Nem sempre nos lembramos da arte da gratidão quando contemplamos o quotidiano e porém é precisamente no quotidiano que essa gratidão mais faz sentido. Gratidão pelas coisas e espaços invisíveis à força de tanto os vermos, que nos servem dia após dia, reclamando de nós muito pouco e dando-nos o conforto de uma rotina reconhecível.
Por razões de que muito em breve falarei aqui no blogue, aproxima-se a hora de deixar a casa em que vivi nos últimos dois anos e qualquer coisa. Dois anos e qualquer coisa pode não parecer muito pelos padrões habituais, mas numa vida de mudança frequente os afectos moldam o seu jeito peculiar de ser ao pouco tempo que têm para se construir. Não quero com isto dizer que se tornam superficiais, muito pelo contrário: quero com isto dizer que uma pessoa aprende a ir directo ao núcleo essencial de algo ou alguém, à essência daquilo que acredita que pode amar. Nos tempos como nos espaços exíguos, as amizades próximas estão por vezes à distância de poucas semanas e o aprazível sentimento de estar em casa também.
O post de hoje nasce da vontade de recordar ainda antes de partir a casa que foi minha nestes últimos anos, que é minha ainda, embora por pouco tempo mais, e que foi tão casa e tão minha como as várias outras em que fui vivendo desde que deixei a morada familiar.
Sem mais delongas, coisas que eu gosto na minha casa:
- Que se pode dormitar tranquilamente na sala e ver o céu azul ou cinzento, consoante o mês
- Que em vez do céu azul ou cinzento se pode ver a paisagem humana dos prédios vizinhos e que de tempos a tempos ecoam vozes e barulhos de vida em curso nos pátios das traseiras
- Que o chão é de madeira verdadeira, alaranjada, em quadradinhos perfeitos
- Que tem paredes creme e não apenas brancas
- Que o pé direito não é muito alto nem muito baixo, mas de uma dimensão humana, aconchegada, gerível
- Que tem uma cozinha grande, com uma janela enorme
- Que, excepto na cozinha, nunca está muito calor, muito frio, muito húmido ou muito seco
- Que tem uma varanda
- Que é uma casa viva, num prédio vivo, num bairro ainda mais vivo...
Outros pontos haveria, mas esta lista, como todas, vale também por ser finita e acabar em reticências.
O importante está dito. O silencioso elogio do meu lar, escrito numa manhã de Verão, de janela aberta para os pátios onde se ouvem pássaros e alguém faz panelas tilintar, e com o chão de madeira alaranjada e perfeita quase todo a descoberto. Sacos em vez de móveis, memórias empacotadas para a próxima aventura, e coração cheio, como deve ser numa despedida.