sábado, 2 de março de 2013

Ideias contra a página em branco - Parte 5

Como o tempo voa! Aqui estamos nós a segurar entre os dedos o último ramo deste mini-bouquet de ideias contra a página em branco, deixando para trás o crítico interior (Parte 1), um blogue de escrita diário (Parte 2), os bloqueios da mente (Parte 3) e o inesperado (Parte 4).

Na parte 5 proponho-vos
    Contar o real

    Espera lá... mas não íamos esperar o inesperado? Lançar acontecimentos improváveis no caminho da personagens caricatas? Sonhar o vagamente impossível? Isso. Tudo isso. E o seu contrário também. Que bom, podermos tentar de tudo um pouco!
    E o que é isso de contar o real? Apenas isso mesmo: contar a vida tal qual ela acontece, a nós e ao nosso redor. Pode ser qualquer coisa, mas quanto mais específica e concreta melhor: dar uma cabeçada na parede; discutir com o vizinho; entrar em palco para representar uma cena; perder o autocarro; ouvir uma sinfonia; derramar leite na mesa; dar um beijo; comprar um bilhete de lotaria.
    Não importa a dimensão da ocasião ou a quem aconteceu. Importa que seja verídica e que a tenhamos vivido ou testemunhado. E, sobretudo, que façamos o exercício de a descrever de maneira puramente objectiva. Nada de ele fez isto porque, nem de ela deu uma cabeçada embaraçosa e... Mas antes, ele fez isto e depois aquilo, ela deu uma cabeçada e cambaleou para trás.
    Arrisquemos! Arrisquemos abandonar os adjectivos, os advérbios, os "porquês", os "como", deixar o texto entregue a si próprio, sem tentarmos moldá-lo a uma explicação coerente. Quando ganhei coragem e o fiz, descobri que relatar os factos tal como aconteceram, limpos de subjectividade, me permitia escrever umas boas linhas de rajada, sem hesitações, sem parar para pensar no duplo sentido, na composição estilística e nas demais coisas que afligem a mente do escritor com tendência para a aflição. O crítico interior não tinha o que dizer: eram os factos, puros e duros, e a culpa de serem mais ou menos insípidos jamais me poderia ser assacada.
    Experimentem e verão. Se estiverem completamente em branco, creio que esta será uma boa forma de porem o sangue da imaginação a correr. E mesmo que a corrente já esteja razoavelmente forte, podem sempre ver-se puxados para caminhos inesperados. Quem sabe... talvez alguma personagem mais audaz vos entre pelas ideias dentro, usurpando-vos as frases, semeando adjectivos e advérbios entre as acções, fazendo-as suas, acrescentando fantasia à crua realidade.
    Porventura a questão aqui será esta: quem disse onde se traçavam as linhas entre ficção e realidade? Partindo de uma, quanto tempo falta para chegarmos à outra? Faltará tempo, sequer?
    Talvez seja ir longe de mais dizer que a ficção não existe, mas num certo sentido, no essencial debaixo da forma, se calhar a ficção apenas baralha e volta a dar as mesmas cartas com que jogamos sempre, compondo-as e recompondo-as em diferentes castelos, uns grandiosos e elaborados, outros pequenos, seguros, outros periclitantes, mas sempre as mesmas figuras e números a fazer de estrutura. Em certo sentido, a ficção é apenas a vida, composta em múltiplas combinações infinitas, e se calhar é por isso mesmo que lemos e escrevemos, para estendermos a nossa vida única às mil e uma vidas possíveis.
    Porque não, então, acordar a ficção agitando o real bem debaixo do seu nariz? É essa a proposta de hoje.

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