam de ir espreitando esta janelinha virtual!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 5

Mais um texto de resposta ao desafio "Uma imagem cem palavras", cujo mote foi lançado na semana passada, aqui. Para as vossas próprias criações, mantém-se sempre aberta a secção de comentários. Boas leituras e boa escrita!

O carro rodava livre debaixo do tecto falso que era para o túnel o chão da rua. Sobre a sua cabeça havia quem arrastasse uma mala de cansaços em direcção a um hotel, quem esperasse o autocarro eternamente atrasado, quem seguisse de braço dado e passo lesto, quem discutisse discretamente ao telemóvel num recanto afastado do centro. Mas esta montra humana de vida era para ela invisível, só o torpor de estrada contínua e luzes lambendo o escuro passava para o lado de lá das suas pupilas, e mesmo assim apenas a fracção de segundo necessária para fazer cócegas ao cérebro e se dissipar.

Em oito anos de ausência Lisboa tinha mudado alguma coisa, mas ela tinha mudado tudo. Ainda assim não voltava como estranha, voltava como quem regressa ao sítio onde um dia enterrou pequenos tesouros de infância. Destapado o cofre, os tesouros converteram-se em bugigangas, mas o seu valor de algum modo duplicou e a sua simplicidade não faz senão arrancar lágrimas ao olhos.

Era assim que um choro miudinho se lhe ia entalando na garganta, varrido para fora do rosto pelo fresco da noite que escorregava pela fresta da janela semi-aberta. Iam os dois em silêncio. As palavras não serviam para dizer o que era preciso.

domingo, 5 de maio de 2013

Escrever no meio da dispersão

Escrever no meio da dispersão não é fácil. Por isso nem sempre escrevo como e quanto quero. Por vezes, não escrevo nada durante dias. Histórias a meio ou em potência, personagens adiados, versos ainda em esboço, nada cresce um centímetro que seja no cantinho ajardinado dos meus cadernos. Mas é mesmo assim. Este é o "segredo sujo" da vida de escrever: às vezes simplesmente não queremos saber dela para nada! 

Às vezes há papelada para tratar, não-sei-quê na casa que precisa de ser concertado, trabalho que sobrou para o fim-de-semana, família a que dar atenção, viagens para planear, amigos com quem se combinou qualquer coisa, mil e um hobbies, emergências de última hora, todo um mundo de coisas que nos puxa pela manga e exige prioridade. E então nós damos e damos e a escrita escorrega de mansinho para um enclave algures atrás do sofá da sala. 

Depois vem a culpa, certa e certeira. Mas a culpa é dos sentimentos cuja intensidade é porventura mais inversamente proporcional em relação ao número de problemas que resolve. A culpa, pelo menos em mim, é mãe da procrastinação, que é como quem diz, da negação. De modo que com muito custo lá deixo a culpa seguir o seu caminho pelo ralo abaixo e dedico-me ao cultivo de pensamentos mais úteis.

No meio da bulha, a primeira coisa que tento fazer é regressar à mesa da escrita. Bom, a segunda coisa que tento fazer. Depois de me arrastar pela casa em desespero, depois de não escrever há dias e dias e de estar pronta a rasgar o meu certificado de aspirante a escritora em mil pedaços, a segunda coisa que tento fazer é escrever. Parece simples, mas só é simples dizê-lo; fazê-lo é uma outra questão por completo. Experimentem escrever com a mente mais seca e rachada que o deserto do Saara à hora de almoço num dia de Verão. Exacto!

Esse é, na minha experiência, um dos principais inconvenientes de não escrever: quanto menos se escreve, menos se tem para escrever. Assim, não há outro remédio que não seja começar por algum lado (como este post, por exemplo!) e sobretudo deixar que essa primeira escrita saia livre, seja o que tiver que ser, já que muito provavelmente sairá trémula e o nosso crítico interior estará especialmente alerta aos seus defeitos.

Algumas ideias em carteira que me costuma ajudar a evitar que a dispersão e a procrastinação se perpetuem:
  1. Andar sempre com um caderno de bolso e uma caneta e tirá-los do bolso assim que surge a ocasião. Muita da minha escrita é feita em cafés e restaurantes, paragens de autocarro, no metro, em salas de espera, em jardins e em outros sítios similares nos quais, por um motivo ou por outro, me encontro à espera ou a fazer tempo. Quando ando ocupada ou preocupada com outras coisas, por vezes não me dou ao trabalho de tirar o dito caderno da carteira, preferindo ficar entregue a planos mentais sobre o que vou resolver, quando e como. A solução é tirá-lo assim que me sento em qualquer lado e folheá-lo: normalmente acabo sempre por escrever mais qualquer coisa.
     
  2. Escrever com o que houver à mão. Se não houver caderno de bolso, improvisar. Recibos, guardanapos ou lenços de papel são sempre uma escolha popular. Se não houver caneta ou lápis é mais difícil, mas nos cafés regra geral são muito prestáveis em arranjar, se pedirmos com um sorriso.
     
  3. Não ser muito exigente. Como disse acima, não dar margem para que o nosso crítico interior se ponha às chicotadas. Depois de uma temporada sem escrever, permito-me sempre ficar satisfeita com qualquer bocadinho de frase que saia, aproveitando até a mais pequena pausa no dia para anotar uma ideia que porventura me tenha vindo ao espírito.
     
