Jorge atravessou-se-lhe no caminho algures entre a porta da sala e a da cozinha. O seu corpo é sólido, moreno, quadrado, o cabelo encaracolado e a barba bem definida. Alto, o suficiente para encher o espaço. São os olhos e a voz que o traem. O corpo destoa ao lado daquele brilho miúdo e da voz que sai quebrada numa onda:
- Blaaakeeeyyyy... tenho uma surpresa!
Ela estacou, de pratos na mão, e procurou rir:
- Baby not now, c'mon, we're super late.
- Yeah, yeah, yeah - trauteou ele bem humorado, aproximando o corpo, retido à distância pela pilha de loiça suja. - Fecha lá os olhos.
- Baby not now, c'mon, we're super late.
- Yeah, yeah, yeah - trauteou ele bem humorado, aproximando o corpo, retido à distância pela pilha de loiça suja. - Fecha lá os olhos.
Ela recuou dois passos, retirando os pratos do caminho, como se evitasse a custo um choque. Ainda a sorrir por fora.
- Baby, no. Seriously, I got like half an hour to walk out that door, can't be late again this week, Daniel will kill me!
A entrar na cozinha os dois, ela em fuga, ele no encalço.
- Awww come on, Bee, it'll take five minutes, I promise! Five minutes won't make you late, now, will they?
- George, sabesh que nao goshto de sorpressas.
O sotaque arrevesado, a cara evitante, a mensagem cristalinamente clara.
Ele tirou-lhe os pratos das mãos e pousou-os cuidadosamente no lava-loiças. Voltou-se para ela. Ao ouvido:
- Just close your eyes, will you?
Cresceu-lhe um arrepio dentro, ainda nem bom nem mau. Um arrepio a nascer na base do pescoço, sob o cabelo ruivo e fino e a disparar em duas direcções, um braço lançado pelas costas abaixo, levantando minúsculos pêlos transparentes, outro serpenteando através do couro cabeludo, um trilho ziguezagueante a abrir caminho até aos olhos verdes. A silhueta magra dela contida pelo corpo dele, emoldurada contra o lava-loiças.
- Fecha lá. - beijo. - Fecha lá... - beijo.
Ela lançou-lhe um ar indefeso.
- Vá, não confias em mim?
No. But it's not you, it's me. Porque isto era verdade, obedeceu calada enquanto ele a arrastava suavemente pelo corredor fora.
Pararam. Ele posicionou-a devagar, afastou-se e remexeu nuns plásticos e papeis, arrastou algo.
- Keep them closed!
Um baque surdo. E depois mais nada, apenas ele de regresso.
- Podes abrir.
Humiliating! :)
ResponderEliminarOlá Mdr,
ResponderEliminarCare to elaborate? :)
Obrigada pela visita!
Sure: to me, a key concept of the text!
ResponderEliminar(na minha interpretação, o sentimento de humilhação de Blake ao perceber, perante o gesto do companheiro, que lhe entrega uma prenda, a dimensão da sua própria ilusão sobre a natureza e a importância desse momento e a fundamental falta de sintonia entre eles sobre a forma de o encararem).
Obrigada pelas explicações, Mdr! O texto aí está, aberto a diferentes interpretações. E para mim é isso, esse diálogo interminável entre o que se escreveu, o que lá ficou e o que ali lerá alguém, umas das peças mais interessante do puzzle que é ler e escrever :)
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