sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ideias contra a página em branco - Parte 1

Durante muito tempo o medo da página em branco foi um dos meus maiores inimigos. Suficiente, até, para me fazer desistir de ideias perfeitamente válidas antes da simples tentativa de as desenvolver, ou a meio dela. Sem dó nem piedade, descartei assim dezenas de enredos, personagens, cenários, desde os mais incipientes aos mais acarinhados, carimbando-os a todos com o rótulo de "imprestável para consumo humano". E logo em seguida arranquei cabelos e roí unhas à conta da minha deplorável falta de ideias.

Tipicamente, a coisa passa-se assim: uma ideia promissora, entusiasmante, rodada mentalmente de um ângulo e de outro enquanto passeio na rua a caminho de uma qualquer obrigação; o necessário tempo de espera até se apresentar ocasião propícia à escrita; finalmente, o momento chega, lanço-me à coisa ansiosamente e algures em mim uma certa sensação de inutilidade começa a instalar-se ao cabo de três parágrafos ou quatro. Apago e reescrevo um número variável de vezes, desespero-me, desisto. Pouco depois, uma ideia amarrotada voa em direcção ao cesto dos papeis. Metaforicamente falando, é claro - raramente escrevo à mão.

Nestas angústias nunca estive sozinha. Não bastasse a própria vida para o provar, o imaginário cinematográfico é fértil em escritores desesperados fitando ecrãs desapontantes, amarrotando folhas, riscando páginas inteiras, enchendo caixotes de lixo, bebendo café profusamente, suspirando e arreganhando os dentes ainda mais profusamente.

Um dia, inesperadamente, as coisas começaram a mudar. Dizer que estou livre da página em branco e dos seus terrores seria mentir. Aliás, consigo vê-os na sua dança de aproximação enquanto escrevo estas linhas (vale a pena? será verdade? terei legitimidade para?). Suponho que a sua presença mais ou menos remota seja parte indissociável do processo de escrita, algo que a significativa montanha de livros e recursos online dedicados ao tema parece confirmar. Mas, por tentativa e erro, reunindo ideias aqui e ali, fui encontrando formas de seguir a direito através desse medo, descartando-o por completo quando possível.

Aqui estão algumas das ideias (90% de sabedoria alheia, 10% de arranjo floral meu) que me têm ajudado:

    Dar nome à fera

    Conhecer o inimigo é meio caminho andado para nos vermos livre dele, por isso a pergunta o que é que me faz desistir a meio? é fundamental. É preguiça? Falta de inspiração? Simples falta de jeito?

    Entra em cena o crítico interior. O crítico interior é aquela personagem maléfica à la filme da Disney que se diverte imensamente com a sua pura maldade, entretendo-se a difamar-nos junto de nós mesmos, dizendo-nos ao ouvido - às vezes gritando aos quatro ventos - que aquele texto não é suficientemente bom, aliás, que é mesmo uma grande porcaria. Claro que o crítico interior não acha nenhum dos nossos textos ou ideias suficientemente bons, provavelmente nunca achará.

    Mas o crítico interior não sabe exactamente o que seria um texto suficientemente bom, ele só sabe, com toda a certeza, que não é aquele que temos à nossa frente. E quanto mais pequeno e incipiente esse texto for, pior.

    Com o tempo, fui aprendendo que o meu crítico interior tem muitas faces: falta de ideias boas; falta de ideias pura e simples; falta de jeito para representar adequadamente as poucas ideias que escapam; dúvidas persistentes sobre se estou a escrever a verdade, logo seguidas da dúvida existencial sobre se existirão ainda verdades na terra - e assim sendo, valerá a pena o esforço?; uma fome súbita a meio do tempo de escrita; uma necessidade urgente de tratar das contas do mês; a sensação de gota à deriva no oceano, regra geral sempre que entro numa livraria; a lista continua.

    Creio que o crítico interior é uma daquelas inevitabilidades da vida, como um cabelo branco, aos dezoito anos, a sobressair entre caracóis escuros. Uma inevitabilidade, aliás, que nasce de uma versão distorcida e abusiva daquela que é uma das ferramentas indispensáveis ao escritor: a capacidade de editar. Mas como tudo na vida, uma ferramenta indispensável só é realmente útil no momento certo. Ou seja: para editar um texto é preciso que haja... bem, texto.

    O verdadeiro problema nasce, então, quando soltamos o nosso crítico cedo de mais, quando lhe damos carta branca para nos atormentar e, sobretudo, quando deixamos de o reconhecer, confundindo a sua longa mão com falta de ideias ou falta de jeito.

    Pensem nisso. De manhã à noite, quantas ideias passam de rajada pelas nossas cabeças? Milhares! Centenas de milhares! O problema não é a falta de ideias - as ideias são geralmente uma torrente que acossa a mente humana - mas o facto de sistematicamente desvalorizarmos cada ideia que nos vem ao espírito. Isso, esse encolher de ombros face a uma ideia pequena ou grande, esse apagar frenético a cada três palavras escritas, é o nosso crítico interior, misturado com u
    ma boa dose de preguiça de o afugentarmos à cacetada.

    Olhá-lo nos olhos assim que levanta cabelo é meio caminho andado para o pormos na ordem. O que nos leva à ideia n.º 2, depois de amanhã. 

Sem comentários:

Enviar um comentário