Estamos quase no fim deste nosso primeiro percurso pelos meandros da fuga à página em branco. Começámos por falar dos perigos de dar rédea solta ao crítico interior, na Parte 1; depois listámos as virtualidades de um blogue de escrita diário, na Parte 2; e por fim meditámos sobre como é possível distrair a mente de um boqueio, fixando-a nesse mesmo bloqueio, na Parte 3.
Na Parte 4 juntaremos uma nova ideia ao lote:
- Esperar o inesperado
Alguma vez andaram pela escola fora com um papel jocoso colado nas costas sem o saberem? Pois a minha história com esta ideia foi mais ou menos assim. Ela sempre esteve lá, eu é que nunca dei conta.
Durante anos deliciei-me a ler histórias com personagens caricatas e enredos improváveis escritos pelas mãos de outros. Quanto mais inventivas melhor, quanto mais peculiares melhor ainda! Mas na minha própria escrita jamais me atrevi a dar o salto do verosímil para o improvável. Complexo de boa aluna desejosa de aderir aos cânones da escrita "a sério"? Quem sabe... Quem sabe, aliás, por que razão haveria eu de admirar tão fortemente a inventividade dos outros, mas equacionar para mim mesma a plausibilidade com a escrita "a sério". Qualquer que tenha sido a razão, o facto é que um dia me passou a snobeira e decidi-me a abrir a caixa de Pandora.
De um momento para o outro as minhas personagens viram-se confrontadas com uma série de acontecimentos de probabilidade reduzida, como pianos de cauda achados no meio da rua, nascimentos súbitos de línguas naturais, capacidades sobrenaturais de "ler" o vento e marés de sorte que nunca mais acabam. E estes nem são pontos de partida especialmente "alternativos", comparados com outros que abundam na literatura consagrada (que dizer de uma invasão extraterrestre orquestrada com a ajuda de crianças? De acordar feito insecto? De viajar para Lilliput?)
Velejar nas ondas de uma premissa invulgar revelou-se para mim um exercício absolutamente libertador, catalizador de escrita mais fluída, mais arredada dos lugares comuns e da necessidade de obedecer a uma certa ordem natural das coisas. Quando outras ideias falharam, as premissas pouco prováveis deram-me um ponto de partida eximido de toda e qualquer responsabilidade de sensatez. Permitiram-me sonhar, disparar pelo espaço em direcção a parte incerta. Deixaram-me dizer coisas só porque sim, sem a preocupação de andar online e nos livros à caça de validações científicas para as minhas teorias.
Seja para começo de conversa, para arrebitar uma história mortiça ou para um final with a bang, desafio-vos a arriscarem numa ideia pouco comum. Confrontem os vossos personagens, não os deixem amolecer naquilo que é suposto, que é esperado, que é expectável! Ponham gente banal a experimentar coisas invulgares, coisas perfeitamente vulgares a acontecerem a gente banal, gente extraordinária a viver vidas extraordinárias, histórias convencionais com um único pormenor de caos, uma minúscula partícula de ordem no meio de uma história completamente desgovernada. As possibilidades são inúmeras e terminam apenas nos limites da vossa imaginação. Correcção: as possibilidades alargarão inevitavelmente os limites da vossa imaginação!
Por isso experimentem. Façam da folha em branco o vosso recreio e verão como em pouco tempo o branco da folha será apenas uma vaga memória.
Por isso experimentem. Façam da folha em branco o vosso recreio e verão como em pouco tempo o branco da folha será apenas uma vaga memória.
Sábado virá a última parte do post. Até lá não deixem de passar por cá, pois haverá novidades.
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