segunda-feira, 3 de junho de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 7

A resposta de hoje, ao desafio da semana passada, lançado aqui.

Na minha ideia há um homem. Este homem, com braços cansados, ergueu uma parede e na parede cola o desenho de alguém. Na parede cola os cacos desencontrados de alguém. Talvez este homem de braços cansados pense apenas no cimento. Talvez faça de propósito. Ou talvez siga o desenho torto sem juízo ou julgamento. Quando aqui passo, que é quase nunca, porque a estação fica fora do meu percurso habitual, pergunto-me se foi acaso ou intenção. E sinto os meus próprios cacos, que se desmontam, e as minhas próprias mãos, que apontam divergentes, e o olhar desviado do mosaico que não está em mim, nem nas escadas, mas numa distância qualquer.

Bons escritos, boas leituras e boa semana!

2 comentários:

  1. Quando te olhei a primeira vez vi-te como um ser desintegrado. Hoje vejo-te como um ser em suspensão, que desliza sobre as nossas ansiedades.
    Caminhas pelo tempo e pelo espaço com o corpo em postas. Daí verás melhor, quem sabe, os diferentes ângulos da vida.
    És uma viajante silenciosa e atenta, que nos observa quando caminhamos. Entras no nosso ângulo de visão por minutos, mas a tua imagem perdura nos gestos inconscientes que iremos repetir durante o dia. Porque te vimos e ganhámos consciência de que estiveste lá antes de nós, nesse lugar de dúvida constante. Porque nos fazes sentir que tivemos um passado, mesmo que já não o saibamos contar com pormenores.
    Percepção fraccionada, cavalgada entre segundos do nosso pensamento, abafada pelas impressões do vestido da mulher ao nosso lado, do som da voz do homem a responder ao amigo enquanto desce as escadas saltitante, do livro que a jovem lê na plataforma, à espera do próximo metro, ou do sono que venceu a mulher sentada no lugar da frente.
    Esboço para a arte sonhada em cada dia. Para o gesto ínfimo, com o qual aspiramos a construir história.

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    1. Olá T, muito obrigada pela partilha! Final com chave de ouro: "Para o gesto ínfimo, com o qual aspiramos a construir história." Gosto muito. Um abraço e até breve.

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