Hoje acordei cedo, nem oito eram. Foi nas horas calmas da manhã que desci a rua despreocupada até ao Jardim, onde me sentei no colo de uma árvore a ler, aquecida pelos primeiros raios de sol.
Companhia: A Casa-Comboio, de Raquel Ochoa, livro distinguido em 2009 com o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís.
A simultânea riqueza e singeleza de algumas das suas frases tem-me prendido a atenção. A forma como em poucas penadas Raquel Ochoa parece captar a essência de uma complexidade, seja situação, personagem ou cenário, como aqui:
"Por isso também ela encetou a economia prática das palavras, dos sentimentos, dos anseios. Se Deus queria que fosse este o seu destino, porquê perder tempo a duvidar?"
Ou aqui:
"A estação fervilhava de hipóteses: de negócios, de destinos, de refeições."
Fez-me pensar em como gosto tanto de ler frases limpas e exactas e em como, ironicamente, ao escrever me puxa sempre o pé para a prolixidade.
É a batalha de uma vida. Pegar nas palavras e escorrer-lhes a gordura, destilar, destilar, destilar. Ir ao essencial. Escolher, para o mesmo sentido, a palavra mais simples. Mais perfeitamente simples, sem excesso nem defeito.
É a batalha de uma vida. Pegar nas palavras e escorrer-lhes a gordura, destilar, destilar, destilar. Ir ao essencial. Escolher, para o mesmo sentido, a palavra mais simples. Mais perfeitamente simples, sem excesso nem defeito.
Revejo-me muito nesta parte:
ResponderEliminar«(...) como, ironicamente, ao escrever me puxa sempre o pé para a prolixidade.»
Também me acontece com muita frequência pender para a prolixidade, num dilema entre a forma e o sumo. A forma fica amiúde mais doce com uma palavra de sabor diferente, seja ela rara ou tão somente menos comum, resgatada das páginas empoeiradas de um dicionário antigo perdido numa estante, amarelecido pelo tempo. Quero acreditar que, quando bem misturado em doses certeiras, o sumo não perde muito com o açúcar dos vocábulos prolixos.
Olá Trol Leifsson, obrigada pela visita e pelo comentário! Prosseguindo com a metáfora culinária, é bem verdade que uma palavra mais doce, quando certeiramente aplicada, ajuda a despertar os sentidos e a dar mais vivacidade ao sabor de todo o "prato". O busílis da questão, parece-me, é sempre a velha questão do equilíbrio. A dose justa de açúcar e estamos no céu. Açúcar a mais e não se pode sequer provar a mistela sem fazer caretas. Por isso, de vez em quando, me abespinho com o que escrevo e faço caretas :)
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