sexta-feira, 31 de maio de 2013

A escrita espantada

A reverência. Escrever num espanto por cada coisa, como milagre que é, por cada estrela do céu estrelado, ou pedra do caminho, escrever dentro do sufoco que toma o peito quando o mais profundo das formas se manifesta. Lamentamos secretamente as oportunidades perdidas de nos sentirmos pequenos, insignificantes em nós mesmos, completos no todo. Faltam-nos nos tinteiros planícies, mares desertos, pântanos, a selva misteriosa, ou simplesmente o mundo minúsculo espiado à altura da relva em que nos deitamos por fim.

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A propósito deste fragmento, rabiscado hoje no Moleskine numa versão semelhante mas não igual à que chegou aqui ao blogue, fui caçar na estante o adorável e diminuto conto "Porque é tão importante ver as estrelas", do livro Fronteiras Perdidas, de José Eduardo Agualusa. Fui caçar, especificamente, esta passagem:

"A avó de Fortunato nasceu em Calomboloca e viu pela primeira vez a luz eléctrica, já adulta, quando o marido a levou para Luanda. Ao contrário do que seria de esperar não ficou encantada. Na opinião da velha senhora o esplendor eléctrico das grandes cidades, ao ocultar o brilho das estrelas, prejudicou a humanidade. Ela acha que, tendo deixado de ver as estrelas - tendo deixado de se confrontar, todas as noites, com o ilimitado, o infinito, a fantástica imensidão do universo -, os homens perderam a humildade, e com a humildade perderam a razão."

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Sempre a propósito, e fazendo do texto de Agualusa meu trampolim, aqui ficam alguns desafios:

1. Escrever, na primeira pessoa, sobre o dia em que a avó de Fortunato viu pela primeira vez a luz eléctrica.

2. Descrever o céu nocturno como se tivessem de o explicar a uma pessoa que nunca o viu nem sabe o que é. Não usar as palavras céu, noite, estrelas, lua, escuro, claro, azul, branco, negro, nuvens.

3. Descrever detalhadamente uma lâmpada. Descrever o que lhe sucede quando se acende.

4.  Em 5 minutos (cronometrados!) escrever as palavras e frases que vierem ao espírito a propósito do termo "infinito".

5. Numa mesma noite, ao mesmo tempo, duas pessoas olham para a lua cheia. Uma está num barco. Outra numa casa. Descrever quem são e o que pensam.

6. Fazer alguma coisa pela primeira vez e escrever sobre isso.

4 comentários:

  1. Uma pequena resposta ao desafio 1:

    A noite estava quente, com uma brisa morna e ligeira a afagar-nos a cara, o pescoço e os ombros. Eu, após viagem a Moçambique, tentava pacificar sentimentos desordenados, desde a Lourenço Marques de nascença até à Maputo de há dias. Tentando, como me tinha prometido, integrar dois países na minha só pessoa, ou talvez, apenas, respeitar nos meus sentimentos dois lugares que ocupavam o mesmo território.
    M. mostrava-me a baía de Luanda, uma concha larga aberta para a noite, as pérolas de luz nos candeeiros que se alinhavam na marginal a espaços regulares.
    A minha visão lateral captou, num pormenor, uma mulher de idade sentada num banco, voltada para um homem sensivelmente da mesma idade. Como o nosso passo era lento, ouvi com facilidade:
    - É bonito mas não presta. Em Calomboloca tu tem estrela no fundo do céu que fica a noite inteira. Ela ajuda a pensar comida que tu vai cozinhar amanhã, ajuda para ensinar o neto. Aqui não vê nada – fez um trejeito desdenhoso, ou assim eu lho quis adivinhar.
    Ouvindo-a, recordei a noite do dia em que entrei em LM, então com 9 anos mal medidos. O casal amigo que nos acolheu levou a minha família a um passeio pela longa estrada paralela à baía até à Costa do Sol, lugar de praia e veraneio. Lembrei-me de como esse passeio me revelou uma urbanidade mágica: a iluminação nocturna de uma cidade moderna nos meados de 60 do século passado, que dava presença às sombras e vida ao repouso, que prometia mistério e grandeza após a normal luz do dia. E de como foi nesse momento que espreitei o futuro.
    - … o candeeiro tem estrelas diferentes, elas estão a deitar luz em cima da estrada e das pessoas – rematava ele.
    - Rua assim não presta, estrada não presta. Se não tem estrela verdadeira, cabeça das pessoas não fica boa – manteve a velha mulher.
    Assim terminou a minha participação passiva, quase voluntária, nesse diálogo. Mantive o bichinho da dúvida num canto solitário durante o resto da estada em Luanda. O regresso a Lisboa fez-se com normalidade e até hoje, quando contemplo o Tejo estendido ao pé da varanda da casa onde moro, deslumbro-me, por exemplo, quando sobre ele o céu risca a luz quase branca do Verão ou quando a noite de lua cheia o revela a negro e prateado. Observo, recolho-me e não escolho, ou melhor, escolho esse deslumbramento, mas não renego o momento em que me apaixonei pelas luzes da cidade.

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    1. Obrigada pela partilha T.! Interessante ideia, a de abordar essa dupla perspectiva. De facto, céu estrelado e luzes citadinas, cada qual tem beleza e deslumbramento à sua maneira!

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  2. ontem vi pela trigésima quinta vez -ou por aí- o filme stardust(o pó da estrela.
    foi a trigésima quinta vez. e pediram-me uma primeira vez.
    pois bem, há já uns anitos bons, vi pela primeira vez o stardust.
    ADOREI!
    um ritmo fabuloso em que cavalgamos de antecipação, pregados ao ecran e à magia, com tudo a correr fluida e inteligentemente convergindo para o climax da ação, em que a estrela finalmente se transforma...ria em pó.

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    1. Olá Paula, obrigada pela visita! Já eu nunca vi o Stardust, por isso, quando acontecer, será realmente a primeiríssima vez. Quem sabe se daí nascerá um texto de resposta ao desafio n.º 6? Por ora fica a dica em carteira, obrigada!

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