Durante muito tempo o medo da
página em branco foi um dos meus maiores inimigos. Suficiente, até, para
me fazer desistir de ideias perfeitamente válidas antes da simples
tentativa de as desenvolver, ou a meio dela. Sem dó nem piedade,
descartei assim dezenas de enredos, personagens, cenários, desde os mais
incipientes aos mais acarinhados, carimbando-os a todos com o rótulo de
"imprestável para consumo humano". E logo em seguida arranquei cabelos e
roí unhas à conta da minha deplorável falta de ideias.
Tipicamente,
a coisa passa-se assim: uma ideia promissora, entusiasmante, rodada
mentalmente de um ângulo e de outro enquanto passeio na rua a caminho de
uma qualquer obrigação; o necessário tempo de espera até se apresentar
ocasião propícia à escrita; finalmente, o momento chega, lanço-me à
coisa ansiosamente e algures em mim uma certa sensação de inutilidade
começa a instalar-se ao cabo de três parágrafos ou quatro. Apago e
reescrevo um número variável de vezes, desespero-me, desisto. Pouco
depois, uma ideia amarrotada voa em direcção ao cesto dos papeis.
Metaforicamente falando, é claro - raramente escrevo à mão.
Nestas
angústias nunca estive sozinha. Não bastasse a própria vida para o
provar, o imaginário cinematográfico é fértil em escritores desesperados
fitando ecrãs desapontantes, amarrotando folhas, riscando páginas
inteiras, enchendo caixotes de lixo, bebendo café profusamente,
suspirando e arreganhando os dentes ainda mais profusamente.
Um
dia, inesperadamente, as coisas começaram a mudar. Dizer que estou
livre da página em branco e dos seus terrores seria mentir. Aliás,
consigo vê-os na sua dança de aproximação enquanto escrevo estas linhas
(vale a pena? será verdade? terei legitimidade para?). Suponho que a sua
presença mais ou menos remota seja parte indissociável do processo de
escrita, algo que a significativa montanha de livros e recursos online
dedicados ao tema parece confirmar. Mas, por tentativa e erro, reunindo
ideias aqui e ali, fui encontrando formas de seguir a direito através
desse medo, descartando-o por completo quando possível.
Aqui estão algumas das ideias (90% de sabedoria alheia, 10% de arranjo floral meu) que me têm ajudado:
-
Dar nome à fera
Conhecer o inimigo é meio caminho andado para nos vermos livre dele, por isso a pergunta o que é que me faz desistir a meio? é fundamental. É preguiça? Falta de inspiração? Simples falta de jeito?
Entra em cena o crítico interior. O crítico interior é aquela personagem maléfica à la filme da Disney que se diverte imensamente com a sua pura maldade, entretendo-se a difamar-nos junto de nós mesmos, dizendo-nos ao ouvido - às vezes gritando aos quatro ventos - que aquele texto não é suficientemente bom, aliás, que é mesmo uma grande porcaria. Claro que o crítico interior não acha nenhum dos nossos textos ou ideias suficientemente bons, provavelmente nunca achará.
Mas o crítico interior não sabe exactamente o que seria um texto suficientemente bom, ele só sabe, com toda a certeza, que não é aquele que temos à nossa frente. E quanto mais pequeno e incipiente esse texto for, pior.
Com o tempo, fui aprendendo que o meu crítico interior tem muitas faces: falta de ideias boas; falta de ideias pura e simples; falta de jeito para representar adequadamente as poucas ideias que escapam; dúvidas persistentes sobre se estou a escrever a verdade, logo seguidas da dúvida existencial sobre se existirão ainda verdades na terra - e assim sendo, valerá a pena o esforço?; uma fome súbita a meio do tempo de escrita; uma necessidade urgente de tratar das contas do mês; a sensação de gota à deriva no oceano, regra geral sempre que entro numa livraria; a lista continua.
Creio que o crítico interior é uma daquelas inevitabilidades da vida, como um cabelo branco, aos dezoito anos, a sobressair entre caracóis escuros. Uma inevitabilidade, aliás, que nasce de uma versão distorcida e abusiva daquela que é uma das ferramentas indispensáveis ao escritor: a capacidade de editar. Mas como tudo na vida, uma ferramenta indispensável só é realmente útil no momento certo. Ou seja: para editar um texto é preciso que haja... bem, texto.
O verdadeiro problema nasce, então, quando soltamos o nosso crítico cedo de mais, quando lhe damos carta branca para nos atormentar e, sobretudo, quando deixamos de o reconhecer, confundindo a sua longa mão com falta de ideias ou falta de jeito.
Pensem nisso. De manhã à noite, quantas ideias passam de rajada pelas nossas cabeças? Milhares! Centenas de milhares! O problema não é a falta de ideias - as ideias são geralmente uma torrente que acossa a mente humana - mas o facto de sistematicamente desvalorizarmos cada ideia que nos vem ao espírito. Isso, esse encolher de ombros face a uma ideia pequena ou grande, esse apagar frenético a cada três palavras escritas, é o nosso crítico interior, misturado com uma boa dose de preguiça de o afugentarmos à cacetada.
Olhá-lo nos olhos assim que levanta cabelo é meio caminho andado para o pormos na ordem. O que nos leva à ideia n.º 2, depois de amanhã.
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