sexta-feira, 29 de março de 2013

A arte de observar pessoas

People watching, dizem os anglófonos na sua língua simples, exacta e musical. Uma arte perdida no tempo pré headphones e pré smartphones? Talvez... Ou talvez não perdida. Talvez só um pouco posta de parte, enquanto nos ocupamos a viver uma espécie de adolescência tardia colectiva, encafuados no nosso umbigo e nas quatro paredes invisíveis mas palpáveis da tecnologia, que nos acompanham para todo o lado, mesmo em pleno ar livre.

Seja como for, é uma das minhas actividades favoritas, porventura porque desde pequena sempre tive na família quem gostasse de ocupar as horas de espera ou de viagem adivinhando histórias nas feições e comportamentos dos outros.

Observar pessoas é uma arte fina, nos antípodas da intromissão indesejada e do voyeurismo, e uma arte perfeitamente portátil e acessível, necessitando apenas de um par de olhos atentos, uma mente serena e a disponibilidade para uma ligação genuína com o momento presente. Pressupõe também, para a prática prazenteira e continuada, uma curiosidade sincera pelo mundo nas suas partes mais ínfimas.

Um dia alguém disse que o simples nem sempre é fácil. E disse bem. Estar apenas, mas por inteiro, é das ocupações mais simples e mais difíceis que o ser humano, sobretudo o desta nossa era da técnica, pode empreender. Na espiritualidade, é o que distingue os mestres dos aprendizes. Nas viagens, é o que separa os viajantes dos turistas. E no mundo das letras, talvez seja o primeiro passo sereno, silencioso e indispensável, a primeira capa discreta do escritor.

Porque gosto de o fazer, divirto-me a experimentar, mas o certo é que estou infinitamente mais perto do aprendiz que do mestre, e facilmente a minha mente desliza daquilo que a realidade me oferece para cantos paralelos da memória ou de projectos futuros.

As pessoas têm histórias que se insinuam assim que elas entram num espaço. Histórias que podem nascer tão breves como um apertar de atacadores ou tão densas como uma veemente discussão com lágrimas. Revelá-las é o primeiro trabalho de escrever. Mas que esforço é preciso para não afixarmos em cada uma delas, assim que se apresentam, as nossas próprias ideias precoces sobre quem são e o que fazem! Como aquele homem que passa do lado de fora da janela em passo desengonçado, com a gabardina amarelada e o chapéu a despropósito, que é a despropósito apenas na minha expectativa, mas não na realidade da pessoa que ele é. Quem é ele? O que o move? O que diz de si o seu aspecto exterior? Quão mais fácil seria inventar respostas imediatas, que tentar pacientemente descortinar as verdadeiras! Talvez seja por isso que tendemos a colar a nossa realidade interior à pessoa exterior dos outros, quando deveríamos ocupar-nos a olhar as subtilezas, para descobrirmos aí a história que realmente é, e não aquela que queremos contar.

Quanto à tecnologia, que não fiquem mal entendidos: sou fã dela, ou não estaria aqui neste blogue. Como tudo na vida, creio pode ser tanto um empecilho como um estímulo precioso, dependendo do uso que dela façamos; e justamente o que penso é que alguns dos usos que temos feito da nossa fenomenal revolução tecnológica têm sido muito pouco proveitosos, prejudiciais até, porque não são a tecnologia como manifestação e aprofundamento do que é ser humano, mas a tecnologia em sua substituição. Mas tudo isso seria matéria para outro post, não aqui neste blogue.

Em todo o caso, a provar o ponto, aqui vos deixo duas interessantes janelas virtuais para o mundo da bela arte de observar pessoas:

Travel Paris: People Watching at a Café:
(canal soniastravels)



People Watching by Rose Palmer:
(canal StudyUCL)


segunda-feira, 25 de março de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 2

Resposta ao desafio lançado aqui. A secção dos comentários está aberta a todos os que quiserem partilhar os seus próprios textos. Boa escrita!

