Pat Pattison, sobre a potência dos verbos (canal
Berkleemusic):
"The difference between really great writing and average writing is always in
how the writer uses" verbs. (...) They are the amplifiers of language
and the wattage that your verbs have (...) is the thing that drives
everything else. (...) So I would say if you want to be a better writer tonight start noticing your verbs."
Gosto deste conselho. O mundo da escrita parece-me um pouco obcecado com advérbios e adjectivos, mesmo se apenas para condenar o crime de os semear ao desbarato nas frases. Já perdi conta às vezes que li advertências sobre este uso excessivo, mas a parte mais útil do conselho vem na segunda metade do raciocínio, à qual muitos desses textos de admoestação não chegam: os adjectivos e advérbios podem com muito proveito ser substituídos por um verbo poderoso, seleccionado a dedo, e colocado no sítio certo à hora certa.
Confesso-vos uma coisa: gosto deste conselho sobretudo porque ainda não tinha pensado muito nele. Não me recordo da última vez que parei a ponderar a força ou subtileza de um verbo. Não quer dizer que não o faça, do mesmo modo que pondero (até demais!) cada palavra que escrevo. Mas raramente avalio um verbo enquanto verbo, consciente da sua função específica, e mais, consciente de que essa função específica pode não se resumir a cortar a inércia numa história e a levar uma personagem de um lado para o outro.
Um verbo dá também um ritmo, um modo, uma dimensão, e se bem escolhido dispensa qualificativos adicionais para exprimir essas características. Li recentemente numa livraria da praça uma página onde se dava um bom exemplo disto. Não me recordo palavra por palavra do exemplo, mas tinha algo a ver com um carro que ziguezagueava por uma estrada de montanha abaixo perseguindo outro. Estou a parafrasear muito livremente toda a passagem, por isso não se zanguem se não corresponder à verdade, mas do que me recordo dizia o autor desse manual de escrita criativa que um tal cenário dispensava considerações adicionais sobre como o carro ia "depressa", pois a imagem criada pelos termos "ziguezagueando" e "perseguindo" era suficiente para exprimir a ideia.
Além de aliviar a pressão que os advérbios e adjectivos colocam sobre as frases, atentar nos verbos tem também o mérito de reduzir a sensação subreptícia de repetição que se instala com o uso frequente do mesmo verbo ao longo do texto, algo que tende a suceder com verbos mais comuns como "dizer", "ser", "estar", "ficar", "fazer", mas que pode acontecer com todo o tipo de verbos, especialmente quanto o autor tem um ou dois preferidos, que são como velhos amigos a aparecerem todos os dias à hora marcada para o chá.
Como alerta Pat Pattison, também não vale a pena entrar na loucura dos sinónimos rebuscados, nem se justifica qualquer ódio aos verbos que ainda agora referi, mas não há dúvida de que uma escolha variada de verbos pode acrescentar ritmo e significado ao texto. Nesse sentido, um bom dicionário de sinónimos é um aliado importante.
Antes de terminar, deixo-vos em excelente companhia com Robert Frost, no seu lindíssimo Putting in the Seed, citado por Pat Pattison:
"You come to fetch me from my work to-night
When supper's on the table, and we'll see
If I can leave off burying the white
Soft petals fallen from the apple tree.
(Soft petals, yes, but not so barren quite,
Mingled with these, smooth bean and wrinkled pea;)
And go along with you ere you lose sight
Of what you came for and become like me,
Slave to a springtime passion for the earth.
How Love burns through the Putting in the Seed
On through the watching for that early birth
When, just as the soil tarnishes with weed,
The sturdy seedling with arched body comes
Shouldering its way and shedding the earth crumbs."
Até ao próximo post, desejo-vos um excelente fim-de-semana, boas leituras e boa escrita!