segunda-feira, 25 de março de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 2

Resposta ao desafio lançado aqui. A secção dos comentários está aberta a todos os que quiserem partilhar os seus próprios textos. Boa escrita!

Sonho com nuvens. Noites a fio tenho sonhado a preto e branco, mas hoje as nuvens aparecem-me vividamente recortadas num céu azul e é a primeira vez desde há muito tempo que em sonhos elas se parecem com o algodão felpudo que normalmente persigo, de nariz no ar, nos dias de sol. 

No meu sonho estou acordada num avião, a ver a asa cortar o vento invisível, e por debaixo dos meus pés firmemente assentes escapa-se uma coisa que podia ser qualquer coisa, qualquer cidade ou lugarejo, ou mesmo simples montanha ou extensão de campo ondulante.

A esta altitude é impossível dizer. De vez em quando invade-me uma vaga tontura e penso que podíamos muito bem cair a pique como uma pedra num lago, mas que por qualquer milagre nunca caímos, e que esse é o milagre do Homem, mas também o milagre do acaso -- ou do divino, se uma pessoa acredita numa ordem oculta das coisas.

Da cadeira do lado sinto um puxar na manga. Uma menina de olhos redondos e grandes pede-me por gestos que lhe abra uma lata. Serviram o almoço e nem me dei conta. Abro-a e devolvo-lha com um sorriso. Ela não parece ter mais de cinco anos e viaja entretida com um caderno e lápis para colorir. De vez em quando a hospedeira passa a visitá-la. Sinto que a conheço, mas não sei de onde, e embaraço-me ao sentir um desejo quase insuportável de a abraçar, de lhe contar o segredo de que a vida já começou, mas sei que se lho contasse ela envelheceria de repente muitos anos, até à idade em que uma pessoa sabe lá dentro que a vida já começou. Vejo-a pintar com a ponta da língua ligeiramente de fora, encostada ao lábio superior. Concentrada e feliz com as linhas imperfeitas que traça ora dentro ora fora dos espaços determinados.

Com o pacote de alumínio a arrefecer à minha frente, exalando o cheiro de comida invulgarmente compactada dentro de um espaço exíguo, volto-me para a janela e vejo rastejar lá ao longe mais uma nuvem. Não tarda será manhã.

3 comentários:

  1. Sempre gostei de viajar e de tudo o que comporta uma viagem: a sensação de um destino. A espera orientada para um propósito. O mundo resumido, perante nós, quando nada resta senão esperar.
    Hoje sentou-se ao meu lado a Irmã Benedita. Belga de origem, perdida algures a caminho de uma para outras identidades, como me disse a sorrir.
    Mais à frente Pai e Filho – paquistaneses, arrisco - apertaram a mão, numa cumplicidade afectiva evidente, desejando-se boa viagem.
    Horas antes, dois japoneses desciam a escada à minha frente, para entrarem no autocarro que nos conduziria ao avião. Ambos novos, o mais novo, que transportava uma pasta grande e um saco, manifestou-se pronto a carregar, também, a mala do outro, que cortou a atitude, num gesto breve, de generosidade cultural.
    Passeio ao longo do corredor para activar a circulação nas pernas dormentes e vejo-a, a menina que desenha, aplicada, de língua de fora, criando mundos de cor, a traços fortes.
    Vejo-a agitar-se, quer beber de outra lata que aguardava vez, ainda fechada. Os olhos pretos, muito brilhantes e vivos, dirigem-se à vizinha do lado, que dorme. Sacode-lhe a manga com gentileza, uma, duas vezes, mas não obtém resposta. A mulher que dorme talvez repouse de outras viagens, ou do sono leve de quem tem filhos por perto. Em todo o caso, a menina hesita e olha em volta.
    Também me apetece dizer-lhe que os adultos nem sempre estão livres, mesmo para aqueles que amam, que ela poderá ser um desses adultos um dia, mais tarde, mas não digo nada, limito-me a inclinar-me para ela e a estender a mão. Trocamos um sorriso e ela agradece, com a força convicta de uma criança que foi ensinada a agradecer.
    Tenho um pensamento absurdo, de que a encontrarei muitas vezes ao longo da vida, em viagens que ambas havemos de fazer e acompanhar ei o amadurecimento dos seus desenhos e comentá-los-ei no silêncio da minha mente.
    Novamente, não digo nada. Regresso ao meu lugar, na última fila, a dos que não fazem o “check-in” “on line”, ali onde são mais intensos os movimentos do avião, o volteio da aproximação à pista, o tremor das rodas a tocarem o chão, o contacto com Terra, em voltas e ademanes que cumprimentam o solo até à estabilização do grande pássaro.
    Vamos viajar.

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  2. Bom dia T. e obrigada pela partilha! Mais uma vez, um bonito texto. Fiquei curiosa, gostaria que houvesse oportunidade de mergulharmos mais fundo nalguma ou em cada uma dessas vidas apontadas a curtos traços. Quem sabe num próximo desafio? Não me passou também despercebido o vaso comunicante com o meu próprio texto e devo dizer que é muito interessante vermos o efeito dominó (ou de círculo virtuoso) que se gera entre o que escrevemos e o que escreve quem nos lê. Até uma próxima visita :)

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