quinta-feira, 21 de março de 2013

O dia da poesia

As minhas desculpas: era suposto ter vindo aqui ontem mas não vim. O dia rebelou-se com jeitos de rio convulso levando tudo à frente. Lá fui eu na enxurrada, sugada com árvores, automóveis e casas inteiras para dentro do grande ralo da vida, rodopiando mil e uma vezes sobre um único centro até desaparecer pelos confins da terra abaixo, reemergindo do outro lado. 

Hoje estamos já do outro lado e é tempo de regressar aqui. Até porque é (quase foi) dia mundial da poesia. O dia em que...

... a UNESCO nos recordou que a poesia é "uma componente da identidade dos povos" e que todos "temos o dever de transmitir esta herança - o legado de Homero, Li Bai, Tagore, Senghor e inúmeros outros - porque ela é testemunha viva da diversidade cultural da humanidade".

... na TSF cinco poetas leram cinco poetas, perpetuando nas suas palavras as palavras dos outros, que é uma das maneiras mais bonitas que temos de manter alguém perto de nós.

... na Fnac de Almada, olhos brilhando no escuro revisitaram Florbela, sendo testemunhas das muitas casas que a poesia habita e das muitas peles que veste, como a pele de uma actriz de mão cheia que dá corpo à alma mais funda e incendiada, ou de um filme que nos promete novos e entusiasmantes caminhos para o cinema em português.

... por mero acaso, nas primeiras horas da manhã, descobri uma nova arca do tesouro ainda por explorar.

... na minha aula de teatro habitual nada foi como o habitual, porque em vez de teatro houve canto, e no canto redescobri por dentro a Etelvina rebelde e uma Tabacaria eterna.

... por todo o mundo, foi tempo de parar e olhar para o coração das coisas, recordando aí que a poesia está em tudo e em todos, sempre. Não se escreve nem se inventa, somente se revela.

2 comentários:

  1. Muitas portas tem esta prosa e o texto está a pulsar de vida. Valeu a pena abri-las todas e passear por lá!

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