Sonho com nuvens. Noites a fio tenho sonhado a preto e branco, mas hoje as nuvens aparecem-me vividamente recortadas num céu azul e é a primeira vez desde há muito tempo que em sonhos elas se parecem com o algodão felpudo que normalmente persigo, de nariz no ar, nos dias de sol. 

No meu sonho estou acordada num avião, a ver a asa cortar o vento invisível, e por debaixo dos meus pés firmemente assentes escapa-se uma coisa que podia ser qualquer coisa, qualquer cidade ou lugarejo, ou mesmo simples montanha ou extensão de campo ondulante.

A esta altitude é impossível dizer. De vez em quando invade-me uma vaga tontura e penso que podíamos muito bem cair a pique como uma pedra num lago, mas que por qualquer milagre nunca caímos, e que esse é o milagre do Homem, mas também o milagre do acaso -- ou do divino, se uma pessoa acredita numa ordem oculta das coisas.

Da cadeira do lado sinto um puxar na manga. Uma menina de olhos redondos e grandes pede-me por gestos que lhe abra uma lata. Serviram o almoço e nem me dei conta. Abro-a e devolvo-lha com um sorriso. Ela não parece ter mais de cinco anos e viaja entretida com um caderno e lápis para colorir. De vez em quando a hospedeira passa a visitá-la. Sinto que a conheço, mas não sei de onde, e embaraço-me ao sentir um desejo quase insuportável de a abraçar, de lhe contar o segredo de que a vida já começou, mas sei que se lho contasse ela envelheceria de repente muitos anos, até à idade em que uma pessoa sabe lá dentro que a vida já começou. Vejo-a pintar com a ponta da língua ligeiramente de fora, encostada ao lábio superior. Concentrada e feliz com as linhas imperfeitas que traça ora dentro ora fora dos espaços determinados.

Com o pacote de alumínio a arrefecer à minha frente, exalando o cheiro de comida invulgarmente compactada dentro de um espaço exíguo, volto-me para a janela e vejo rastejar lá ao longe mais uma nuvem. Não tarda será manhã.

quinta-feira, 21 de março de 2013

O dia da poesia

As minhas desculpas: era suposto ter vindo aqui ontem mas não vim. O dia rebelou-se com jeitos de rio convulso levando tudo à frente. Lá fui eu na enxurrada, sugada com árvores, automóveis e casas inteiras para dentro do grande ralo da vida, rodopiando mil e uma vezes sobre um único centro até desaparecer pelos confins da terra abaixo, reemergindo do outro lado. 

Hoje estamos já do outro lado e é tempo de regressar aqui. Até porque é (quase foi) dia mundial da poesia. O dia em que...

... a UNESCO nos recordou que a poesia é "uma componente da identidade dos povos" e que todos "temos o dever de transmitir esta herança - o legado de Homero, Li Bai, Tagore, Senghor e inúmeros outros - porque ela é testemunha viva da diversidade cultural da humanidade".

... na TSF cinco poetas leram cinco poetas, perpetuando nas suas palavras as palavras dos outros, que é uma das maneiras mais bonitas que temos de manter alguém perto de nós.

... na Fnac de Almada, olhos brilhando no escuro revisitaram Florbela, sendo testemunhas das muitas casas que a poesia habita e das muitas peles que veste, como a pele de uma actriz de mão cheia que dá corpo à alma mais funda e incendiada, ou de um filme que nos promete novos e entusiasmantes caminhos para o cinema em português.

... por mero acaso, nas primeiras horas da manhã, descobri uma nova arca do tesouro ainda por explorar.

... na minha aula de teatro habitual nada foi como o habitual, porque em vez de teatro houve canto, e no canto redescobri por dentro a Etelvina rebelde e uma Tabacaria eterna.

... por todo o mundo, foi tempo de parar e olhar para o coração das coisas, recordando aí que a poesia está em tudo e em todos, sempre. Não se escreve nem se inventa, somente se revela.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 2

Desafio de escrita n.º 2 da série que teve o seu primeiro capítulo aqui e aqui. Já sabem, a ideia é escrever pelo menos cem palavras sobre a imagem, que salvo indicação em contrário terá sido tirada por mim.

