segunda-feira, 20 de maio de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 6

Têm sido dias velozes, com a escrita a repartir o espaço com tantas outras coisas, entre devoções e obrigações, cada uma delas indispensável à sua maneira. Mas o prometido é devido: o desafio foi lançado aqui, a resposta segue abaixo. A ver o que me deixam os queridos leitores de presente na caixa dos comentários!
 
Dentro do círculo.
É o momento que os aparta dos demais.
Lembro-me bem de estar assim,
pontapés no ar,
balançados e lentos,
a conversa de cá para lá em códigos,
naquela idade em que nós
é a palavra mais importante.
Olho discreta e enviesada,
atrevo-me.
Roubo ao momento uma partícula
e corro dali em fuga,
com o meu fragmento furtado no bolso.
A mão fechada a disfarçar,
como se carregasse comigo uma borboleta
ou outro tesouro.
Sinto-me com febre.
Talvez seja o sol no empedrado
que me toca ao morrer
ou talvez seja outra coisa
como tu e o teu fantasma
balançando pés e ar e riso.
O momento passou com o eléctrico
que arrasta rua abaixo o som
e o sol passou
caído algures por trás das casas.
Sob o verde que sobra e derrama
a última luz do dia sobre o alcatrão
restam os meus sapatos
impenetráveis.

4 comentários:

  1. Olá Adriana, parabéns pelo texto, gostei muito :) Cá vai o texto outonal que a imagem me sugeriu:

    Amanhecera cedo. Entraram de mãos dadas, no jardim de Vigeland, no Frognerparken, em Oslo. Tinham acabado de treinar, como em tantos outros dias, correndo pelos caminhos verdejantes coloridos indiretamente pela chuva transparente do princípio do outono. Fora apenas chuva que tingira a vegetação e não ainda neve, em nenhum dos seus nove tipos diferentes em norueguês, cuja distinção tão estranha se afigura para as gentes das meridionais latitudes. O céu estava carregado, cinzento escuro, mas enxuto. Naquela manhã de outubro, ainda não chovera. Descansando do violento exercício físico, caminharam devagar, de mochila às costas, como é normal na Noruega, ambos com sapatos de ténis bem apertados. Observaram cada uma das estátuas do mestre Gustav Vigeland, carregadas de erotismo. Entre cada uma delas, timidamente, trocaram um sorriso cúmplice. Tocaram repetidamente com as mãos nas pedras frias de cada uma das distintas obras, sentindo-lhes a temperatura outonal inexoravelmente baixa, que contrastava com a temperatura dos seus corpos e dos seus corações. Batiam depressa não por uma, mas por duas razões, pelo menos. Batiam depressa por terem corrido e batiam depressa pelo despontar do amor recíproco. Só naquela manhã ela tinha dado o primeiro passo, deixando-o enleado com as palavras. Enlevados, sentaram-se num dos bancos do jardim, com as estátuas sempre à vista, e, sem trocarem uma única palavra, trocando apenas olhares doces, beijaram-se pela segunda vez.

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    1. Muito obrigada, Trol Leifsson, pelos parabéns e pela partilha! :) Realmente um texto outonal, como dizes. Gosto das suas latitudes geográficas e sentimentais. Passagem favorita: "...correndo pelos caminhos verdejantes coloridos indiretamente pela chuva transparente do princípio do outono. Fora apenas chuva que tingira a vegetação e não ainda neve, em nenhum dos seus nove tipos diferentes em norueguês..." Bjs e até breve.

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  2. Outra proposta, com um abraço:

    O dia está a ser muito fixe! Depois das aulas, fomos dar um grande passeio de mota, sempre a fintar o sentido do trânsito. A marginal é o que já se sabe, com um rio grande ao lado, que não cabe no olhar e na alma das pessoas, os putos iam calados, eu sentia o que a minha miúda estava a sentir pela forma como ela pressionava os pés, mesmo no ar, e se encostava mais a ele. Ele a fazer que não dava por nada, a olhar em frente, concentrado, mas eu a ver perto de mim o pé direito que carregava no pedal pelo prazer da resposta. Sem arranques, a passar num sopro de dança entre carros paralelos. Quando ele parou a meio da Av. Infante Santo e ambos se encostaram ao tronco quente da mota, o viaduto ecoava de sons e tinha o brilho dos finais de tarde, aqueles em que o dia é uma evidência e se percebe que a noite vai esperar. Sempre silenciosa, ela baixou os olhos e derramou sobre nós, os quatro, expectantes e alinhados, a força unificadora desse olhar, como se um holofote branco projectasse num palco o espaço de vida das suas personagens.

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    1. Olá T., obrigada por mais uma visita e mais uma partilha! :) Um texto enigmático, desta vez, a deixar adivinhar variadas possibilidades de enredo, de personagens, de desenlace. Passagem favorita: "...o viaduto ecoava de sons e tinha o brilho dos finais de tarde, aqueles em que o dia é uma evidência e se percebe que a noite vai esperar." Bjs e até breve.

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