sábado, 23 de fevereiro de 2013

Ideias contra a página em branco - Parte 3

Bem-vindos à Parte 3 deste post. Na Parte 1 e na Parte 2 tentei alinhar algumas ideias sobre o nosso crítico interior e sobre as coisas que pode ensinar uma mini-maratona de escrita criativa em forma de blogue. Hoje partilho mais uma experiência:

    Distrair a mente do bloqueio, fixando-a no bloqueio  
    Parece contraditório, não é? Mas não. 
    Bem, na verdade não é exactamente o bloqueio que nos interessa; o bloqueio é apenas uma desculpa como outra qualquer, para ir mais fundo, ao famoso busílis.
    Assim se passou comigo: um dia, com uma hora entre dois compromissos, sentei-me num café de bairro munida de recibos velhos e uma caneta bic já sem tampa, à espera de inspiração. Comecei a rabiscar umas linhas irremediavelmente anódinas e aos poucos o velho terror do vazio foi-se instalando sob a forma de desinteresse: nada do que escrevia me parecia sequer digno das costas nuas de um recibo velho.
    Pensei em parar, mas logo reconsiderei: por esta altura já eu estava lançada no projecto de blogue diário e havia que produzir um post para aquele mesmo dia. Assim sendo, agarrei num novo recibo - costumo ter a carteira alarvemente cheia! - e escrevi algo como "hoje estou sem inspiração, a escrever coisas desinteressantes". Se não foi isto foi perto disto e, qual punição da escola primária, escrevi-o um bom número de vezes, muuuuiiiiitooooo deeeevaaaagaaaaar, mas sem parar para pensar. 
    Ao fim de umas quantas repetições, a minha mente já estava careca de saber que eu não estava inspirada. Aliás, a falta de inspiração já lhe começava a parecer uma coisa nada aterrorizante e até vagamente maçadora. E então, perante a clara falta de novidades, a minha mente fez o que todas as mentes fazem quando se aborrecem mas não lhes é permitido vaguear livremente: começou a desligar. Assim, à medida que os pensamentos diminuíam, o meu sistema começou a ficar mais alerta, mais atento a coisas subtis, como a sonoridade da frase, o subir e descer da mão, a sensação física de repetição teoricamente infinita; em suma, larguei as alturas dos voos mentais e regressei ao momento presente.
    O que se passou em seguida foi algo parecido com o fenómeno que procuramos provocar quando paramos de tentar lembrar-nos de uma coisa, a ver se ela nos ocorre. Ali, no momento presente, removida a fixação mental com a ideia de que "eu hoje não estou inspirada", criou-se no meu cérebro o espaço necessário para que a inspiração propriamente dita passasse pela porta.
    E sem eu dar conta a minha voz foi-se fundindo com a voz da personagem, aquela que há que tempos estava para ali à espera que eu me focasse nela e não em mim. De repente já não era eu, mas a personagem, quem estava a escrever coisas desinteressantes. De repente a falta de inspiração converteu-se na singularidade que, explodindo, despoletou tudo o resto, ainda que no texto final não tenha ficado senão uma curta referência. Mas tudo partiu dali. 
    E a ideia de um novo truque para fintar a minha mente, essa, guardei-a para uma nova ocasião de necessidade.  
Quarta-feira avançaremos para a quarta, e penúltima, parte desta série. Até lá, haverá novidades.

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