 A imagem de hoje:


O meu texto aqui estará na próxima segunda-feira, altura em que poderão também partilhar os vossos, via secção de comentários.

Quarta-feira há novo post. Até lá, boa escrita e divirtam-se!

domingo, 17 de março de 2013

Lentes embaciadas e a reinvenção da roda

Há cerca de dois anos comecei a aprender a desenhar com a obra The Creative License, de Danny Gregory. A entrada deste livro na minha vida deu-se por acaso, ou melhor, por engano, no dia em que o comprei pensando que se tratava de um manual sobre criatividade em geral e não sobre desenho em particular (nessa altura eu ainda achava que saber desenhar era algo do tipo "dádiva divina", que ou se tinha ou não, e que eu definitivamente não tinha).

Através de uma série de textos encorajadores e desenhos tão bonitos que apetecia comer (ou copiar), a primeira coisa que Danny Gregory procurava ensinar-me era a saber ver. Ora ora... e eu que pensava que ver ainda era um dos meus poucos talentos naturais! Pois não, não era. Sabia olhar, isso sim, mas ver, descobri eu, só pouco e mal (o que nada tinha a ver, diga-se, com a minha considerável miopia...)

Acontece que para vermos verdadeiramente o que nos rodeia é preciso abdicarmos de todo e qualquer preconceito sobre o significado das formas que surgem perante os nossos olhos, bem como de todos os entendimentos prévios que o nosso cérebro tenha sobre como aquele objecto deveria ser. Um copo não é um copo. Quer dizer, ele é, mas quando o desenhamos a função pouco importa. Ser um copo ou um elefante é, para o desenho, a mesma coisa: trata-se sempre de um conjunto de linhas e superfícies e espaços negativos e cores e tonalidades e claro-escuros e texturas que se articulam de uma maneira muito precisa, assim e não assado, aqui e não ali. Que o nosso cérebro entenda, por exemplo, que uma superfície, para assentar sobre uma superfície plana, tem de ser plana também, não impede que o sítio onde o copo e a mesa se tocam apareça aos nossos olhos como um semicírculo e não como uma linha recta. (experimentem olhar com cuidado e verão que é assim)

Para aprender a desenhar, então, o primeiro passo que eu tive de dar foi despir as minhas tentativas de todas as pré-concepções que eu mantivera até aí sobre o que que cada coisa era e aquilo para que servia. Recordo-me em particular de um desafio que Danny Gregory lança no livro: o de desenharmos um pão com sementes, ou propício a esboroar, como se fossemos astronautas caminhando sobre aquela superfície rugosa com o propósito de desenharem um mapa exacto da mesma para minúsculos exploradores interplanetários que aí viessem a aterrar no futuro.

Interessante, não? A razão pela qual aqui falo disto é porque me parece que para o escritor o mesmo exercício pode ser da maior utilidade. Ver uma realidade com novos olhos, como se pela primeira vez, sem ideias prévias de como as suas partes funcionam ou para que servem, observar ao pormenor cada elemento, por mais ínfimo que seja, observar atentamente as suas engrenagens, registando como são, como interagem, de que modo rodam, tudo isto sem deixar que o cérebro interfira com as suas interpretações sobre como as coisas devem ser, tudo isto são ginásticas interessantes para o escritor.

Claro que não se trata somente de arredar preconceitos na hora de registar o mundo numa página. Trata-se também de outra coisa: de abrandar o suficiente para observar a vida a sério. O facto é que os tempos modernos, com a sua abundância de realidades e desmultiplicação de estímulos simultâneos de toda a espécie, têm vindo a contribuir para amolecer os sentidos humanos, até por uma questão de sobrevivência. Sobretudo em meio urbano, algo tão simples como uma ida ao supermercado pode tornar-se numa experiência de verdadeiro assoberbamento dos sentidos, confrontados que são com corredores intermináveis, pejados de milhares de produtos militarmente alinhados nas prateleiras, não apenas iogurtes mas iogurtes de dezenas de qualidades e sabores diferentes, pertencente a uma dezena de marcas diferentes, com aroma, com pedaços, naturais, de fruta, de doce, com cereais, magros, cremosos, assim-assim, com lactose, sem lactose, etc etc etc. A maneira que os nossos cérebros encontraram para lidar com este excesso, para além de girarem cada vez mais rápido, foi, no limite, começarem a deitar água fora como baldes cheios até à borda. E assim se perde o olhar atento, assim andamos com sensibilidades embotadas e lentes embaciadas em frente aos olhos, vendo a realidade a dois quartos ou a um quarto daquilo que ela é.

