quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Inverno

Quando acordo é Inverno. A luz ainda não instou as miudezas da terra à vida e tudo o que respira, de uma forma ou de outra, recolheu à toca. Investigo a minha cara no espelho junto à cama, talvez reconfortada por essa primeira confirmação de existir.

Na cozinha os pratos da véspera esperam a sua vez, mas a sua vez ainda não será agora, porque o hábito inclina já as minhas mãos sonolentamente para o armário do chá. Um armário assim perfeitamente designado, onde há duas prateleiras inteiras só de chá e tudo o resto é um amontoado esparso de coisas inagrupáveis num único nome.

O primeiro acto consciente do dia - olhar-me ao espelho e as outras coisas que fiz até aqui são mero movimento condicionado - é este. A escolha do chá. É a primeira manifestação de presença e singularidade que emerge do meu corpo, ainda antes de o mundo tomar consciência de si próprio e se encarniçar numa vertigem.

Sem comentários:

Enviar um comentário