Na Parte 1 deste post falei-vos da importância de dar nome à fera, isto é, de enfrentar olhos nos olhos o nosso crítico interior e os seus excessos editoriais. Mas uma vez identificado o bicho, resta saber o que fazer com ele.
Pôr o crítico interior na ordem não é tarefa exactamente fácil, sobretudo porque ele parece conhecer os meandros do nosso subconsciente como ninguém. Adora desaparecer por ruas e reaparecer em vielas, fingir-se morto para ressuscitar duas páginas à frente, enfim, escapar-se-nos por entre os dedos quando julgamos que o temos na mão.
Na tentativa de lhe fazer frente, decidi-me um dia a
- Criar um blogue de escrita diária
- Sim, diária. Sim, obrigatoriamente. E de preferência - uma forte preferência, neste caso - com um amigo.
- A ideia é desafiarem-se mutuamente a uma prática regular de escrita criativa, uma regularidade tão intensa que o crítico interior não terá escolha a não ser calar-se perante a inevitabilidade de postar algo.
- Claro que a ideia só resulta se houver entre ambos os participantes o compromisso de levar a sério a obrigatoriedade dos posts. Por isso, dois amigos é melhor que três e três é melhor que quatro. Tal como numa viagem de longo curso, quanto mais gente envolvida, maior o potencial de bagunça! Mas o facto de haver mais alguém no mesmo barco, ou, neste caso, do outro lado da linha, ajuda a perseverar mesmo nos momentos de desânimo e falta de inspiração.
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Ao princípio, sobretudo para quem o faz pela primeira vez, enfrentar um projecto diário pode ser intimidatório. Parece difícil. Impossível mesmo. Então e os imprevistos? E as obrigações inadiáveis? E se falho um dia?
- A verdade é que fazer algo todos os dias, ainda que não seja estupidamente fácil, é mais fácil do que se pensa - e muito mais fácil do que só fazer algo de vez em quando. Isto porque aquilo que fazemos todos dias, ao fim de algum tempo torna-se um hábito. E no fim de contas, nós somos muito mais a soma dos nossos hábitos que a soma das nossas vontades. Vencido um certo atrito inicial, a escrita diária deixa de ser um corpo estranho, convertendo-se em parte da malha coesa e indistinta dos nossos dias, parte daquilo que pura e simplesmente é.
- Mais: a escrita passa a ser uma prioridade entre outras, em vez de um after thought que chega quando já estamos demasiado cansados ou dispersos para lhe dar atenção.
- De todo o modo, falhar um dia não é o fim do mundo, nem tem de significar o fim do projecto. Há sempre aquela vez em que uma obrigação verdadeiramente inadiável se interpõe ou em que adormecemos sem dar conta no sofá. Nada de desespero! O importante é que a interrupção se prolongue o mínimo possível e que não se torne ela um hábito. Um post com umas horas ou um dia de atraso é, ainda assim, melhor que post nenhum. E um ano de escrita diária com meia dúzia de dias em falta é claramente melhor que um ano de folhas em branco.
- Uma outra questão a ponderar é a escolha de escrever publicamente. Porque não num caderno ou num blogue acessível apenas aos seus autores? Bom, suponho que esta é uma ponderação relativamente pessoal, que cada um terá de fazer por si próprio. Para algumas pessoas, a publicidade é um estímulo; para outras, é um factor de inibição.
- Quanto a mim, sempre a vi como parte fundamental do projecto. Seja um blogue com três visitantes ou cem ou cem mil, é importante que nalguma parte do percurso ataquemos a dura tarefa da exposição. A exposição que, afinal, não é mais do que darmos ao outro a oportunidade de presenciar algo genuíno, algo único, algo que somos nós lá no fundo mais fundo que esse termo contém, o nosso espaço de maior vulnerabilidade. Aprender a escrever imperfeitamente face aos outros e a aceitar essa imperfeição é parte indissociável do processo para chegarmos a um lugar ao mesmo tempo autêntico e livre. No fundo, é parte indissociável do processo de aprender a escrever.
- Em http://ohabitofazoblog.blogspot.pt/ permanece o registo da mini-maratona que, em Outubro do ano passado, ousei correr na companhia de uma amiga. O projecto deu entretanto lugar a outros, mas na sua vida imprevistamente curta ensinou-me muito mais do que poderia supor sobre as virtudes da escrita
obrigatoriamente diária e voluntariamente exposta.
Na sexta-feira virá a Parte 3 e, com ela, uma nova ideia. Até lá, quarta-feira haverá escrita criativa.
Olá A.
ResponderEliminarEntrar com o comboio em andamento é uma imagem que pode aplicar-se ao comentário a um blog já iniciado.
Aqui registo publicamente essa entrada, pelo que possa valer para a Autora dos posts regulares.
Gostei do estilo da exposição e da interpelação amigável do leitor: a cada um, a identificação da sua fera! Agora é seguir em frente, para descobrir caminho e poder contemplar as belezas da criação.
Até à próxima.
Mdr
Olá Mdr,
ResponderEliminarBem-vinda a bordo! Espero que a viagem seja agradável e sem muitas sacudidelas... apenas as indispensáveis para pôr as ideias a fervilhar. :)
Por ora, fica a certeza de que para a dita autora é sempre uma ocasião feliz dar conta de um novo passageiro.
Até breve!