segunda-feira, 24 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 9

Depois de uma super lua quase pousada sobre as nossas cabeças, estendamos a vista até aos confins da terra, ali onde céu e mar se tocam:


Aí está, meus amigos, o desafio desta semana. Espero que a imagem vos puxe pelo lado navegante da alma e que sem dificuldade flutuem pelas águas, mesmo para lá das cem palavras mínimas. E já agora, por favor cliquem na fotografia, que se percebe melhor em formato maiorizinho.

Por hoje é tudo. Ou quase tudo. Ainda vos quero deixar com um incentivo adicional, que encontrei aqui, ideal para qualquer pessoa à procura de serenidade e inspiração, mas sobretudo para quem tem saudades terríveis de ouvir rugir o oceano na paz das primeiras horas da manhã. Mérito do autor do vídeo, que não sou eu, mas o gestor do canal que visitarão.

Até já!

domingo, 23 de junho de 2013

Dormir, escrever, ler

Haverá coisa mais deliciosa que dormir num jardim, na hora do sossego, em que pássaros dispersos insistem em piar e a tarde se estende interminável?

Acordo no banco, camisola pontilhada por bichos minúsculos que deslocam amarelos e pretos vagarosamente.

As árvores estão no lugar onde as deixei, tranquilizadoras e imóveis. É como se o tempo não passasse aqui e eu pudesse ser sempre a mesma. 

A mosquitada dardeja e cada ser cava para si um espaço na existência.

Cactos inclinados, vizinhos de três palmeiras e outras copas verdejantes, saúdam o meu regresso.

*

Fui parar a este vídeo de modo semi-aleatório. Aqui estão algumas frases sobre as quais vale a pena meditar:

"Pessoas gostam de pessoas."

"Crie frases curtas."

"Comece com uma pergunta."

"Seja um escultor de palavras."

"Faça do humor o atalho para o cérebro."

"Termine um parágrafo criando uma abertura, um prefácio, para o próximo parágrafo."

"Escreva com compasso."

"Ouse errar, às vezes."

"Transforme o seu leitor em cúmplice."

*

Se passarem na Gare do Oriente, não se esqueçam de visitar a feira do livro permanente que por lá se mantém, a preços sempre convidativos.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A escrita vista por dentro, com Robert Owen Butler

Uma sugestão para os mais dedicados:

Porque não uns serões serenos e aconchegados na companhia da série Inside Creative Writing, disponibilizada pelo canal floridastate, da Universidade do Estado da Flórida? 

São 17 episódios com cerca de 2 horas cada, nos quais Robert Olen Butler, escritor americano que recebeu o Pulitzer em 1993 pela obra A Good Scent from a Strange Mountain, partilha connosco o seu processo de escrita de um conto. 

Confesso que durante os primeiros 10 minutos de vídeo estava bastante céptica, mas a ideia era no mínimo original, pelo que decidi continuar a ver. E não me tenho arrependido!

Acaba por se tornar um exercício viciante, esta coisa de explorar os meandros da mente alheia, já para não falar na delícia que é ser leitora de uma história que a cada momento se molda e ao mesmo tempo ir imaginando as voltas que daria eu a esta ou àquela passagem do texto.

Com caderno para tirar notas ou uma taça de pipocas ao colo, vale bem a pena persistir, mesmo se como eu, for meia hora aqui meia hora ali. Vou no terceiro episódio ainda, mas lá chegarei à meta.

Aqui fica o primeiro episódio:

 

Vemo-nos no próximo post!

terça-feira, 18 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 8

A resposta de hoje ao desafio da semana passada chega com umas horas de atraso, mas chega:

É um mercado com a saciante abundância de todos os mercados. Tem bancas de queijo e bancas de legumes e bancas de peixe e de carne e de especialidades regionais, tem frascos e conservas e cestos, cores e sabores para todos os gostos, salgados e acres inesperados. 

Mas há nele algo de deslocado que assalta o visitante. As bancas flutuam no espaço como barcaças em civilizada disputa, guiadas nas investidas por capitães hirtos vestidos de avental atrás da vitrina. Aqui não se apregoa, aqui não se regateia, e os vitoriosos são eleitos com uma discreta transacção: dinheiro que muda de mãos ou um cartão passado numa ranhura.

Estamos no norte; serão porventura já os rigores do árctico a ditarem a sua lei. As coisas são polidas na face e na forma, assim como as pessoas. Nada do caos seminal dos espaços mercantis do sul, onde se grita com as mãos a rasgar o ar para dar ênfase. Nada de olfactos agredidos pela pungência de cheiros ubíquos. Os olhos comem em sossego.

Há uma diferença indesmentível e talvez seja de modo. Os cogumelos são genuinamente cogumelos, orgulhosamente cogumelos, mas jamais avassaladoramente cogumelos. Maravilham sem invadir. A experiência aqui vive-se de pé. No sul sustenta-se como se uma onda quente, desconexa, interminável nos enrolasse para dentro das suas profundezas.

E aí está ele, o texto desta semana. Amanhã teremos novo post, para redimir a ausência dos últimos dias. Até lá, boa escrita!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - desafio n.º 8

Olá a todos! Hoje, 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, nada melhor que um fantástico desafio de escrita nesta língua linda e mágica que o devir histórico nos deu. A proposta é:
 
 
A partilha de textos começará na próxima segunda-feira, com o requisito único habitual: pelo menos cem palavras sobre a imagem hoje divulgada. 

Bom feriado, boas leituras e boa escrita!

sábado, 8 de junho de 2013

A potência dos verbos

Pat Pattison, sobre a potência dos verbos (canal Berkleemusic):

"The difference between really great writing and average writing is always in how the writer uses" verbs. (...) They are the amplifiers of language and the wattage that your verbs have (...) is the thing that drives everything else. (...) So I would say if you want to be a better writer tonight start noticing your verbs." 
 


