Hoje é dia de dar resposta ao desafio que lancei aqui.
Apercebi-me entretanto que, por lapso meu, a descrição saiu enganosa, pois não se trata de escrever exactamente cem palavras sobre cada imagem, mas pelo menos cem palavras (longe de mim querer cortar asas a voos criativos mais longínquos, a intenção é justamente a inversa!).
Perdoem-me por isso os leitores e enquanto vou ali num instante corrigir o post inicial, aqui fica o primeiro texto. E não deixem de partilhar os vossos na secção dos comentários!
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- Cristina.
- De donde eres?
- Portugal.
Vou dizer-lhe que estou à espera de alguém, mas é mentira, e por momentos não lhe digo, experimento a verdade a ver se serve.
- Gabriel.
- Como?
Por cima da música.
- Gabriel. Yo soy Gabriel.
- Encantada.
- Igualmente.
- Te gusta el tango, Gabriel?
Si, le gusta. A mim também, é o que lhe digo, logo explicando que não são artistas de rua mas alunos que procuravam um sítio para ensaiar, porque o sítio onde ensaiam ao ar livre, um jardim, estava de algum modo impedido, e eles gostam por vezes de dançar na rua, foi o que me disseram eles, eu não sou daqui, não, mas estou aqui sentada desde há pouco e já perguntei, e o diálogo mais parece um monólogo e alonga-se no meu espanhol esperançado mas insuficiente.
Talvez esteja a encher o espaço entre o desafio e uma mentira. Desafio-me sem saber porquê, excepto que sei que é por este frio na barriga que sinto ao propor-me acreditar que existem estranhos no mundo a quem podemos isentar do velho ensinamento "não se fala com estranhos".
Gabriel está ocupado a desfiar a sua história. Está a caminho de Málaga e de uma qualquer oportunidade de negócio novo. A vida já não é fácil aqui. Mas Gabriel é, apesar de tudo, daqui. Todos temos os nossos desafios.
Eu estou entre ele e os casais que desenham círculos relativamente concêntricos no passeio e agora há mais um, são os alunos iniciados, aposto, e Gabriel parece concordar, porque atacam o piso com vontade mas sem graça. A senhora de saia amarela rodopia nas mãos experientes do parceiro, que joga o seu corpo gentilmente no ar, impondo direcções e traçando perímetros.
A submissão do tango é apenas temporária e à vez, ganha-se na luta pelo espaço, perde-se no peito ofegante, recupera-se num jogo de pés.
Gabriel terminou a sua história. Cedeu-me o espaço. Eu conto-lhe a minha, grandemente deformada. Estou de viagem. Estou aqui. Tenho alguém à minha espera e parei para ver o tango. Tenho alguém à espera e parei para sentir a noite. E Gabriel talvez pressinta a verdadeira essência deste à espera veemente e por isso não insiste.
Já dancei uma milonga. Hoje não. No sítio remoto de onde venho "não se fala com estranhos" não tem excepções duradouras.