Para escapar a esta variante de sonambulismo, parece-me interessante procurar trazer para o universo da escrita os conselhos de Danny Gregory. Isto passa por:

1. Ficar a sós com a parcela de mundo que queremos descrever, desligando tudo dentro e fora de nós, a não ser o canal de atenção exclusiva, directa e inviolável até à coisa que queremos explorar.

2. Abrandar. Retirar o nosso cérebro da sua rotação veloz, que salta de nenúfar em nenúfar à mais pequena brisa, levando-o paciente e lentamente através de cada um dos elementos daquilo que queremos descrever.

3. Redescobrir o mundo. Olhar com olhos inocentes e desconhecedores, fazendo de novo todas as perguntas que com os anos fomos tornando retóricas. O que diríamos de uma coisa se a estivéssemos a ver pela primeira vez? Que perguntas faríamos? Algo como: O que é isto? Como é? Que peso, dimensão, forma tem? Como se insere no espaço? Como se comporta e porquê? O que me faz sentir? O que acontece quando lhe toco? O que faz?

4. Reinventar a linguagem. Como descreveríamos as coisas se nos proibissem de usar palavras emparelhadas em conjugações habituais? Céu azul, mar revolto, suores frios, orador eloquente... O que diríamos em vez disto? O que diríamos do céu se o víssemos pela primeira vez? O que diríamos do mar, do suor, de alguém falando para um grande público, se estivéssemos pela primeira vez autorizados a juntar uma palavra com a outra?

Em suma: contra a sabedoria popular, na escrita talvez seja mesmo importante, de vez em quando, reinventar a roda. Caso contrário é possível que acabemos como o rato, alegremente correndo nela a caminho de lugar nenhum.

Até amanhã, boa escrita!

sábado, 16 de março de 2013

Sul

Em resposta ao desafio lançado aqui:

SUL. Redondo. Vermelho. Amarelo vivo. Flamejante no centro. Com o centro a pender para fora. Explosão. Mulher. O sol. O sol engole o corpo sem aviso. Vem sentado num banco de ar livre, nunca inerte, imperceptivelmente tecendo a sua teia de relações. Ondulando na parte do corpo que é música volátil. Simples, sem ser superficial. Profundo, sem ser subtil. E também escuro e culpa e perdão suplicado. Também sussurrado em paredes que ecoam. Veneração. Passado. De joelhos. Também peso de chumbo nos pés. Logo redimido quando alguém abre uma janela atirada para o mar. Há um cheiro que se desprende de uma árvore, flor ou fruto e que poisa no ar como uma varanda suspensa.

E por hoje é tudo. Se quiserem partilhar as vossas respostas a este desafio, já sabem, a secção dos comentários é vossa! Boa escrita e até amanhã, data do próximo post!

quinta-feira, 14 de março de 2013

Nietzsche e as palavras estendidas ao sol

Stefan Zweig, em O Combate com o Demónio, sobre o encontro da escrita de Nietzsche com o Sul e a sua luz fulgurante:

