quinta-feira, 14 de março de 2013

Nietzsche e as palavras estendidas ao sol

Stefan Zweig, em O Combate com o Demónio, sobre o encontro da escrita de Nietzsche com o Sul e a sua luz fulgurante:

"A forma cristalina do pensamento liberta-se, como se tivesse desaparecido o gelo que a envolvia, torna-se clara, ganha movimento, e o estilo, a linguagem de súbito aberta, imparável, emite em raios diamantinos os reflexos do Sol. Tudo surge agora escrito na 'língua do vento do degelo', como ele diz a propósito do primeiro dos seus livros escritos no Sul. Há nesta escrita uma sonoridade poderosa, que se liberta energicamente como se quebrasse uma crosta de gelo para dar passagem a uma Primavera que, numa volúpia lisonjeira, lúdica, viesse tomar conta da paisagem. Luz descendo até às últimas profundezas, claridade até ao ínfimo frémito de cada palavra, música mesmo nos instantes de silêncio - e pairando por cima do conjunto essa sonoridade alciónica, esse céu pleno de luminosidade. Como é grande a diferença de ritmo entre a anterior linguagem de Nietzsche, belamente balanceada, sem dúvida, poderosa na sua arquitectura, mas petrificada, e esta nova língua de sons irrequietos, dúctil e senhora de si, repassada de alegria vital, comprazendo-se na utilização combinada de todos os membros do seu corpo, uma língua que gesticula - como os italianos -, que faz uso de milhares de sinais mímicos, em vez de falar com o corpo imóvel, distante, inexpressivo - como um alemão. A língua à qual Nietzsche confia agora os seus pensamentos nascidos em liberdade, como se fossem pardais a esvoaçar durante os seus passeios, já não é o alemão dos eruditos em humanidades, cheio de dignidade sonante, enfarpelado de negro; pensamentos de ar livre exigem uma linguagem de ar livre, uma língua flexível, elástica, leve, dotada de um corpo esbelto, nu, ginasticado, dotada de articulações móveis, capaz de correr, de saltar, de se elevar, de se baixar, de se distender, capaz de dançar todas as danças, da ronda melancólica até à tarantella da loucura, uma língua pronta para dizer tudo, para transportar tudo, sem que lhe pesem os ombros, sem que se lhe canse o passo."

Seguindo a magnífica descrição de Stefan Zweig, ela mesma como uma persiana mal fechada a deixar sangrar para dentro do quarto essa inebriante luminosidade do sul, sondemos atentamente o respirar das nossas palavras. Como respiram nos dias de sol? Como vivem à chuva? Como se mexem dentro dos pesados mantos do Inverno ou se agitam nos suores do Verão? O que é escrever no fundo da rosa dos ventos, junto à seta que aponta infatigavelmente para baixo, para onde há cor e brilho e explosão e os Verões se expandem sempre mais e mais? Como é rumar para Oriente? A que sabem as palavras sob um céu escuro?

Proponho-vos o desafio de escrevermos essas palavras geográfica e climatericamente determinadas, fazendo o esforço consciente de limparmos do texto tudo o que não pertença à sensação em que queremos mergulhar. Proponho-vos descrevermos o sul, tal como o vivemos e sentimos, num texto com princípio, meio e fim ou numa simples lista de palavras desordenadas. As minhas palavras aqui estarão no sábado. E como sempre, todas as partilhas são bem-vindas, via secção dos comentários.

Até lá, boa escrita!

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