  4. Escrever de manhã, o mais perto do acordar que for possível. Se pudesse escolher, adorava que o meu dia tivesse duas manhãs e uma noite, nada de parte da tarde! Essa é a altura do dia em que, se tiver dormido bem, a minha mente está mais fresca e comunicativa, apta a congeminar e escrever o próximo grande romance do século (ok, se calhar apenas mais um conto perfeitamente anónimo, mas é bom na mesma!) De manhã ainda não me embrulhei nas canseiras e preocupações do dia, pelo que posso dar à escrita a minha atenção completa. Além disso, por essa altura muita gente concede ainda ao sono mais uns minutinhos, pelo que não há distracções de maior. Sei que há pessoas que diriam que estou louca, que a manhã é um túnel de nevoeiro completo e que só à tarde ou à noite a cabeça deles começa a carburar. Bom, o que escrevo aqui é apenas a minha experiência, aquilo que funciona melhor para mim e, creio, provavelmente para muitos outros também. Mas para quem for adepto de escrever ao cair da noite, e assim se sentir melhor e mais produtivo, força! O que importa é arranjar um momento do dia em que se possa assegurar uma mente clara, boa disposição e uma atenção não dividida. E, claro, garantir, ainda assim, uma dose razoável de sono de beleza.
     
  5. Deitar-me mais cedo. É a batalha de uma vida, minha gente! Gostar da manhã e da noite ao mesmo tempo é uma das razões pelas quais durmo quase sempre menos do que devia. E quando isso acontece, acreditem que se nota, na pouca escrita como no mau humor. Nas épocas de maior dispersão, há também a tendência de querer esticar o dia até às pontas, mas a verdade é que ficar acordada até mais tarde raramente se traduz em escrita de qualidade ou em quaisquer outras tarefas concluídas com particular brilhantismo. Já ir para a cama mais cedo resulta, em regra, numa mente mais clara e imaginativa no dia seguinte, para além de me permitir acordar ainda mais cedo do que o habitual, rendendo-me assim um tempinho de escrita extra, antes de o trabalho e o resto do dia se instalarem.
     
  6. In extremis, sacrificar alguma actividade. A verdade é que não temos tempo ilimitado, nem podemos fazer tudo ao mesmo tempo. Eu gostava, acreditem, e mais de uma vez tenho tentado, mas não é possível. Depois de uns tempos com uma agenda semanal a rebentar pelas costuras, acabo sempre por chegar a esta mesma conclusão. E, com alguma reflexão sofrida, decido o que tem de ficar para trás. Não é fácil, porque gosto mesmo de muitas das coisas que faço, mas em última análise abandonar uma delas ajuda-me a apreciar melhor as outras. A questão sobre qual das actividades abandonar é muito pessoal. Para alguns, se calhar, essa a actividade será a própria escrita. Não é uma resposta certa nem errada, é o que é. Mas para mim a escrita está entre as prioridades e por isso o machado sacrificial cai sempre noutro lado.
     
  7. Não me massacrar com isso. Gostaria de escrever sempre muito e bem. Ou até pouco e bem. Bolas, até mesmo muito e menos bem, desde que nada de verdadeiramente horripilante! Mas a verdade é outra. A verdade é que há dias em que escrevo alguma coisa e outros em que não escrevo nada. Há raros momentos em que escrevo muito. Mas nem sempre bem. Muito do que escrevo fica pelo caminho (gaveta, às vezes lixo). E depois há alturas em que não escrevo nada durante muitos dias e quando recomeço só escrevo mal. Esta é a vida como é. Correcção, esta sou eu como sou. E só como sou poderei escrever. Trabalhar para ser melhor, sim, sempre! Massacrar-me por não ser diferente... para quê? 
Às mães que aqui passarem hoje, desejo que seja um fantástico dia! E a todos os leitores, sem excepção, desejo um bom domingo, boas leituras e boa escrita!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Entreabrindo


      Post convidado, da autoria de Mar      

Há uns tempos, aqui, citou-se Alberto Caeiro. De Caeiro e daquele post, trago a frase “Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;”. 

Saltando de uma janela entreaberta, saí para o mundo e vim dar a uma cidade. Uma cidade, contudo, mais fechada do que a janela que pretendi escancarar. Ou assim parece, em muitos dias - talvez demasiados, talvez poucos. Independentemente disso, aprendi a sair e a tentar abrir esta janela que é a cidade onde moro, porque, aqui, ou noutro sítio qualquer, está “todo o mundo lá fora” e eu quero tentar conhecê-lo e percebê-lo. 

Não há palavras que permitem explicar ou materializar verdadeiramente o que é a experiência de um emigrado. Mesmo a de um emigrado que saiu por vontade própria, sem ser impelido pelas circunstâncias menos boas em que se encontrava. Eu pelo menos, não consigo; por isso, fiz minha uma outra frase que é de outrem, aquela que nos diz que “uma imagem vale por mil palavras”, e trago comigo sempre uma máquina fotográfica. 

Esta experiência visual que começou há dois anos e meio e com ela construi uma relação mais aberta com o sítio onde moro, mais honesta com as pessoas que me circundam e, sobretudo, aprendi que a “janela fechada” são muitas vezes os nossos olhos que estão simplesmente desatentos (quando não cerrados) e que, reitero, “o mundo lá fora” é já aqui, onde nós estamos. Com todo o respeito a Pessoa e refreando constantemente o meu próprio impulso de sair, para onde quer que seja.

Um dia partilharei as imagens. Agora, ficam as toscas palavras.

     Visitem Mar em http://pontosdevista.aminus3.com/