terça-feira, 16 de abril de 2013

A hora da estrela e uma maçã no escuro

Há quem se abespinhe comigo, mas desde que me consigo lembrar é assim que escolho os livros: leio o primeiro parágrafo, leio o último e se me prenderem ambos é negócio feito. Regra geral não falha como método, e não, até hoje nunca fez com que adivinhasse o desenlace do enredo a meio da leitura.

Recordo-me disto não para entrar numa reflexão - sem dúvida interessante - sobre a importância de cuidar das linhas de abertura e de encerramento de um livro, mas para recordar Clarice Lispector, que ando a ler, e que abre assim a sua Maçã no Escuro:
"Esta história começa numa noite de Março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.

Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo, passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro."
E depois a prosa segue, com igual esplendor. Mais adiante:
"Até que - como quando um relógio pára de bater e só então nos adverte que antes batia - Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.

Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras dividiram-se em flores ainda irresolutas - com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros delinearam-se cheios, macios."
Eu, perante quem escreve assim, curvo-me maravilhada e impotente, dilacerada entre a vontade da inveja e a inevitabilidade da empatia e da admiração.

Vencida para o lado da admiração, fui este domingo à exposição temporária com que a Gulbenkian decidiu homenagear Clarice Lispector, por ocasião do trigésimo quinto aniversário da sua morte e das celebrações do Ano do Brasil em Portugal. Corredores iluminados pelo brilho de palavras e imagens gravadas a toda a volta estendem-se como artérias até ao coração: uma sala de gavetas do chão ao tecto, fieis depositárias de pequenas relíquias, e uma outra onde se projectam ininterruptamente excertos de uma entrevista com a própria Clarice, palavras ainda vivas, cujo interesse o tempo não apagou nem diminuiu, e dentro das quais lateja uma melancolia envolvente como um abraço. Ali fiquei sentada, entre outros pares de olhos e ouvidos atentos, até sair com a intenção de regressar.

Escusado será dizer que recomendo vivamente a visita e a leitura. Por ora, fica o trailer de apresentação da exposição, para aguçar ainda mais o apetite (fonte: canal FCGulbenkian):

4 comentários:

  1. Gostei muito deste post e das passagens escolhidas do livro de Clarice Lispector: combinam superiormente a densidade analítica e a beleza literária.

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  2. Eu tinha dito que assim ia ser assim. Beijo, jab

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    1. É verdade... e com muita razão! Obrigada triplamente, pela visita, pelo comentário e porque sem a generosa oferta de um "duplicado" eu não teria descoberto tão rápido esta escrita verdadeiramente preciosa!

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