People watching, dizem os anglófonos na sua língua simples, exacta e musical. Uma arte perdida no tempo pré headphones e pré smartphones? Talvez... Ou talvez não perdida. Talvez só um pouco posta de parte, enquanto nos ocupamos a viver uma espécie de adolescência tardia colectiva, encafuados no nosso umbigo e nas quatro paredes invisíveis mas palpáveis da tecnologia, que nos acompanham para todo o lado, mesmo em pleno ar livre.
Seja como for, é uma das minhas actividades favoritas, porventura porque desde pequena sempre tive na família quem gostasse de ocupar as horas de espera ou de viagem adivinhando histórias nas feições e comportamentos dos outros.
Observar pessoas é uma arte fina, nos antípodas da intromissão indesejada e do voyeurismo, e uma arte perfeitamente portátil e acessível, necessitando apenas de um par de olhos atentos, uma mente serena e a disponibilidade para uma ligação genuína com o momento presente. Pressupõe também, para a prática prazenteira e continuada, uma curiosidade sincera pelo mundo nas suas partes mais ínfimas.
Seja como for, é uma das minhas actividades favoritas, porventura porque desde pequena sempre tive na família quem gostasse de ocupar as horas de espera ou de viagem adivinhando histórias nas feições e comportamentos dos outros.
Observar pessoas é uma arte fina, nos antípodas da intromissão indesejada e do voyeurismo, e uma arte perfeitamente portátil e acessível, necessitando apenas de um par de olhos atentos, uma mente serena e a disponibilidade para uma ligação genuína com o momento presente. Pressupõe também, para a prática prazenteira e continuada, uma curiosidade sincera pelo mundo nas suas partes mais ínfimas.
Um dia alguém disse que o simples nem sempre é fácil. E disse bem. Estar apenas, mas por inteiro, é das ocupações mais simples e mais difíceis que o ser humano, sobretudo o desta nossa era da técnica, pode empreender. Na espiritualidade, é o que distingue os mestres dos aprendizes. Nas viagens, é o que separa os viajantes dos turistas. E no mundo das letras, talvez seja o primeiro passo sereno, silencioso e indispensável, a primeira capa discreta do escritor.
Porque gosto de o fazer, divirto-me a experimentar, mas o certo é que estou infinitamente mais perto do aprendiz que do mestre, e facilmente a minha mente desliza daquilo que a realidade me oferece para cantos paralelos da memória ou de projectos futuros.
As pessoas têm histórias que se insinuam assim que elas entram num espaço. Histórias que podem nascer tão breves como um apertar de atacadores ou tão densas como uma veemente discussão com lágrimas. Revelá-las é o primeiro trabalho de escrever. Mas que esforço é preciso para não afixarmos em cada uma delas, assim que se apresentam, as nossas próprias ideias precoces sobre quem são e o que fazem! Como aquele homem que passa do lado de fora da janela em passo desengonçado, com a gabardina amarelada e o chapéu a despropósito, que é a despropósito apenas na minha expectativa, mas não na realidade da pessoa que ele é. Quem é ele? O que o move? O que diz de si o seu aspecto exterior? Quão mais fácil seria inventar respostas imediatas, que tentar pacientemente descortinar as verdadeiras! Talvez seja por isso que tendemos a colar a nossa realidade interior à pessoa exterior dos outros, quando deveríamos ocupar-nos a olhar as subtilezas, para descobrirmos aí a história que realmente é, e não aquela que queremos contar.
Quanto à tecnologia, que não fiquem mal entendidos: sou fã dela, ou não estaria aqui neste blogue. Como tudo na vida, creio pode ser tanto um empecilho como um estímulo precioso, dependendo do uso que dela façamos; e justamente o que penso é que alguns dos usos que temos feito da nossa fenomenal revolução tecnológica têm sido muito pouco proveitosos, prejudiciais até, porque não são a tecnologia como manifestação e aprofundamento do que é ser humano, mas a tecnologia em sua substituição. Mas tudo isso seria matéria para outro post, não aqui neste blogue.
Em todo o caso, a provar o ponto, aqui vos deixo duas interessantes janelas virtuais para o mundo da bela arte de observar pessoas:
Travel Paris: People Watching at a Café:
(canal soniastravels)
People Watching by Rose Palmer:
(canal StudyUCL)
Os meus parabéns pela iniciativa.
ResponderEliminarObservar?!
O é simplesmente, parar e olhar em redor, o quanto aprendendos sobre comportamentos, usos, costumes, sensações, nós mesmos.
Eu admito, como gosto de observar as peesoas, comportamentos, tranquilamente, apenas observar...
Muito obrigada pela visita e pelas simpáticas palavras! São muito encorajadoras para este projecto ainda em crescimento. :)
EliminarConcordo que observar é a melhor forma que temos para aprender sobre os outros e também - o que é muito importante - sobre nós mesmos. Se não nos soubermos observar a nós mesmos, se não nos conhecermos bem, dificilmente conseguiremos conhecer verdadeiramente o mundo que nos rodeia.
Uma vez mais obrigada e, quem sabe, até um próximo post!
Não discordo da importância de observar os outros “para descobrirmos aí a história que realmente é, e não aquela que queremos contar”.
ResponderEliminarMas não será a escrita, porventura na maioria das vezes, um processo de construção a partir de um material, de que o escritor se apropriou, para criar uma história autónoma e diferente da história real da personagem que a inspirou e que, nesse sentido, se torna irrelevante para quem observa?
Mdr, obrigada pelo comentário. Concordo que a escrita tem (ou pode ter) muito de imaginação pura. E nada tenho contra ela, longe disso! Na verdade, o que procurei focar neste post foi a importância da observação como primeira ferramenta do escritor, a capacidade de estar verdadeiramente presente, de observar aquilo que é e não apenas aquilo para que a sua cabeça o arrasta, normalmente por relação com algo que já pensou ou sentiu ou viveu antes. Foi isto que procurei traduzir em expressões como "o primeiro trabalho", "ideias precoces", "respostas imediatas". Direi antes assim... Descortinar o real e imaginar para lá dele são ambos exercícios úteis, a meu ver. Sem a imaginação pura, ficaríamos demasiadamente presos ao relato. Mas sem a observação fiel, creio que acabaríamos sem a riqueza do mundo ao nosso redor, cheio de personagens e histórias diferentes daquilo que somos e já experimentámos. Espero ter conseguido explicar bem o meu ponto de vista e, se houver réplica, aqui estarei para continuar o diálogo. :)
ResponderEliminarOlá, aqui regresso para agradecer a resposta e voltar ao assunto: aceito a observação fiel como uma opção legítima do escritor, embora tenda a pensar que, na escrita ficcional, o observador/escritor filtra a realidade pela forma subjectiva como a vê, interioriza e projecta na história.
EliminarAté sempre!