Este sábado regressei à Escrever Escrever, uma dinâmica escola de escrita criativa instalada num terceiro andar do Largo Camões, com uma nesga de vista para o Tejo e duas salas imensamente acolhedoras onde as palavras correm livres.
Ali fiz, em tempos, três workshops: um de escrita de viagens, outro de escrita criativa em geral e outro dedicado a "desformatar" através da escrita.
Desta feita, o tema que me fez voltar foi "Escrever à Conversa: palavras soltas em jeito de Brasil". Um evento de entrada livre, dinamizado por Viviane Ferreira de Almeida, que ao longo de duas horas nos deu a conhecer uma admirável panóplia de escritores brasileiros, dos mais contemporâneos aos mais antigos, sem esquecer os verdadeiramente intemporais. O nome Clarice Lispector não deixou de marcar presença, mas com ele vieram outros, como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Raduan Nassar ou Cora Coralina.
O grupo manteve-se pequeno, e talvez por isso mesmo o ambiente se tenha rapidamente aconchegado naquele espaço onde os quase-estranhos se podem tornar quase-amigos, ou pelo menos partilhar qualquer coisa de si que não a habitual capa protectora do "chamo-me isto e faço aquilo".
A apresentação de textos e seus escritores foi sendo pontuada por breves desafios de escrita. Uma das pequeníssimas passagens que escrevi, em resposta a um desses desafios, foi: "Juntos fazemos o teu avesso e o teu direito. E quem pode dizer onde estás tu e a tua essência? Quem pode dizer se és mais o pé que samba ou a cabeça que foge para um céu azul? Somos os teus dois maridos."
Do que vi e ouvi, gostaria de partilhar quase tudo. Mas em lugar do quase tudo, partilharei alguma coisa.
Um filme sobre um poema de Carlos Drummond de Andrade, a lembrar-nos que na nossa língua ou em qualquer outra, não deixam de ser pesadas e concretas as pedras que nos surgem "No meio do caminho" (canal imoreirasalles):
Um filme sobre um poema de Carlos Drummond de Andrade, a lembrar-nos que na nossa língua ou em qualquer outra, não deixam de ser pesadas e concretas as pedras que nos surgem "No meio do caminho" (canal imoreirasalles):
E a longa e irreverente frase de abertura de um texto de Raduan Nassar, "Aí pelas três da tarde", a convidar à liberdade, ou melhor, à libertação:
"Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida." (fonte: releituras)
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