Escrever no meio da dispersão não é fácil. Por isso nem sempre escrevo como e quanto quero. Por vezes, não escrevo nada durante dias. Histórias a meio ou em potência, personagens adiados, versos ainda em esboço, nada cresce um centímetro que seja no cantinho ajardinado dos meus cadernos. Mas é mesmo assim. Este é o "segredo sujo" da vida de escrever: às vezes simplesmente não queremos saber dela para nada!
Às vezes há papelada para tratar, não-sei-quê na casa que precisa de ser concertado, trabalho que sobrou para o fim-de-semana, família a que dar atenção, viagens para planear, amigos com quem se combinou qualquer coisa, mil e um hobbies, emergências de última hora, todo um mundo de coisas que nos puxa pela manga e exige prioridade. E então nós damos e damos e a escrita escorrega de mansinho para um enclave algures atrás do sofá da sala.
Depois vem a culpa, certa e certeira. Mas a culpa é dos sentimentos cuja intensidade é porventura mais inversamente proporcional em relação ao número de problemas que resolve. A culpa, pelo menos em mim, é mãe da procrastinação, que é como quem diz, da negação. De modo que com muito custo lá deixo a culpa seguir o seu caminho pelo ralo abaixo e dedico-me ao cultivo de pensamentos mais úteis.
No meio da bulha, a primeira coisa que tento fazer é regressar à mesa da escrita. Bom, a segunda coisa que tento fazer. Depois de me arrastar pela casa em desespero, depois de não escrever há dias e dias e de estar pronta a rasgar o meu certificado de aspirante a escritora em mil pedaços, a segunda coisa que tento fazer é escrever. Parece simples, mas só é simples dizê-lo; fazê-lo é uma outra questão por completo. Experimentem escrever com a mente mais seca e rachada que o deserto do Saara à hora de almoço num dia de Verão. Exacto!
Esse é, na minha experiência, um dos principais inconvenientes de não escrever: quanto menos se escreve, menos se tem para escrever. Assim, não há outro remédio que não seja começar por algum lado (como este post, por exemplo!) e sobretudo deixar que essa primeira escrita saia livre, seja o que tiver que ser, já que muito provavelmente sairá trémula e o nosso crítico interior estará especialmente alerta aos seus defeitos.
Algumas ideias em carteira que me costuma ajudar a evitar que a dispersão e a procrastinação se perpetuem:
- Andar sempre com um caderno de bolso e uma caneta e tirá-los do bolso assim que surge a ocasião. Muita da minha escrita é feita em cafés e restaurantes, paragens de autocarro, no metro, em salas de espera, em jardins e em outros sítios similares nos quais, por um motivo ou por outro, me encontro à espera ou a fazer tempo. Quando ando ocupada ou preocupada com outras coisas, por vezes não me dou ao trabalho de tirar o dito caderno da carteira, preferindo ficar entregue a planos mentais sobre o que vou resolver, quando e como. A solução é tirá-lo assim que me sento em qualquer lado e folheá-lo: normalmente acabo sempre por escrever mais qualquer coisa.
- Escrever com o que houver à mão. Se não houver caderno de bolso, improvisar. Recibos, guardanapos ou lenços de papel são sempre uma escolha popular. Se não houver caneta ou lápis é mais difícil, mas nos cafés regra geral são muito prestáveis em arranjar, se pedirmos com um sorriso.
- Não ser muito exigente. Como disse acima, não dar margem para que o nosso crítico interior se ponha às chicotadas. Depois de uma temporada sem escrever, permito-me sempre ficar satisfeita com qualquer bocadinho de frase que saia, aproveitando até a mais pequena pausa no dia para anotar uma ideia que porventura me tenha vindo ao espírito.