"A forma cristalina do pensamento liberta-se, como se tivesse desaparecido o gelo que a envolvia, torna-se clara, ganha movimento, e o estilo, a linguagem de súbito aberta, imparável, emite em raios diamantinos os reflexos do Sol. Tudo surge agora escrito na 'língua do vento do degelo', como ele diz a propósito do primeiro dos seus livros escritos no Sul. Há nesta escrita uma sonoridade poderosa, que se liberta energicamente como se quebrasse uma crosta de gelo para dar passagem a uma Primavera que, numa volúpia lisonjeira, lúdica, viesse tomar conta da paisagem. Luz descendo até às últimas profundezas, claridade até ao ínfimo frémito de cada palavra, música mesmo nos instantes de silêncio - e pairando por cima do conjunto essa sonoridade alciónica, esse céu pleno de luminosidade. Como é grande a diferença de ritmo entre a anterior linguagem de Nietzsche, belamente balanceada, sem dúvida, poderosa na sua arquitectura, mas petrificada, e esta nova língua de sons irrequietos, dúctil e senhora de si, repassada de alegria vital, comprazendo-se na utilização combinada de todos os membros do seu corpo, uma língua que gesticula - como os italianos -, que faz uso de milhares de sinais mímicos, em vez de falar com o corpo imóvel, distante, inexpressivo - como um alemão. A língua à qual Nietzsche confia agora os seus pensamentos nascidos em liberdade, como se fossem pardais a esvoaçar durante os seus passeios, já não é o alemão dos eruditos em humanidades, cheio de dignidade sonante, enfarpelado de negro; pensamentos de ar livre exigem uma linguagem de ar livre, uma língua flexível, elástica, leve, dotada de um corpo esbelto, nu, ginasticado, dotada de articulações móveis, capaz de correr, de saltar, de se elevar, de se baixar, de se distender, capaz de dançar todas as danças, da ronda melancólica até à tarantella da loucura, uma língua pronta para dizer tudo, para transportar tudo, sem que lhe pesem os ombros, sem que se lhe canse o passo."

Seguindo a magnífica descrição de Stefan Zweig, ela mesma como uma persiana mal fechada a deixar sangrar para dentro do quarto essa inebriante luminosidade do sul, sondemos atentamente o respirar das nossas palavras. Como respiram nos dias de sol? Como vivem à chuva? Como se mexem dentro dos pesados mantos do Inverno ou se agitam nos suores do Verão? O que é escrever no fundo da rosa dos ventos, junto à seta que aponta infatigavelmente para baixo, para onde há cor e brilho e explosão e os Verões se expandem sempre mais e mais? Como é rumar para Oriente? A que sabem as palavras sob um céu escuro?

Proponho-vos o desafio de escrevermos essas palavras geográfica e climatericamente determinadas, fazendo o esforço consciente de limparmos do texto tudo o que não pertença à sensação em que queremos mergulhar. Proponho-vos descrevermos o sul, tal como o vivemos e sentimos, num texto com princípio, meio e fim ou numa simples lista de palavras desordenadas. As minhas palavras aqui estarão no sábado. E como sempre, todas as partilhas são bem-vindas, via secção dos comentários.

Até lá, boa escrita!

segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 1

Hoje é dia de dar resposta ao desafio que lancei aqui

Apercebi-me entretanto que, por lapso meu, a descrição saiu enganosa, pois não se trata de escrever exactamente cem palavras sobre cada imagem, mas pelo menos cem palavras (longe de mim querer cortar asas a voos criativos mais longínquos, a intenção é justamente a inversa!). 

Perdoem-me por isso os leitores e enquanto vou ali num instante corrigir o post inicial, aqui fica o primeiro texto. E não deixem de partilhar os vossos na secção dos comentários!