Gosto deste conselho. O mundo da escrita parece-me um pouco obcecado com advérbios e adjectivos, mesmo se apenas para condenar o crime de os semear ao desbarato nas frases. Já perdi conta às vezes que li advertências sobre este uso excessivo, mas a parte mais útil do conselho vem na segunda metade do raciocínio, à qual muitos desses textos de admoestação não chegam: os adjectivos e advérbios podem com muito proveito ser substituídos por um verbo poderoso, seleccionado a dedo, e colocado no sítio certo à hora certa.

Confesso-vos uma coisa: gosto deste conselho sobretudo porque ainda não tinha pensado muito nele. Não me recordo da última vez que parei a ponderar a força ou subtileza de um verbo. Não quer dizer que não o faça, do mesmo modo que pondero (até demais!) cada palavra que escrevo. Mas raramente avalio um verbo enquanto verbo, consciente da sua função específica, e mais, consciente de que essa função específica pode não se resumir a cortar a inércia numa história e a levar uma personagem de um lado para o outro.

Um verbo dá também um ritmo, um modo, uma dimensão, e se bem escolhido dispensa qualificativos adicionais para exprimir essas características. Li recentemente numa livraria da praça uma página onde se dava um bom exemplo disto. Não me recordo palavra por palavra do exemplo, mas tinha algo a ver com um carro que ziguezagueava por uma estrada de montanha abaixo perseguindo outro. Estou a parafrasear muito livremente toda a passagem, por isso não se zanguem se não corresponder à verdade, mas do que me recordo dizia o autor desse manual de escrita criativa que um tal cenário dispensava considerações adicionais sobre como o carro ia "depressa", pois a imagem criada pelos termos "ziguezagueando" e "perseguindo" era suficiente para exprimir a ideia.

Além de aliviar a pressão que os advérbios e adjectivos colocam sobre as frases, atentar nos verbos tem também o mérito de reduzir a sensação subreptícia de repetição que se instala com o uso frequente do mesmo verbo ao longo do texto, algo que tende a suceder com verbos mais comuns como "dizer", "ser", "estar", "ficar", "fazer", mas que pode acontecer com todo o tipo de verbos, especialmente quanto o autor tem um ou dois preferidos, que são como velhos amigos a aparecerem todos os dias à hora marcada para o chá.

Como alerta Pat Pattison, também não vale a pena entrar na loucura dos sinónimos rebuscados, nem se justifica qualquer ódio aos verbos que ainda agora referi, mas não há dúvida de que uma escolha variada de verbos pode acrescentar ritmo e significado ao texto. Nesse sentido, um bom dicionário de sinónimos é um aliado importante.

Antes de terminar, deixo-vos em excelente companhia com Robert Frost, no seu lindíssimo Putting in the Seed, citado por Pat Pattison:

"You come to fetch me from my work to-night
When supper's on the table, and we'll see
If I can leave off burying the white
Soft petals fallen from the apple tree.
(Soft petals, yes, but not so barren quite,
Mingled with these, smooth bean and wrinkled pea;)
And go along with you ere you lose sight
Of what you came for and become like me,
Slave to a springtime passion for the earth.
How Love burns through the Putting in the Seed
On through the watching for that early birth
When, just as the soil tarnishes with weed,

The sturdy seedling with arched body comes
Shouldering its way and shedding the earth crumbs."


Até ao próximo post, desejo-vos um excelente fim-de-semana, boas leituras e boa escrita!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Uma associação de palavras

Cheiro .. Memória
Sete .. Semana
Perdido .. Encontrado
Janela .. Dia
Surpresa .. Festa
Impenetrável .. Escuridão
Barco .. Frágil
Palavra .. Muitas
Signo .. Mistério
Cadeira .. Quadrada
Água .. Imensidão
Feliz .. Abstracto
Posicionamento .. Oposição
Quarto .. Crescente

Era criança quando jogava este jogo, mas porque não retomar o hábito? Óptima prática ao despertar ou ao deitar, demora menos de cinco minutos (ou muito mais, se quisermos) e é uma excelente forma de estimularmos novas possibilidades de escrita. E de nos conhecermos melhor.

Mas atenção. Isto não é suposto ser ciência de foguetões. Uns segundos para cada dupla de palavras e já está! E mais, evitem a tendência de corrigir! Podem começar com esta lista que vos dei ou podem partir do zero. E se quiserem partilhar connosco aqui no blogue, ficarei feliz!

Dica adicional: é interessante ver as respostas que a vossa mente lança para as mesmas palavras em diferentes horas do dia ou em diferentes dias da semana (ou se vamos ser ambiciosos, em diferentes meses do ano ou em diferentes anos da vida). Uma ideia para os realmente empenhados é guardar a primeira lista de palavras que usarem e ir regressando a ela regularmente. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 7

A resposta de hoje, ao desafio da semana passada, lançado aqui.

Na minha ideia há um homem. Este homem, com braços cansados, ergueu uma parede e na parede cola o desenho de alguém. Na parede cola os cacos desencontrados de alguém. Talvez este homem de braços cansados pense apenas no cimento. Talvez faça de propósito. Ou talvez siga o desenho torto sem juízo ou julgamento. Quando aqui passo, que é quase nunca, porque a estação fica fora do meu percurso habitual, pergunto-me se foi acaso ou intenção. E sinto os meus próprios cacos, que se desmontam, e as minhas próprias mãos, que apontam divergentes, e o olhar desviado do mosaico que não está em mim, nem nas escadas, mas numa distância qualquer.

Bons escritos, boas leituras e boa semana!