- Escrever de manhã, o mais perto do acordar que for possível. Se pudesse escolher, adorava que o meu dia tivesse duas manhãs e uma noite, nada de parte da tarde! Essa é a altura do dia em que, se tiver dormido bem, a minha mente está mais fresca e comunicativa, apta a congeminar e escrever o próximo grande romance do século (ok, se calhar apenas mais um conto perfeitamente anónimo, mas é bom na mesma!) De manhã ainda não me embrulhei nas canseiras e preocupações do dia, pelo que posso dar à escrita a minha atenção completa. Além disso, por essa altura muita gente concede ainda ao sono mais uns minutinhos, pelo que não há distracções de maior. Sei que há pessoas que diriam que estou louca, que a manhã é um túnel de nevoeiro completo e que só à tarde ou à noite a cabeça deles começa a carburar. Bom, o que escrevo aqui é apenas a minha experiência, aquilo que funciona melhor para mim e, creio, provavelmente para muitos outros também. Mas para quem for adepto de escrever ao cair da noite, e assim se sentir melhor e mais produtivo, força! O que importa é arranjar um momento do dia em que se possa assegurar uma mente clara, boa disposição e uma atenção não dividida. E, claro, garantir, ainda assim, uma dose razoável de sono de beleza.
- Deitar-me mais cedo. É a batalha de uma vida, minha gente! Gostar da manhã e da noite ao mesmo tempo é uma das razões pelas quais durmo quase sempre menos do que devia. E quando isso acontece, acreditem que se nota, na pouca escrita como no mau humor. Nas épocas de maior dispersão, há também a tendência de querer esticar o dia até às pontas, mas a verdade é que ficar acordada até mais tarde raramente se traduz em escrita de qualidade ou em quaisquer outras tarefas concluídas com particular brilhantismo. Já ir para a cama mais cedo resulta, em regra, numa mente mais clara e imaginativa no dia seguinte, para além de me permitir acordar ainda mais cedo do que o habitual, rendendo-me assim um tempinho de escrita extra, antes de o trabalho e o resto do dia se instalarem.
- In extremis, sacrificar alguma actividade. A verdade é que não temos tempo ilimitado, nem podemos fazer tudo ao mesmo tempo. Eu gostava, acreditem, e mais de uma vez tenho tentado, mas não é possível. Depois de uns tempos com uma agenda semanal a rebentar pelas costuras, acabo sempre por chegar a esta mesma conclusão. E, com alguma reflexão sofrida, decido o que tem de ficar para trás. Não é fácil, porque gosto mesmo de muitas das coisas que faço, mas em última análise abandonar uma delas ajuda-me a apreciar melhor as outras. A questão sobre qual das actividades abandonar é muito pessoal. Para alguns, se calhar, essa a actividade será a própria escrita. Não é uma resposta certa nem errada, é o que é. Mas para mim a escrita está entre as prioridades e por isso o machado sacrificial cai sempre noutro lado.
- Não me massacrar com isso. Gostaria de escrever sempre muito e bem. Ou até pouco e bem. Bolas, até mesmo muito e menos bem, desde que nada de verdadeiramente horripilante! Mas a verdade é outra. A verdade é que há dias em que escrevo alguma coisa e outros em que não escrevo nada. Há raros momentos em que escrevo muito. Mas nem sempre bem. Muito do que escrevo fica pelo caminho (gaveta, às vezes lixo). E depois há alturas em que não escrevo nada durante muitos dias e quando recomeço só escrevo mal. Esta é a vida como é. Correcção, esta sou eu como sou. E só como sou poderei escrever. Trabalhar para ser melhor, sim, sempre! Massacrar-me por não ser diferente... para quê?
Às mães que aqui passarem hoje, desejo que seja um fantástico dia! E a todos os leitores, sem excepção, desejo um bom domingo, boas leituras e boa escrita!
Olá A. Boa ideia a de prosseguir com a escrita. Continuarei a passar por cá(para que servem os escritos? Para analisar, expor, contar, para o autor falar consigo mesmo através do leitor, para o interpelar, ou para outras finalidades igualmente relevantes: em regra, um exercício enriquecedor para as duas partes).
ResponderEliminarBom dia e obrigada Mdr!
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