Quando acordo é Inverno. A luz ainda não instou as miudezas da terra à vida e tudo o que respira, de uma forma ou de outra, recolheu à toca. Investigo a minha cara no espelho junto à cama, talvez reconfortada por essa primeira confirmação de existir.
Na cozinha os pratos da véspera esperam a sua vez, mas a sua vez ainda não será agora, porque o hábito inclina já as minhas mãos sonolentamente para o armário do chá. Um armário assim perfeitamente designado, onde há duas prateleiras inteiras só de chá e tudo o resto é um amontoado esparso de coisas inagrupáveis num único nome.
O primeiro acto consciente do dia - olhar-me ao espelho e as outras coisas que fiz até aqui são mero movimento condicionado - é este. A escolha do chá. É a primeira manifestação de presença e singularidade que emerge do meu corpo, ainda antes de o mundo tomar consciência de si próprio e se encarniçar numa vertigem.
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