segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma imagem cem palavras - texto n.º 1

Hoje é dia de dar resposta ao desafio que lancei aqui

Apercebi-me entretanto que, por lapso meu, a descrição saiu enganosa, pois não se trata de escrever exactamente cem palavras sobre cada imagem, mas pelo menos cem palavras (longe de mim querer cortar asas a voos criativos mais longínquos, a intenção é justamente a inversa!). 

Perdoem-me por isso os leitores e enquanto vou ali num instante corrigir o post inicial, aqui fica o primeiro texto. E não deixem de partilhar os vossos na secção dos comentários!

***
- Cristina.
- De donde eres?
- Portugal.
Vou dizer-lhe que estou à espera de alguém, mas é mentira, e por momentos não lhe digo, experimento a verdade a ver se serve.
- Gabriel.
- Como? 
Por cima da música.
- Gabriel. Yo soy Gabriel.
- Encantada.
- Igualmente.
- Te gusta el tango, Gabriel?
Si, le gusta. A mim também, é o que lhe digo, logo explicando que não são artistas de rua mas alunos que procuravam um sítio para ensaiar, porque o sítio onde ensaiam ao ar livre, um jardim, estava de algum modo impedido, e eles gostam por vezes de dançar na rua, foi o que me disseram eles, eu não sou daqui, não, mas estou aqui sentada desde há pouco e já perguntei, e o diálogo mais parece um monólogo e alonga-se no meu espanhol esperançado mas insuficiente. 
Talvez esteja a encher o espaço entre o desafio e uma mentira. Desafio-me sem saber porquê, excepto que sei que é por este frio na barriga que sinto ao propor-me acreditar que existem estranhos no mundo a quem podemos isentar do velho ensinamento "não se fala com estranhos".
Gabriel está ocupado a desfiar a sua história. Está a caminho de Málaga e de uma qualquer oportunidade de negócio novo. A vida já não é fácil aqui. Mas Gabriel é, apesar de tudo, daqui. Todos temos os nossos desafios.
Eu estou entre ele e os casais que desenham círculos relativamente concêntricos no passeio e agora há mais um, são os alunos iniciados, aposto, e Gabriel parece concordar, porque atacam o piso com vontade mas sem graça. A senhora de saia amarela rodopia nas mãos experientes do parceiro, que joga o seu corpo gentilmente no ar, impondo direcções e traçando perímetros.
A submissão do tango é apenas temporária e à vez, ganha-se na luta pelo espaço, perde-se no peito ofegante, recupera-se num jogo de pés.
Gabriel terminou a sua história. Cedeu-me o espaço. Eu conto-lhe a minha, grandemente deformada. Estou de viagem. Estou aqui. Tenho alguém à minha espera e parei para ver o tango. Tenho alguém à espera e parei para sentir a noite. E Gabriel talvez pressinta a verdadeira essência deste à espera veemente e por isso não insiste.
Já dancei uma milonga. Hoje não. No sítio remoto de onde venho "não se fala com estranhos" não tem excepções duradouras.

domingo, 10 de março de 2013

A mente consumidora

Lesson learned. A mente consumidora atulha-se até à obesidade. Quer do exterior sempre mais e dá de si sempre menos. Se a espicaço ela mexe-se com gestos curtos, indolentemente, logo deixando os seus braços balofos caírem de volta no sofá, sítio afundado de onde prefere ver a vida. 

É o tipo de mente que vive na música como na televisão, num livro como nas redes sociais, vive nessas e em todas as coisas atrás de portas e janelas fechadas, sem dar um passo, sem acrescentar uma ideia, contida na sua passividade confortável.

É um vício. Com ela repetidamente resvalo na hora em que se exige acção. Uso os outros como dique em vez de dínamo. Canso em vão os olhos, encho em vão o espírito. Se não houver filtro nem limite, fica apenas a mancha grosseira.

A mente consumidora segue o que é fácil. Deambula sonâmbula. E o mais perigoso é que se instala facilmente e facilmente perturba o delicado equilíbrio entre estímulo e espaço vazio de onde desponta a possibilidade de algo novo.

Lesson learned. Escrever de manhã. Ou pelo menos primeiro. Tudo o resto depois. Exercer consciência. Registar leituras. Saber o porquê. Impor critérios. Acordar o corpo. Escapar à inércia.