***
- Cristina.
- De donde eres?
- Portugal.
Vou dizer-lhe que estou à espera de alguém, mas é mentira, e por momentos não lhe digo, experimento a verdade a ver se serve.
- Gabriel.
- Como? 
Por cima da música.
- Gabriel. Yo soy Gabriel.
- Encantada.
- Igualmente.
- Te gusta el tango, Gabriel?
Si, le gusta. A mim também, é o que lhe digo, logo explicando que não são artistas de rua mas alunos que procuravam um sítio para ensaiar, porque o sítio onde ensaiam ao ar livre, um jardim, estava de algum modo impedido, e eles gostam por vezes de dançar na rua, foi o que me disseram eles, eu não sou daqui, não, mas estou aqui sentada desde há pouco e já perguntei, e o diálogo mais parece um monólogo e alonga-se no meu espanhol esperançado mas insuficiente. 
Talvez esteja a encher o espaço entre o desafio e uma mentira. Desafio-me sem saber porquê, excepto que sei que é por este frio na barriga que sinto ao propor-me acreditar que existem estranhos no mundo a quem podemos isentar do velho ensinamento "não se fala com estranhos".
Gabriel está ocupado a desfiar a sua história. Está a caminho de Málaga e de uma qualquer oportunidade de negócio novo. A vida já não é fácil aqui. Mas Gabriel é, apesar de tudo, daqui. Todos temos os nossos desafios.
Eu estou entre ele e os casais que desenham círculos relativamente concêntricos no passeio e agora há mais um, são os alunos iniciados, aposto, e Gabriel parece concordar, porque atacam o piso com vontade mas sem graça. A senhora de saia amarela rodopia nas mãos experientes do parceiro, que joga o seu corpo gentilmente no ar, impondo direcções e traçando perímetros.
A submissão do tango é apenas temporária e à vez, ganha-se na luta pelo espaço, perde-se no peito ofegante, recupera-se num jogo de pés.
Gabriel terminou a sua história. Cedeu-me o espaço. Eu conto-lhe a minha, grandemente deformada. Estou de viagem. Estou aqui. Tenho alguém à minha espera e parei para ver o tango. Tenho alguém à espera e parei para sentir a noite. E Gabriel talvez pressinta a verdadeira essência deste à espera veemente e por isso não insiste.
Já dancei uma milonga. Hoje não. No sítio remoto de onde venho "não se fala com estranhos" não tem excepções duradouras.

domingo, 10 de março de 2013

A mente consumidora

Lesson learned. A mente consumidora atulha-se até à obesidade. Quer do exterior sempre mais e dá de si sempre menos. Se a espicaço ela mexe-se com gestos curtos, indolentemente, logo deixando os seus braços balofos caírem de volta no sofá, sítio afundado de onde prefere ver a vida. 

É o tipo de mente que vive na música como na televisão, num livro como nas redes sociais, vive nessas e em todas as coisas atrás de portas e janelas fechadas, sem dar um passo, sem acrescentar uma ideia, contida na sua passividade confortável.

É um vício. Com ela repetidamente resvalo na hora em que se exige acção. Uso os outros como dique em vez de dínamo. Canso em vão os olhos, encho em vão o espírito. Se não houver filtro nem limite, fica apenas a mancha grosseira.

A mente consumidora segue o que é fácil. Deambula sonâmbula. E o mais perigoso é que se instala facilmente e facilmente perturba o delicado equilíbrio entre estímulo e espaço vazio de onde desponta a possibilidade de algo novo.

Lesson learned. Escrever de manhã. Ou pelo menos primeiro. Tudo o resto depois. Exercer consciência. Registar leituras. Saber o porquê. Impor critérios. Acordar o corpo. Escapar à inércia.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O detalhe, a literatura e a vida


"... na vida como na literatura, navegamos através das constelações do detalhe. Usamos o detalhe para focar, para fixar uma impressão, para recordar. E como anzol."

"A literatura difere da vida na medida em que a vida é homogeneamente repleta de detalhes, e raramente nos chama a atenção para eles, enquanto a literatura nos ensina a reparar..."

"A vida, portanto, contém sempre um excedente inevitável, uma margem de detalhe gratuito, um reino no qual há sempre mais do que aquilo que necessitamos: mais coisas, mais impressões, mais memórias, mais hábitos, mais palavras, mais felicidade, mais tristeza."

"É a especificidade em si mesma que é satisfatória? Creio que sim, e creio que exigimos essa satisfação da literatura."

"Com Flaubert e os seus sucessores, apercebemo-nos de que a escrita ideal é uma procissão de detalhes interligados, um colar de observações, e que isto é por vezes uma obstrução e não um auxílio visual."

"O grande risco aqui é o esteticismo, e também uma caricaturização do olho observador. (Há tanto detalhe na vida que não é puramente visual)."  


~ James Wood, em A Mecânica da Ficção, aqui possivelmente citado em desordem cronológica

segunda-feira, 4 de março de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 1

Hoje nasce um novo segmento para o blogue, de periodicidade quinzenal, chamado "Uma imagem cem palavras". O desafio - para vocês e para mim - é escrever cem palavras [correcção: pelo menos cem palavras] sobre cada uma das imagens que aqui forem sendo colocadas. Na segunda-feira seguinte à de cada post, partilharei convosco o texto que tiver escrito, convidando-vos desde já a partilharem também, nos comentários, os vossos próprios textos. Salvo indicação em contrário, todas as fotografias aqui colocadas serão tiradas por mim.
A imagem de hoje:


Boa escrita e até quarta-feira, data do próximo post!

sábado, 2 de março de 2013

Ideias contra a página em branco - Parte 5

Como o tempo voa! Aqui estamos nós a segurar entre os dedos o último ramo deste mini-bouquet de ideias contra a página em branco, deixando para trás o crítico interior (Parte 1), um blogue de escrita diário (Parte 2), os bloqueios da mente (Parte 3) e o inesperado (Parte 4).

Na parte 5 proponho-vos
    Contar o real

    Espera lá... mas não íamos esperar o inesperado? Lançar acontecimentos improváveis no caminho da personagens caricatas? Sonhar o vagamente impossível? Isso. Tudo isso. E o seu contrário também. Que bom, podermos tentar de tudo um pouco!
    E o que é isso de contar o real? Apenas isso mesmo: contar a vida tal qual ela acontece, a nós e ao nosso redor. Pode ser qualquer coisa, mas quanto mais específica e concreta melhor: dar uma cabeçada na parede; discutir com o vizinho; entrar em palco para representar uma cena; perder o autocarro; ouvir uma sinfonia; derramar leite na mesa; dar um beijo; comprar um bilhete de lotaria.
    Não importa a dimensão da ocasião ou a quem aconteceu. Importa que seja verídica e que a tenhamos vivido ou testemunhado. E, sobretudo, que façamos o exercício de a descrever de maneira puramente objectiva. Nada de ele fez isto porque, nem de ela deu uma cabeçada embaraçosa e... Mas antes, ele fez isto e depois aquilo, ela deu uma cabeçada e cambaleou para trás.
    Arrisquemos! Arrisquemos abandonar os adjectivos, os advérbios, os "porquês", os "como", deixar o texto entregue a si próprio, sem tentarmos moldá-lo a uma explicação coerente. Quando ganhei coragem e o fiz, descobri que relatar os factos tal como aconteceram, limpos de subjectividade, me permitia escrever umas boas linhas de rajada, sem hesitações, sem parar para pensar no duplo sentido, na composição estilística e nas demais coisas que afligem a mente do escritor com tendência para a aflição. O crítico interior não tinha o que dizer: eram os factos, puros e duros, e a culpa de serem mais ou menos insípidos jamais me poderia ser assacada.
    Experimentem e verão. Se estiverem completamente em branco, creio que esta será uma boa forma de porem o sangue da imaginação a correr. E mesmo que a corrente já esteja razoavelmente forte, podem sempre ver-se puxados para caminhos inesperados. Quem sabe... talvez alguma personagem mais audaz vos entre pelas ideias dentro, usurpando-vos as frases, semeando adjectivos e advérbios entre as acções, fazendo-as suas, acrescentando fantasia à crua realidade.
    Porventura a questão aqui será esta: quem disse onde se traçavam as linhas entre ficção e realidade? Partindo de uma, quanto tempo falta para chegarmos à outra? Faltará tempo, sequer?
    Talvez seja ir longe de mais dizer que a ficção não existe, mas num certo sentido, no essencial debaixo da forma, se calhar a ficção apenas baralha e volta a dar as mesmas cartas com que jogamos sempre, compondo-as e recompondo-as em diferentes castelos, uns grandiosos e elaborados, outros pequenos, seguros, outros periclitantes, mas sempre as mesmas figuras e números a fazer de estrutura. Em certo sentido, a ficção é apenas a vida, composta em múltiplas combinações infinitas, e se calhar é por isso mesmo que lemos e escrevemos, para estendermos a nossa vida única às mil e uma vidas possíveis.
    Porque não, então, acordar a ficção agitando o real bem debaixo do seu nariz? É essa a proposta de hoje.